Kim Kataguiri defende escala 6×1 e diz que vida do trabalhador vai piorar
O deputado federal Kim Kataguiri (Missão-SP) defende, nesta quinta-feira (23), a manutenção da escala 6×1 e afirma que a vida do trabalhador “vai piorar” se o modelo mudar. A declaração ocorre durante sessão da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados, que decide avançar com a proposta de emenda constitucional que mira o fim desse regime de jornada.
Debate na CCJ expõe disputa sobre jornada
A reunião da CCJ gira em torno da Proposta de Emenda à Constituição que pretende extinguir a escala 6×1, hoje comum em setores como comércio, serviços e indústria. O sistema permite que empresas exijam até seis dias consecutivos de trabalho com apenas um dia de descanso semanal, dentro do limite de 44 horas previsto na CLT.
O relatório é aprovado na comissão e libera a PEC para a criação de uma comissão especial, responsável por discutir o mérito e o desenho final da mudança. O texto pode redefinir o teto de horas semanais e a organização das folgas, o que atinge diretamente milhões de trabalhadores formais com carteira assinada.
Enquanto o governo Lula articula apoio ao fim da escala 6×1 e pede mobilização de centrais sindicais, uma ala da Câmara tenta frear o avanço da proposta. É nesse ambiente que Kataguiri usa o microfone para acusar os defensores da PEC de venderem uma promessa que não se cumpre no dia a dia do emprego.
“No futuro, após a aprovação dessa PEC, ou após a aprovação do Projeto de Lei do governo, o trabalhador vai enxergar que foi enganado. Que foi objeto de um palanque político populista, demagogo e mentiroso”, afirma o deputado durante a sessão, em discurso transmitido pelos canais oficiais da Câmara.
Crítica ao “palanque” e alerta de precarização
Kataguiri insiste que a mudança na Constituição não melhora a vida da maior parte da força de trabalho brasileira. Segundo ele, o fim da escala 6×1 pode ter efeito limitado no contracheque e ainda abrir espaço para mais insegurança nas relações de trabalho.
“O trabalhador vai ver que a sua situação de trabalho vai estar mais precarizada, mas só vai perceber depois da eleição”, diz, sugerindo que o debate sobre jornada é usado para acumular capital político em ano pré-eleitoral. O deputado atribui o protagonismo da proposta à deputada Erika Hilton (PSOL-SP) e ao líder do governo na Câmara, Reginaldo Lopes (PT-MG), que assinam a PEC.
Em um trecho do discurso, ele se confunde e declara ser “contra a escala 6×1”, mas o restante da fala deixa claro que o alvo é o fim do modelo. “Eu, pessoalmente, sou contra a escala 6×1. Trabalhei no meu primeiro emprego na escala 6×1, em uma saga de quatro horas de condução. É absolutamente justo que o trabalhador tenha tempo pra estudo, lazer, descanso e com a família. Mas essa aprovação não mudaria em nada meu emprego, porque era informal”, afirma.
O parlamentar afirma que, na prática, a PEC não alcança quem mais sofre com jornadas longas e salários baixos. “A maioria esmagadora” dos trabalhadores, argumenta, está na informalidade ou contratada como pessoa jurídica, fora do alcance direto das regras consolidadas pela CLT. Para esse grupo, diz ele, a promessa de menos horas e mais qualidade de vida não passa de retórica.
Kataguiri aponta que um eventual ganho de popularidade para autores e apoiadores da PEC não se traduz em direitos mensuráveis para quem depende de bicos, aplicativos ou contratos precários. Nessa leitura, a mudança constitucional mexe pouco com o cotidiano de quem não tem registro em carteira, mas ainda assim rearranja custos e riscos para empresas que hoje operam dentro da legislação.
Impacto na legislação trabalhista e disputa política
O debate sobre a escala 6×1 se transforma em mais um capítulo da disputa sobre o rumo da legislação trabalhista após a reforma de 2017. De um lado, centrais sindicais e o governo Lula defendem uma revisão do modelo para reduzir jornadas exaustivas e ampliar folgas, em linha com promessas de valorização do trabalho formal. De outro, parlamentares liberais e parte do empresariado argumentam que mudanças bruscas podem ampliar custos, reduzir contratações formais e empurrar mais pessoas para a informalidade.
Kim explora esse ponto ao sustentar que o caminho para melhorar a renda passa menos pela Constituição e mais pela desoneração. “PEC não altera a realidade do trabalhador. O que faria que a população trabalhasse menos e ganhasse mais é, dentre outras coisas, cortar imposto. Só que essa discussão ninguém quer ter”, afirma.
Na visão do deputado, o risco é que empresas ajustem a jornada no papel e compensem com cortes de benefícios, reestruturação de equipes ou aumento da pressão por metas. Para ele, esse processo leva à precarização, conceito usado para descrever postos de trabalho mais instáveis, com menos direitos e maior rotatividade.
O avanço da PEC coincide com a tramitação de um projeto de lei do próprio governo Lula sobre a jornada 6×1, o que adiciona camadas de disputa entre Executivo e Legislativo. O deputado menciona as duas frentes e diz que o trabalhador só notará o impacto “depois da eleição”, quando o debate eleitoral arrefecer e as novas regras já estiverem em vigor.
Próximos passos e incertezas para o trabalhador
Com a aprovação do relatório na CCJ, a proposta segue agora para uma comissão especial, que terá prazo determinado para discutir o mérito da mudança. O colegiado deve detalhar o novo limite de horas semanais, o formato das escalas e as possíveis exceções para setores que funcionam em regime contínuo, como saúde, transporte e serviços essenciais.
O governo tenta acelerar o calendário e articula votação ainda neste ano, de olho em 2026, quando as mudanças podem começar a produzir efeitos concretos em contratos e negociações coletivas. Centrais sindicais prometem pressão nas ruas e nos gabinetes, com campanhas para mobilizar categorias que hoje cumprem jornadas de até 44 horas semanais sob o modelo 6×1.
Kataguiri, por sua vez, aposta no desgaste posterior da medida. “Eu sei que isso me tira voto, sei que isso é impopular, mas eu tenho coragem de vir aqui defender a verdade e o que acredito, porque não troco minha convicção pela eleição”, diz, em tom de enfrentamento aos defensores do fim da escala.
O desfecho do embate definirá não apenas a redação final da PEC, mas também o peso da agenda trabalhista na campanha de 2026. Entre promessas de mais descanso e alertas de precarização, o trabalhador brasileiro se torna o centro de uma disputa em que o impacto real, como admite o próprio deputado, só ficará evidente quando a política sair do palanque e entrar no contracheque.
