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Flávio Bolsonaro patina para montar palanque em Minas em 2026

Flávio Bolsonaro enfrenta, em abril de 2026, um dos nós mais difíceis de sua pré-campanha presidencial: a montagem de um palanque competitivo em Minas Gerais. O senador do PL vê o principal estado-pêndulo do país se transformar em campo minado, com alianças incertas, rivais na própria direita e risco de fragmentação do bolsonarismo.

Minas vira teste decisivo para o projeto do PL

Minas Gerais decide eleições presidenciais há duas décadas e concentra quase 16 milhões de eleitores. Nenhum presidente é eleito sem ir bem no estado desde 2002. É nesse tabuleiro que Flávio Bolsonaro tenta, até aqui sem sucesso, encontrar um aliado sólido para chamar de seu.

O senador chega a 2026 sem um palanque garantido. O governador Matheus Simões, do PSD, é visto com desconfiança por dirigentes do PL. Pesquisas internas apontam desempenho abaixo do esperado, o que reduz o entusiasmo com uma eventual reeleição apoiada pelo bolsonarismo. A hipótese de abraçar o senador Cleitinho, do Republicanos, hoje favorito na disputa estadual, também divide o partido. Uma candidatura própria do PL, por sua vez, é tratada como aposta de alto risco num cenário congestionado.

Aliados de Flávio descrevem o estado como “campo minado”. Cada movimento afeta não só a eleição local, mas a estratégia presidencial do PL. Enquanto o presidente Lula articula o apoio ao senador Rodrigo Pacheco, do PSB, o campo bolsonarista se vê pressionado a definir um rumo para não chegar a outubro em desvantagem.

Disputa por aliados, medo de rival interno e Senado congestionado

A engrenagem trava em vários pontos ao mesmo tempo. Apoiar Matheus Simões significaria reconhecer o PSD como principal parceiro em Minas. A equação se complica com a recente filiação do senador Carlos Viana ao partido. Candidato natural à reeleição, Viana ocupa uma das vagas ao Senado na chapa do governo e reduz o espaço de negociação para o PL.

O governador precisa escolher entre o nome do PL para o Senado, o deputado Domingos Sávio, e o ex-deputado Marcelo Aro, hoje no PP e ex-articulador político de Romeu Zema. A avaliação entre caciques do PL é que a chegada de Viana “congestiona” a corrida ao Senado. Na prática, torna quase impossível para Simões abraçar ao mesmo tempo Domingos Sávio e Marcelo Aro, dois quadros que o bolsonarismo gostaria de manter no radar.

Nesse contexto, cresce a tentação de embarcar na candidatura de Cleitinho, que se apresenta como representante da direita bolsonarista em Minas. O movimento, porém, sofre forte resistência interna. Deputados como Nikolas Ferreira, um dos campeões de votos do PL, vêem o senador do Republicanos como aliado pouco confiável. “Cleitinho não tem alinhamento de fato com as pautas bolsonaristas”, resume um interlocutor da sigla, sob reserva.

A desconfiança é alimentada por episódios recentes. Em outubro passado, Cleitinho afirma que sua “dívida” com Jair Bolsonaro está paga. Questionado se seguiria o nome indicado pelo ex-presidente ao Planalto, o senador responde: “Se eu achar que não tenho os mesmos pensamentos que esse candidato que o Bolsonaro apoiar, eu não preciso apoiar, não”. Após a repercussão negativa, pede desculpas, mas a declaração vira munição para quem teme um concorrente interno no campo da direita.

Dirigentes do PL relatam incômodo com o que chamam de “natureza imprevisível” de Cleitinho, que alterna gestos de aproximação e distanciamento em relação ao bolsonarismo. Uma eventual vitória dele ao governo, sem laços firmes com o partido, poderia criar um novo polo de poder conservador em Minas, fora do controle do PL.

Risco fiscal em Minas e temor de desgaste nacional

O cálculo político passa também pela situação das contas mineiras. O estado acumula dívida de cerca de R$ 187 bilhões com a União e negocia saídas desde o governo Romeu Zema. Nos bastidores, integrantes do PL descrevem Minas como “bomba-relógio fiscal”. Um erro na escolha do candidato ao governo, avaliam, pode estourar no colo do bolsonarismo em 2027.

Uma ala do partido teme que um governo Cleitinho, sem histórico de gestão executiva, enfrente dificuldades para lidar com o passivo. Um eventual fracasso administrativo seria explorado por adversários e poderia comprometer a imagem de Flávio Bolsonaro em todo o país. O mesmo raciocínio se aplica a uma candidatura própria do PL, vista como tiro no escuro num estado complexo, endividado e politicamente fragmentado.

A alternativa mais discreta, hoje, é investir num palanque compartilhado com Matheus Simões, desde que o governador recupere fôlego nas pesquisas. A peça central dessa costura é o ex-governador Romeu Zema, do Novo. Flávio trabalha para tê-lo como vice na chapa presidencial. Se o acordo avançar, o gesto natural seria apoiar a reeleição de Simões, herdeiro político de Zema.

Zema preserva, desde 2018, uma base expressiva no eleitorado de centro-direita mineiro e mantém boa imagem entre o empresariado. Seu nome ajuda a atenuar resistências locais e é visto por bolsonaristas como selo de gestão responsável em um estado em crise fiscal. O cálculo no PL é que um aceno de Zema poderia destravar tanto a questão do palanque quanto as negociações para o Senado.

Candidatura própria ganha força e aumenta incerteza

Diante de impasses com Simões e Cleitinho, cresce a chance de o PL lançar um nome próprio ao governo. O favorito do partido é o empresário Flávio Roscoe, ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), filiado em março. Roscoe é apresentado como outsider com trânsito no setor produtivo e discurso alinhado à agenda liberal.

A aposta tem prós e contras. Uma candidatura própria garante a Flávio Bolsonaro controle total do palanque mineiro, inclusive da chapa ao Senado, que reserva a segunda vaga para negociação com outros partidos. Também oferece vitrine para o PL fincar bandeira no segundo maior colégio eleitoral do país. Em compensação, fragmenta ainda mais a direita, que já vê o campo conservador ocupado por Cleitinho, Simões e, no outro extremo, por Rodrigo Pacheco, apoiado por Lula.

Mesmo sem o apoio do PL, Cleitinho segue competitivo. A cúpula bolsonarista teme que ele retenha boa parte do eleitorado de direita, impeça a arrancada de Simões e abra caminho para o crescimento de Pacheco. Um cenário de três candidaturas fortes nesse campo poderia levar a eleição estadual para um segundo turno imprevisível, com reflexos diretos na campanha presidencial.

A disputa em Minas, assim, passa a ser observada com lupa em Brasília. A forma como Flávio Bolsonaro solucionará o quebra-cabeça mineiro ajuda a medir sua capacidade de articulação nacional, num momento em que o governo Lula testa narrativas para confrontá-lo e associa sua imagem a figuras globais como Donald Trump. Até aqui, o PL não encontra a fórmula para unir bolsonaristas, aliados tradicionais e novos quadros da direita no estado.

Definições nos próximos meses e pressão por unidade

Os próximos meses serão decisivos para destravar o jogo. As convenções partidárias, previstas para o segundo semestre, impõem prazos concretos para registrar candidaturas e formalizar coligações. Até lá, Flávio Bolsonaro precisa decidir se prioriza a segurança de um acordo com o PSD, o risco calculado de apostar em Cleitinho ou a ousadia de bancar Flávio Roscoe no Palácio Tiradentes.

As conversas com Romeu Zema funcionam como termômetro da costura mais ampla. Um sim do ex-governador ao convite para a vice-presidência poderia reordenar o xadrez local, fortalecer Matheus Simões e empurrar parte da direita para um mesmo campo. Um gesto de distanciamento, por outro lado, deixaria o PL ainda mais isolado em Minas e aumentaria o peso de uma candidatura própria.

Minas continua sendo o teste mais sensível da viabilidade do projeto nacional de Flávio Bolsonaro. A definição do palanque no estado indicará se o bolsonarismo consegue superar divisões internas e construir uma frente competitiva ou se chegará a 2026 dividido, vulnerável e com menos capacidade de disputar o eleitorado decisivo do país.

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