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Irã invade navios e cobra pedágio para cruzar Estreito de Ormuz

Tropas da Guarda Revolucionária do Irã invadem dois navios mercantes e consolidam o controle do Estreito de Ormuz nesta quarta-feira (22), perto da ilha de Qeshm. Teerã passa a cobrar pedágio pela passagem e mantém, na prática, bloqueada uma rota por onde costuma trafegar cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo.

Imagens de ação em mar estratégico

A ofensiva iraniana vem à tona durante a madrugada, quando a TV estatal exibe imagens em alta definição. Um grupo de soldados mascarados, em uma lancha cinza, se aproxima do porta-contêineres MSC Francesca. Eles lançam uma escada de corda, sobem até uma escotilha no casco e desaparecem no interior do navio com fuzis em punho.

As cenas seguem o mesmo roteiro no cargueiro Epaminondas, também abordado nas águas estreitas que separam o Irã da península Arábica. Não há narração, apenas uma trilha sonora de filme de ação. O objetivo visual é claro: mostrar ao público interno e aos rivais externos quem manda hoje no gargalo energético do planeta.

Autoridades iranianas afirmam que as duas embarcações tentam cruzar o estreito sem autorização. O chefe do Judiciário, Gholamhossein Mohseni-Ejei, declara que os navios “responderam perante a lei”. Não há confirmação independente sobre a rota ou a carga dos cargueiros, nem detalhes sobre a tripulação.

O movimento ocorre em resposta direta ao bloqueio americano à navegação iraniana e aos ataques iniciados pelos Estados Unidos e por Israel na região em fevereiro. Desde então, Teerã restringe a passagem de embarcações estrangeiras e utiliza o Estreito de Ormuz como peça central no tabuleiro da guerra e da diplomacia.

Pedágio em rota vital do petróleo

O vice-presidente do Parlamento, Hamidreza Hajibabaei, anuncia que a primeira receita do novo pedágio já chega à conta do banco central iraniano. Ele evita especificar quem paga, quando paga e quanto paga, mas confirma que a cobrança está em vigor para todos os navios que cruzam Ormuz. O valor funciona, ao mesmo tempo, como fonte de receita e instrumento de pressão contra Washington.

Teerã declara que não voltará a abrir o estreito para o tráfego pleno até que os Estados Unidos suspendam o bloqueio à sua marinha mercante. Durante o cessar-fogo de duas semanas, Washington intercepta pelo menos três petroleiros com bandeira iraniana em águas asiáticas e os redireciona para longe de áreas próximas à Índia, Malásia e Sri Lanka, segundo fontes marítimas e de segurança.

Navios de guerra americanos tentam se aproximar de Ormuz, mas encontram barreiras no mar. Lanchas rápidas e drones marítimos da Guarda Revolucionária se abrigam em cavernas naturais ao redor de ilhas na entrada do estreito, o que dificulta qualquer movimentação da Marinha dos EUA sem risco de confronto direto. O cenário é de permanente prontidão, com armas letais a poucos quilômetros de rotas por onde circulam bilhões de dólares em energia a cada dia.

O estreito, que conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã, já foi palco de crises anteriores, como os incidentes com petroleiros em 2019 e o fechamento parcial durante a guerra Irã-Iraque nos anos 1980. A diferença agora está no grau de integração da economia global e na dependência das cadeias de suprimento em tempo real. Qualquer interrupção prolongada tende a se refletir em poucos dias nas bombas de gasolina e nas contas de energia.

Mercado em alerta e diplomacia travada

A ofensiva iraniana ocorre horas depois de fracassarem as negociações de paz de última hora, previstas para terça-feira (22), pouco antes do fim do cessar-fogo. O presidente americano, Donald Trump, recua da ameaça de retomar ataques militares contra o Irã, mas mantém o bloqueio naval. O cessar-fogo acaba sem prorrogação formal e sem data para novas conversas.

No interior do Irã, o clima é de incerteza permanente. “Em uma situação que não é nem paz nem guerra, as coisas são um tanto assustadoras”, relata Arash, 35, funcionário público em Teerã, à agência Reuters. “A cada momento, você pensa que Israel ou os EUA podem lançar um ataque. Você não pode tomar decisões sobre o futuro em uma situação como essa.”

O Paquistão, que recebe a primeira rodada de conversas no início do mês, tenta manter canais abertos com os dois lados. Uma fonte do governo paquistanês afirma que Teerã se recusa a confirmar o envio de nova delegação, citando o bloqueio americano e outras divergências políticas. Sem o Irã à mesa, mediadores veem pouco espaço para avanços.

Enquanto isso, uma guerra paralela segue no norte. Os Estados Unidos se preparam para sediar, nesta quinta-feira (23), uma segunda rodada de negociações entre Israel e Líbano. Beirute busca estender a trégua alcançada na semana anterior, mas enfrenta novos ataques israelenses que deixam cinco mortos, entre eles uma jornalista, na quarta-feira. É o dia mais letal no país desde a entrada em vigor do cessar-fogo mediado por Washington.

Teerã condiciona qualquer avanço nas negociações mais amplas da guerra à manutenção do cessar-fogo no Líbano. A mensagem é que o conflito em Ormuz não se separa do que acontece no sul libanês, nem da campanha aérea israelense mais ampla.

Risco de escalada e guerra de nervos

No curto prazo, o controle reforçado sobre Ormuz funciona como uma alavanca de poder para o Irã e uma fonte de inquietação para os mercados. A cobrança de pedágio, somada à ameaça constante de novos ataques ou apreensões, pode encarecer seguros marítimos, elevar fretes e pressionar o preço do barril de petróleo e do gás liquefeito em bolsas da Ásia à Europa.

Companhias de navegação passam a revisar rotas, cronogramas e custos, enquanto governos da região observam o grau de exposição de suas economias. Países que importam grande parte do combustível via Golfo Pérsico, como Índia, China, Japão e membros da União Europeia, terão de decidir quanto risco estão dispostos a tolerar em uma área sob disputa direta entre Irã e Estados Unidos.

Do ponto de vista militar, a presença simultânea de lanchas rápidas iranianas, drones marítimos armados e navios de guerra americanos aumenta o risco de incidentes acidentais. Um disparo mal interpretado, uma colisão ou a abordagem de um navio com bandeira de país aliado podem transformar a atual guerra de pressão em confronto aberto.

Analistas veem poucas saídas fáceis. Retirar o bloqueio à navegação iraniana significaria, para Washington, conceder uma vitória simbólica a Teerã em plena guerra. Manter a pressão, por outro lado, prolonga o bloqueio de fato em Ormuz e aprofunda a percepção de vulnerabilidade energética global.

Entre as cavernas que abrigam drones no Golfo e as salas de comando em Washington e Teerã, o estreito se transforma em termômetro e gatilho da crise. A próxima rodada de negociações, se acontecer, terá de responder a uma pergunta central: quem controla a porta de saída do petróleo mundial e a que preço.

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