Fluminense perde de virada no Maracanã e se complica na Libertadores
O Fluminense perde de virada para o Independiente Rivadavia por 2 a 1 no Maracanã, nesta quarta-feira (15), pela fase de grupos da Libertadores 2026. O resultado interrompe uma invencibilidade de cinco anos em casa na competição e aumenta a pressão sobre elenco, técnico e diretoria tricolor.
Virada em plena noite de Maracanã e clima azedo nas arquibancadas
O Maracanã vive um daqueles jogos que começam em clima de festa e terminam em vaia. O gol de Guilherme Arana aos nove minutos do primeiro tempo dá a impressão de uma noite tranquila para o Fluminense. A equipe troca passes com velocidade, Savarino comanda as ações ofensivas e o Independiente Rivadavia parece encaixotado no próprio campo.
A sensação nas cadeiras é de que o time argentino não resiste ao volume tricolor. O Fluminense empurra o adversário para trás, ocupa o campo ofensivo e cria um cenário que lembra as boas atuações recentes em casa pela Libertadores. O gol nasce justamente dessa superioridade: Savarino encontra Arana infiltrando pela esquerda, o lateral aparece livre na área e finaliza firme para abrir o placar.
O roteiro começa a mudar ainda no primeiro tempo. O ritmo cai, os erros se acumulam e Ganso desaparece da articulação. Canobbio insiste em arrancadas pela direita, mas toma decisões equivocadas. Castillo, centroavante escolhido por Luís Zubeldía, fica preso entre os zagueiros argentinos e participa pouco. O Independiente Rivadavia percebe a oscilação e avança alguns metros.
O empate surge aos 36 minutos, em lance que escancara a desconcentração tricolor. Após cruzamento e corte parcial de Freytes, a bola sobra viva na área. Villa escora com inteligência para Sartori, que finaliza rasteiro e silencia parte do estádio. O gol expõe uma mudança de cenário: o visitante, estreante na Libertadores, já não parece intimidado pelo Maracanã.
Erro grotesco na defesa, tabela embolada e pressão crescente
Zubeldía tenta retomar o controle do meio-campo no intervalo. O técnico promove a entrada de Facundo Bernal no lugar de Hércules, adianta Martinelli e busca mais agressividade com a bola. O plano dura poucos minutos. Aos seis do segundo tempo, uma sequência de falhas individuais transforma um ataque promissor em pesadelo defensivo.
Após cabeceio de Bernal na área argentina, o goleiro Bolcato liga rápido o contra-ataque. Villa dispara nas costas de Samuel Xavier e encontra a defesa do Fluminense desorganizada. Fábio sai do gol e afasta de cabeça com pouco alcance. Canobbio tenta corrigir, mas recua errado dentro da área. Samuel Xavier não consegue travar o lance. Fábio ainda realiza uma primeira defesa, no limite de cometer pênalti, mas Arce aproveita a sobra e bate para marcar o 2 a 1.
O gol da virada transforma o ambiente no estádio. Parte da torcida passa a vaiar Samuel Xavier, Ganso e Canobbio a cada erro. Os dois primeiros acabam substituídos sob uma mistura de aplausos e protestos. O Fluminense mantém a posse de bola, ronda a área rival, mas esbarra em um bloqueio argentino disciplinado, com linhas recuadas e marcação firme.
O Independiente Rivadavia assume o papel de visitante pragmático. Defende com nove jogadores atrás da linha da bola, administra o tempo e espera um último contra-ataque para matar o jogo. O Fluminense, nervoso, não consegue aproveitar nem o jogo aéreo, principal arma de Castillo, que recebe poucos cruzamentos em condição de finalização. A melhor chance na etapa final vem em chute de Savarino, defendido por Bolcato.
Os números da tabela ajudam a dimensionar o estrago. O Fluminense soma apenas um ponto em dois jogos no Grupo C, após empatar na estreia e perder em casa. O Independiente Rivadavia, que disputa a Libertadores pela primeira vez, chega a seis pontos e abre vantagem na liderança. La Guaira e Bolívar, que empatam na rodada, ficam com dois pontos cada, o que evita um cenário ainda pior para o time carioca.
A derrota também quebra uma marca simbólica. O Fluminense não perdia no Maracanã pela Libertadores desde 2021, quando cai diante do Junior Barranquilla. O intervalo de cinco anos sem tropeços em casa termina com um rival de menor tradição continental, o que aumenta a sensação de constrangimento entre torcedores e dirigentes.
O clima político no clube entra em campo. Parte da arquibancada canta “time sem vergonha” e xinga o presidente Matheus Montenegro, mistura de irritação com o desempenho recente e desgaste acumulado pelo adiamento do clássico contra o Flamengo. Em poucos dias, o Fluminense soma duas derrotas, vê a confiança abalada e escuta cobranças mais duras das sociais ao setor popular.
Altitude pela frente, grupo pressionado e respostas urgentes
Zubeldía arrisca tudo nos minutos finais. O técnico retira o zagueiro Ignacio para lançar John Kennedy e recua Bernal para a zaga. A tentativa é povoar a área adversária e forçar o erro argentino, em um movimento que lembra decisões de Fernando Diniz, antecessor no cargo. A pressão, porém, não se converte em chances claras. A sensação no apito final é de uma equipe que produz menos do que a necessidade da competição exige.
A sequência de jogos aumenta o peso da noite no Maracanã. A próxima partida pela Libertadores está marcada para 30 de abril, contra o Bolívar, na altitude de La Paz. A viagem coloca em campo um histórico conhecido: brasileiros costumam sofrer fisicamente em altitudes acima de 3.500 metros, o que torna o duelo ainda mais delicado para um time em busca da primeira vitória no torneio.
Antes da ida à Bolívia, o Fluminense enfrenta o Santos no domingo, pela segunda rodada do Brasileirão, na Vila Belmiro. O compromisso nacional vira teste imediato de reação. Um novo tropeço pode transformar a turbulência em crise aberta, com reflexos diretos sobre o elenco e a diretoria.
O Independiente Rivadavia, por sua vez, volta para Mendoza fortalecido. O clube argentino, estreante na Libertadores, conquista seis pontos em dois jogos, derruba um campeão recente da competição em pleno Maracanã e ganha fôlego financeiro e esportivo. A liderança do grupo permite projetar a classificação ao mata-mata com menos pressão e mais margem para erro.
O cenário na chave C fica claro: o Fluminense corre atrás. Com um ponto em dois jogos e sem vitórias, o atual campeão precisa pontuar fora de casa para não depender de combinações improváveis nas rodadas finais. A noite em que a torcida deixa o estádio aos gritos de revolta marca mais do que uma simples derrota. Coloca em xeque a confiança no trabalho de Zubeldía, expõe fragilidades defensivas e abre uma pergunta que acompanha o clube até o fim de abril: o time consegue se reencontrar a tempo de evitar uma eliminação precoce na Libertadores?
