Ciencia e Tecnologia

Terra fica 16% mais luminosa à noite em oito anos, mostra estudo

A luminosidade noturna global aumenta 16% entre 2014 e 2022, segundo estudo liderado por universidades dos EUA e da Alemanha, publicado nesta quarta-feira (8) na revista Nature. A pesquisa mostra que o planeta não apenas brilha mais, mas também revela um mosaico de luzes que se acendem e se apagam ao sabor de urbanização, crises econômicas e conflitos armados.

Um planeta que não acende nem apaga de forma uniforme

O trabalho é conduzido pelo professor Zhe Zhu, da Universidade de Connecticut, e por Christopher Kyba, da Universidade Ruhr de Bochum, na Alemanha. A equipe analisa mais de um milhão de imagens diárias de um satélite de observação da Terra operado pelo governo dos Estados Unidos, processadas pela Nasa, para reconstruir como o planeta brilha noite após noite ao longo de oito anos.

Ao contrário da imagem tradicional de um globo que se ilumina de forma constante com o crescimento da população e da economia, os pesquisadores encontram um cenário muito mais dinâmico. “Descobrimos que a paisagem noturna da Terra é, na verdade, altamente volátil”, afirma Zhu. “A área de incidência luminosa do planeta está em constante expansão, contração e mudança.”

Os dados mostram que o crescimento da luminosidade se concentra em regiões que passam por rápida urbanização, expansão de infraestrutura e eletrificação de áreas que antes viviam na penumbra. Em 2022, os Estados Unidos aparecem como o país com maior luminosidade total, seguidos por China, Índia, Canadá e Brasil. A lista revela não só o peso econômico dessas nações, mas também o alcance de suas redes elétricas e de suas metrópoles.

Entre 2014 e 2022, o estudo identifica recuperação expressiva nas economias emergentes, sobretudo na África Subsaariana e no Sudeste Asiático. Somália, Burundi e Camboja lideram o avanço, acompanhados por países como Gana, Guiné e Ruanda. São regiões que, em muitos casos, deixam para trás a escuridão quase total e se conectam de forma acelerada à rede elétrica global.

“Não se trata apenas de urbanização. É uma expansão massiva do acesso à energia”, diz Zhu. “Esses números representam uma mudança profunda, à medida que regiões inteiras passam da escuridão quase total para a integração à rede elétrica global.” O mapa noturno, antes marcado por grandes vazios em partes da África e da Ásia, ganha manchas novas de luz que ocupam rodovias recém-construídas, bairros periféricos e pequenas cidades recém-eletrificadas.

Crises, guerras e políticas públicas redesenham o mapa da noite

O brilho extra, porém, não segue uma linha reta. O mesmo conjunto de dados que registra o avanço da eletricidade também revela o apagão silencioso de regiões inteiras sob pressão de conflitos, colapsos econômicos e desastres naturais. Líbano, Ucrânia, Iêmen e Afeganistão aparecem entre os países com perdas mais intensas de luz, refletindo destruição de infraestrutura e instabilidade nas redes elétricas.

Na Ucrânia, os pesquisadores observam uma queda acentuada e sustentada na luminosidade a partir de fevereiro de 2022, quando a Rússia lança a invasão em larga escala. “Na Ucrânia, observamos uma queda acentuada e sustentada na luminosidade, que coincidiu perfeitamente com a escalada do conflito em fevereiro de 2022”, relata Zhu. O escurecimento não é uniforme: grandes áreas urbanas perdem brilho, enquanto pontos isolados, como instalações estratégicas, permanecem intensos.

O estudo identifica padrão semelhante em partes do Oriente Médio, onde ondas de violência e colapso de serviços básicos resultam em apagões prolongados. “Observamos uma escuridão repentina semelhante caindo sobre regiões do Oriente Médio durante períodos de conflito”, afirma Zhu. No Haiti e na Venezuela, a retração da luz está mais associada a crises econômicas persistentes e ao fornecimento instável de energia, que se traduzem em bairros inteiros às escuras.

Nem todo escurecimento, porém, nasce da crise. Em várias regiões desenvolvidas, a diminuição gradual da luminosidade é resultado de decisões deliberadas. Governos incentivam a troca de lâmpadas antigas por LEDs mais eficientes, redesenham a iluminação pública para reduzir desperdícios e aprovam regras destinadas a proteger o céu noturno. A Europa registra um declínio líquido de 4% na radiação luminosa noturna no período, impulsionado por avanços tecnológicos e políticas ambientais.

“Isso se deve a uma mudança generalizada de postes de iluminação mais antigos e menos eficientes, como as lâmpadas de sódio de alta pressão, para sistemas de LED direcionais mais modernos, bem como a rigorosos mandatos nacionais de eficiência energética e esforços de conservação do céu noturno”, explica Zhu. Ele destaca a França como referência global. Lá, cidades adotam o desligamento programado de postes durante a madrugada, quando as ruas já estão vazias.

Kyba vê na experiência francesa um laboratório para o resto do mundo. “O escurecimento na França, ocorrido devido a decisões deliberadas de desligar os postes de luz tarde da noite, quando já não há atividade nas ruas, é extraordinário”, afirma. “Será muito interessante observar como isso se desenvolve ao longo do tempo e se essa prática se expande para além da França.” A política reduz custos, corta emissões e devolve parte do céu estrelado às populações urbanas.

Nos Estados Unidos, o retrato é mais heterogêneo. O país registra aumento líquido de 6% na luminosidade, mas com comportamentos distintos entre regiões. “Geograficamente, os EUA oferecem um microcosmo dessa complexidade global da iluminação”, resume Zhu. Segundo ele, a Costa Oeste se torna mais luminosa, em linha com o crescimento populacional e a força das economias tecnológicas, enquanto partes da Costa Leste e do Meio-Oeste escurecem.

O movimento reflete a densificação de antigos centros urbanos, o declínio de setores industriais tradicionais e a adoção agressiva de programas de iluminação inteligente em cidades como Washington, D.C., e Chicago. Postes passam a usar sensores, reduzem a intensidade em horários de baixo movimento e direcionam a luz para o chão, e não para o céu. O mapa noturno dos EUA, antes marcado por halos uniformes ao redor das metrópoles, ganha contornos mais nítidos e recortes escuros em áreas industriais em retração.

Da poluição luminosa às próximas fronteiras de regulação

A revolução elétrica que começa com lampiões a gás no início do século XIX e se consolida com a iluminação pública moderna agora entra em uma nova fase. O desafio já não é apenas levar luz a quem vive no escuro, mas decidir quanta luz é aceitável em um planeta que nunca mais dorme. A poluição luminosa, antes um tema restrito a astrônomos e ambientalistas, entra no debate sobre saúde pública, biodiversidade e planejamento urbano.

“A poluição luminosa tem profundas consequências ecológicas, perturbando os ecossistemas noturnos, as migrações animais e os ritmos circadianos humanos”, alerta Zhu. Estudos associam a exposição constante à luz artificial a problemas de sono, alterações hormonais e impactos indiretos em doenças crônicas. Espécies que dependem da escuridão para se orientar, caçar ou se reproduzir também sofrem: aves migratórias se chocam contra fachadas iluminadas, tartarugas marinhas desorientam filhotes em praias turísticas, insetos polinizadores mudam de comportamento.

O novo mapeamento global oferece uma espécie de radiografia da noite terrestre, útil não apenas para astrônomos, mas para gestores públicos e organismos internacionais. Com séries históricas detalhadas, governos podem avaliar se políticas de eficiência energética realmente reduzem o brilho, se programas de eletrificação chegam às áreas mais pobres e se guerras, desastres ou crises econômicas deixam suas marcas no escuro.

O estudo também reforça a importância de integrar o tema da luminosidade noturna às metas climáticas e de desenvolvimento sustentável. Lâmpadas mais eficientes e bem direcionadas reduzem o consumo de energia e as emissões associadas, mas exigem planejamento e fiscalização. A experiência europeia, com queda de 4% na radiação luminosa, sugere que é possível manter segurança pública e atividade econômica com menos desperdício de luz.

Nos próximos anos, os pesquisadores pretendem acompanhar a evolução regional do brilho noturno e cruzar os dados com informações socioeconômicas mais detalhadas. A ideia é entender, por exemplo, como programas de combate à pobreza, planos diretores urbanos ou novos corredores industriais se traduzem em pontos de luz no mapa. A mesma metodologia pode ajudar a monitorar em tempo quase real o impacto de guerras e catástrofes, em um tipo de vigilância global que não depende de fronteiras.

Enquanto novas imagens de satélite chegam diariamente, a discussão sobre o direito à noite ganha força em fóruns ambientais e urbanos. Cidades começam a testar zonas de proteção do céu escuro, normas para fachadas comerciais e limites de luminosidade em áreas residenciais. A Terra continua a brilhar mais a cada ano, mas o estudo sugere que a pergunta central muda de tom: não é apenas se vamos iluminar o planeta inteiro, e sim como escolher onde e quando vale a pena acender a luz.

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