Flamengo vence na altitude de Cusco e lidera Grupo A da Libertadores
Atual campeão da Libertadores, o Flamengo estreia com vitória segura fora de casa. Na noite desta quarta-feira (8), o time vence o Cusco por 2 a 0, a 3,4 mil metros de altitude, e assume a liderança isolada do Grupo A.
Inteligência tática na estreia em Cusco
O resultado em Cusco confirma o que cerca o Flamengo desde o título de 2025: o time entra em campo pressionado pelo rótulo de favorito e responde com desempenho. A vitória em um dos estádios mais hostis da América do Sul, o Garcilaso de La Vega, a 3,4 mil metros acima do nível do mar, testa não só a parte física, mas a organização do atual campeão.
O roteiro da noite no Peru combina cálculo e coragem. Leonardo Jardim decide escalar uma equipe mais leve, preparada para correr em campo de oxigênio rarefeito e para acelerar quando surgem espaços. A escolha se impõe desde o primeiro tempo, quando o Flamengo controla a bola, dita o ritmo e limita o Cusco a chutes de média distância, arma clássica de times acostumados à altitude.
De la Cruz e Lucas Paquetá organizam o meio-campo e conectam os lados do campo. Plata, aberto pela esquerda, vira válvula de escape e primeira ameaça real. Aos seis minutos, ele recebe na entrada da área e solta um chute forte no ângulo, que exige intervenção difícil de Pedro Díaz. A jogada antecipa o desenho da partida: o Flamengo usa passes curtos, paciência e finalizações de fora da área para evitar corridas longas.
O Cusco responde aos 22 minutos, quando Nicolás Silva tabela com Carabajal e arrisca de longe, obrigando Rossi a espalmar no alto. A equipe peruana insiste nesse recurso, mas encontra um Flamengo compacto, com a defesa bem protegida por Evertton Araújo. A partida avança em equilíbrio no placar, não no controle. A bola circula mais nos pés rubro-negros, que parecem menos afetados pelo ar rarefeito que os anfitriões.
Gols, VAR e liderança isolada no grupo
O jogo muda de vez no segundo tempo. O Cusco adianta a marcação, tenta encurtar o campo e se lança mais ao ataque. O movimento abre o espaço que o Flamengo espera desde o início. Aos 13 minutos, Plata acelera pela esquerda e aciona Ayrton Lucas, que chega em velocidade e cruza na medida. Bruno Henrique mergulha de peixinho e testa firme para fazer 1 a 0, comemorando cercado pelos companheiros no alto de Cusco.
O gol não derruba o time peruano, que responde rápido. Seis minutos depois, Ruidías completa para o gol após jogada pela esquerda, e o estádio explode. A festa dura pouco. O lance entra em revisão, o VAR traça as linhas e aponta impedimento de Manzaneda na origem da jogada. Após quatro minutos de checagem, o árbitro paraguaio Derlis López anula o empate. O alívio rubro-negro é visível, assim como a irritação dos jogadores do Cusco.
Jardim lê o desgaste com atenção. A altitude cobra seu preço, e alguns titulares demonstram fadiga. O técnico recorre ao banco e aciona Léo Ortiz e Arrascaeta, além de Luiz Araújo e Pedro, para renovar fôlego e preservar a vantagem. O Flamengo recua alguns metros, aceita sofrer sem a bola e aposta em novos contra-ataques, enquanto a equipe peruana tenta o tudo ou nada.
O golpe final vem nos acréscimos. Aos 46 minutos do segundo tempo, Luiz Araújo dispara em transição rápida e chuta forte. Díaz rebate, Arrascaeta pega o rebote e finaliza novamente. O goleiro defende de novo, mas, na terceira tentativa, o uruguaio testa para a rede e define o 2 a 0. A vibração do meia resume o peso da estreia: um time que sabe sofrer e matar o jogo quando tem a chance.
Os números da chave ajudam a dimensionar o resultado. No outro duelo do Grupo A, Independiente de Medellín e Estudiantes empatam por 1 a 1. O Flamengo fecha a primeira rodada com três pontos e saldo de dois gols, líder isolado e com vantagem inicial importante sobre colombianos e argentinos, que somam um ponto cada.
Desafios físicos, elenco curto e disputa em duas frentes
A noite em Cusco começa antes mesmo do apito inicial. A diretoria rubro-negra monta uma operação específica para atenuar os efeitos da altitude. A delegação se hospeda em um hotel com sistema de oxigenação nos quartos, que reduz a sensação de altitude para menos de 2,5 mil metros. O clube prevê ainda uma segunda noite no local, já que o aeroporto da cidade não funciona de madrugada, e programa o retorno ao Rio para a manhã de quinta-feira.
A preparação ajuda, mas não resolve tudo. O Flamengo entra em campo com cinco desfalques relevantes: Jorginho, com lesão na panturrilha esquerda; Erick Pulgar, com problema no ombro direito; Alex Sandro, com lesão na coxa direita; Everton Cebolinha, com fratura em uma das costelas; e Saúl, ainda em recuperação de cirurgia no calcanhar esquerdo. Entre eles, Alex Sandro é quem tem mais chances de voltar já no fim de semana.
O contexto reforça o peso das escolhas de Leonardo Jardim. Sem poder contar com boa parte da espinha dorsal, o técnico aposta na mobilidade e na intensidade de jogadores como Evertton Araújo e Plata. A atuação sólida fora de casa fortalece seu trabalho, ainda em consolidação, e envia um recado para o continente: mesmo desfalcado e sob condições extremas, o atual campeão se impõe.
O impacto imediato aparece também no psicológico do grupo. Uma vitória em altitude costuma funcionar como argumento interno de confiança. O elenco vê que a preparação específica faz diferença, que o plano de jogo é executável e que a equipe tem margem para evoluir. Para os adversários, o recado é outro: o Flamengo chega pronto para defender o título e tem recursos para se adaptar a cenários hostis.
Clássico, calendário apertado e próxima decisão na Libertadores
A delegação volta ao Rio com pouco tempo para assimilar o desgaste. No sábado, o time já entra em campo no Maracanã para enfrentar o Fluminense, pelo Campeonato Brasileiro. O clássico vira novo teste de gerenciamento físico e emocional em um elenco que sente a sequência de viagens e jogos decisivos.
O departamento médico trabalha contra o relógio para liberar reforços, com atenção especial a Alex Sandro, visto internamente como nome possível para o banco. O desempenho de reservas e jogadores que ganham mais minutos em Cusco também entra na conta. Cada atuação sólida aumenta as opções de Jardim para rodar o grupo e evitar estourar peças-chave em abril.
No calendário continental, o próximo compromisso pela Libertadores já está marcado. Em 16 de abril, o Flamengo recebe o Independiente de Medellín, no Rio, em confronto direto pela liderança do Grupo A. Uma nova vitória em casa pode abrir vantagem confortável e reduzir a margem de risco nas viagens seguintes, inclusive diante do Estudiantes, na Argentina.
A estreia em Cusco deixa uma pergunta para o restante da temporada: até onde vai a capacidade do Flamengo de conciliar desempenho e resultado em ambiente de alta exigência física e mental? A resposta passa pelos próximos jogos, mas o primeiro capítulo de 2026 na Libertadores indica um time disposto a sustentar o peso de ser favorito.
