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Houthis lançam primeira barragem de mísseis contra Israel

Os houthis confirmam, nesta sexta-feira (28), o primeiro ataque direto a Israel com uma barragem de mísseis balísticos lançados do Iêmen. Os alvos são posições militares consideradas sensíveis pelas autoridades israelenses, segundo o próprio grupo iemenita.

Primeiro ataque direto e recado regional

O anúncio parte das chamadas Forças Armadas do Iêmen, nome usado pelos houthis, que desde 2014 controlam a capital, Sanaa, e boa parte do norte do país. O grupo afirma ter disparado uma “barragem de mísseis balísticos” contra “alvos militares israelenses sensíveis” e apresenta a operação como um marco na estratégia de retaliação à escalada de ataques na região.

O reconhecimento público ocorre depois de Israel detectar e interceptar mísseis lançados a partir do território iemenita, em um episódio que eleva a guerra para um novo patamar geográfico. Até aqui, os houthis miravam principalmente navios mercantes e alvos ligados a países ocidentais no Mar Vermelho e no Golfo de Áden. Agora, assumem explicitamente Israel como alvo militar direto.

Em comunicado, o grupo diz contar com apoio divino e justifica a ofensiva como resposta à “continuação da escalada militar, ao ataque a infraestruturas e à prática de crimes e massacres contra nossos irmãos no Líbano, Irã, Iraque e Palestina”. A mensagem vincula a operação a uma frente mais ampla de alianças informais entre Teerã e milícias que atuam em vários pontos do Oriente Médio.

A confirmação vem menos de 24 horas após líderes houthis declararem que estavam prontos para intervir militarmente se outros países se juntassem aos Estados Unidos e a Israel em uma guerra aberta contra o Irã. O grupo também havia ameaçado reagir se o Mar Vermelho fosse usado como plataforma de ataques contra a República Islâmica, principal patrocinadora militar e financeira do movimento iemenita.

Escalada, rotas marítimas e risco de guerra prolongada

O ataque com mísseis contra Israel amplia a zona de combate para mais de 2.000 quilômetros de distância do reduto houthi no norte do Iêmen. A movimentação reforça a mensagem de que o grupo consegue atingir alvos muito além de seu território e agrava o temor de que a guerra deixe de ser um conjunto de frentes paralelas para se transformar em um conflito regional mais integrado.

Na prática, a entrada declarada dos houthis contra Israel ameaça diretamente duas rotas vitais para o comércio global de energia e cargas em geral. Uma delas passa pelo estreito de Bab al-Mandab, na costa do Iêmen, ponto de estrangulamento que conecta o Golfo de Áden ao Mar Vermelho e ao Canal de Suez. A outra está ligada ao estreito de Ormuz, já pressionado pela ação do Irã no Golfo Pérsico.

O Irã responde por cerca de 3 milhões de barris de petróleo exportados por dia, boa parte via Ormuz. O Canal de Suez, por sua vez, concentra aproximadamente 12% do comércio marítimo global e é rota de até 30% dos contêineres que cruzam o planeta. Qualquer instabilidade simultânea em Ormuz e Bab al-Mandab pode empurrar rotas de transporte para o Cabo da Boa Esperança, na África do Sul, alongando viagens em até 10 dias e encarecendo fretes.

Os houthis já testam esse poder de pressão desde 2023, quando passaram a atacar navios associados a Israel e países ocidentais no Mar Vermelho em apoio ao Hamas na guerra em Gaza. As ações forçaram empresas globais de logística a desviar embarcações, provocando atrasos nas cadeias de suprimento e aumento de custos em setores como grãos, fertilizantes, combustíveis e bens industrializados.

Ao direcionar agora uma barragem de mísseis contra Israel, o grupo sinaliza que está disposto a transformar o controle de rotas marítimas em instrumento de barganha política e militar. O movimento também tenta mostrar capacidade de responder à morte de aliados em ataques recentes no Líbano, na Síria, no Iraque e no próprio Irã, atribuídos a Israel ou a forças apoiadas por Washington.

Novas frentes e incerteza sobre resposta internacional

O comunicado dos houthis afirma que as operações militares vão continuar “até que a agressão em todas as frentes termine”. A formulação é deliberadamente ampla e abre espaço para diferentes leituras, da intensificação de ataques contra navios no Mar Vermelho a novos lançamentos de mísseis contra território israelense.

Em Tel Aviv, autoridades de defesa evitam detalhar quais instalações são alvos da barragem e se houve danos significativos além da interceptação dos projéteis. O governo israelense, porém, trata o ataque como mais uma prova de que seu conflito com o Irã e seus aliados caminha para um cenário de cerco em várias direções, do Mediterrâneo oriental ao Golfo de Áden.

Nos bastidores, diplomatas europeus e árabes discutem se é possível conter a escalada por meio de pressão coordenada sobre Teerã, Riad e Washington. A Arábia Saudita, que tenta consolidar uma trégua frágil com os houthis depois de quase oito anos de intervenção militar no Iêmen, monitora com cautela o novo papel do grupo na guerra contra Israel.

O cálculo em capitais ocidentais leva em conta não apenas o risco militar, mas a exposição econômica. Um choque prolongado no tráfego pelo Mar Vermelho e pelo Canal de Suez pode reacender a inflação global, ainda pressionada por efeitos da pandemia e de guerras recentes na Ucrânia e em Gaza. Empresas de navegação já revisam rotas e prêmios de seguro para viagens que cruzam Bab al-Mandab.

O ataque desta sexta-feira insere o Iêmen de forma ainda mais profunda na cartografia da guerra do Oriente Médio e deixa uma pergunta em aberto: até onde Israel, Irã e seus aliados estão dispostos a ir antes que o custo político e econômico da escalada se torne alto demais para todos os lados.

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