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CPMI do INSS tem bate-boca por repasses de R$ 40,9 mi à Lagoinha

Deputados Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e Rogério Correia (PT-MG) trocam acusações nesta quinta-feira (26/3), em Brasília, durante sessão da CPMI do INSS. O estopim é o pedido de investigação de repasses de R$ 40,9 milhões ligados à Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte.

Repasses milionários e disputa de narrativas

A discussão explode em plena reunião convocada para votar dois requerimentos, enquanto a comissão aguarda o aval definitivo do Supremo Tribunal Federal sobre a prorrogação dos trabalhos. O embate revela o ponto mais sensível das investigações: a fronteira entre a responsabilização por crimes financeiros e a preservação da imagem das instituições religiosas.

Correia pressiona pela apuração dos envios de recursos à Lagoinha Belvedere, braço da Igreja Batista da Lagoinha em um bairro nobre de Belo Horizonte. Os repasses, segundo extratos bancários analisados pela CPMI, somam R$ 40,9 milhões entre outubro de 2024 e janeiro deste ano, em 54 transferências com valores que variam de R$ 200 mil a R$ 8 milhões por mês.

Os documentos, compartilhados pela Receita Federal, envolvem o nome de Fabiano Zettel, ex-pastor e hoje diretor-presidente da Lagoinha Belvedere. Ele é cunhado do empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, liquidado pelo Banco Central, e apontado pela Polícia Federal como pivô de um esquema financeiro fraudulento. Os dois estão presos preventivamente.

Correia acusa a igreja de ser peça central no fluxo de dinheiro suspeito. “São 40 milhões de lavagem de dinheiro do Zettel para a Igreja Lagoinha do Zettel”, afirma o deputado mineiro, em tom de confronto. Para ele, não se trata de perseguição religiosa, mas de seguir o rastro do dinheiro que atravessa fronteiras entre o público e o privado.

Sóstenes reage e acusa o colega de atacar a fé evangélica. “Se tem líderes religiosos envolvidos, a gente pode tratar, mas instituições precisam ser preservadas. A Igreja Evangélica no Brasil presta relevantes serviços sociais”, diz o parlamentar do PL, que vê tentativa de criminalizar igrejas em meio a disputas políticas.

Lavagem de dinheiro, fé e recursos públicos

A CPMI do INSS nasce com o objetivo formal de apurar fraudes e desvios em benefícios previdenciários, mas rapidamente passa a enxergar conexões com esquemas financeiros mais amplos. O caso Lagoinha entra nesse tabuleiro a partir da suspeita de que emendas parlamentares e repasses privados tenham sido usados para irrigar a fundação ligada à igreja no Bairro Belvedere.

Investigações paralelas apontam que Zettel atua como operador financeiro de Vorcaro, segundo a Polícia Federal. A relação familiar entre os dois, somada à posição de comando de Zettel na igreja, transforma a Lagoinha Belvedere em ponto de atenção. Uma ação popular já pede o cancelamento de emendas destinadas à instituição, enquanto a CPMI tenta rastrear a origem de cada depósito e sua destinação final.

Correia insiste que o alvo são os possíveis crimes, não a fé. “Lavagem de dinheiro não é igreja. Quem defende lavagem de dinheiro está defendendo os bandidos. Os evangélicos são pessoas de bem. Agora, quem lava dinheiro não merece ser chamado de evangélico”, declara. Ele tenta separar, em público, a figura do fiel da estrutura usada, segundo as suspeitas, para movimentar recursos milionários.

O discurso ecoa em um país onde igrejas evangélicas recebem doações em dinheiro vivo, têm isenções fiscais e, muitas vezes, pouca transparência sobre suas finanças. A combinação de imunidade tributária, influência política crescente e grande circulação de valores transforma o setor em alvo recorrente de debates sobre controle e fiscalização.

Sóstenes, por outro lado, tenta enquadrar o episódio como parte de um conflito maior entre a bancada evangélica e setores da esquerda. Para ele, a CPMI não pode se converter em palco de estigmatização. Ao defender que “instituições precisam ser preservadas”, o deputado reforça a estratégia de blindar a imagem das igrejas, ainda que admita a possibilidade de responsabilizar indivíduos.

Pressão por transparência e próximos passos da CPMI

O embate desta quinta-feira acende um alerta no Congresso sobre o alcance da CPMI. Se a comissão conseguir autorização do STF para seguir em funcionamento, a tendência é que pedidos de quebra de sigilo e novas oitivas incluam representantes formais da Lagoinha Belvedere e de entidades ligadas a Zettel e Vorcaro.

Parlamentares avaliam, nos bastidores, que o caso pode servir de gatilho para discutir regras mais duras de transparência para instituições religiosas que operam com grandes volumes de recursos. Entre as possibilidades estão exigências mais rígidas de prestação de contas, cruzamento sistemático de dados bancários e limitações no uso de emendas parlamentares para entidades ligadas a líderes religiosos.

Os desdobramentos também interessam ao Palácio do Planalto, que monitora a CPMI e a relação com a bancada evangélica. Qualquer movimento que seja percebido como ataque generalizado às igrejas pode tensionar a base aliada. Por outro lado, ignorar sinais de lavagem de dinheiro envolvendo fundações religiosas cobra um preço alto diante da opinião pública.

No curto prazo, a próxima etapa depende da decisão do STF sobre a prorrogação da comissão. A partir daí, a CPMI terá de escolher entre aprofundar a trilha aberta pelos extratos bancários de Zettel ou recuar diante da resistência de parte do Congresso. A forma como o caso Lagoinha será tratado pode definir não apenas o futuro da investigação, mas também o tom do debate sobre fé, dinheiro e poder no Brasil.

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