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CBF veta frase ‘Vai, Brasa!’ no meião da seleção e cobra Nike

O presidente da CBF, Samir Xaud, veta nesta quinta-feira, 26, a inscrição “Vai, Brasa!” no meião do novo uniforme da seleção brasileira, criada em campanha da Nike. A frase não vai aparecer em nenhuma peça de jogo até a Copa do Mundo. O dirigente reforça que o nome “Brasil” é a única identificação aceita no uniforme oficial.

Tradição, política e marketing em choque

O recado de Xaud mira mais do que um detalhe de design. O veto responde à pressão crescente para blindar a seleção de disputas políticas e de estratégias publicitárias que testam o limite da tradição. Desde que assumiu o comando da CBF, há poucos meses, o dirigente transforma o uniforme em vitrine de sua gestão, que prega identidade nacional rígida e afastamento de qualquer associação partidária.

O dirigente já enfrenta, logo no início do mandato, a polêmica da possível camisa vermelha, aventada em 2023 em estudos de marketing ligados à patrocinadora. A cor é rapidamente apontada por críticos como aceno indireto ao PT do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O projeto nem chega às lojas. “De princípio já barramos, pois eu sei da nossa identidade, da nossa cultura como brasileiro, como torcedor”, afirma Xaud, em entrevista à ESPN. Ele repete em público que “o Brasil é verde e amarelo” e que a CBF não fará “política em cima do futebol”.

A nova crise nasce quando a Nike apresenta a campanha do uniforme para o ciclo até a Copa do Mundo de 2026, nos Estados Unidos, Canadá e México. O slogan “Vai, Brasa!” aparece em peças publicitárias e, em seguida, vem à tona a ideia de usar a expressão no meião. O presidente diz que não foi informado desse passo. “Fui pego um pouco de surpresa. O que me foi apresentado não tinha ‘Brasa’ no uniforme”, relata. A expressão, na avaliação da CBF, abre espaço para novas disputas simbólicas em torno da seleção, num momento em que até o uso da camisa amarelinha se torna marcador político nas ruas.

Controle da imagem e pressão sobre patrocinadores

Xaud descreve um processo de freio de arrumação em relação ao contrato herdado com a Nike, parceira da seleção desde 1996. “Temos de dividir o que a Nike faz em relação ao seu marketing, em relação ao contrato que a gente pegou de uma gestão anterior, para o que essa nova gestão acha”, afirma. Ele sinaliza que nenhuma intervenção estética ou de comunicação entra no uniforme sem debate prévio com a CBF. A mensagem vale não só para a atual campanha, mas para os próximos anos do ciclo comercial.

Após o anúncio público de “Vai, Brasa!” como lema de marketing, a CBF observa a reação de torcedores e formadores de opinião nas redes sociais e em programas esportivos. As primeiras críticas bastam para que o presidente encerre a discussão. “Esperamos essa repercussão, o que iam falar, um feedback da patrocinadora… Mas estou aqui para tranquilizar a nação brasileira que isso não confere e não vai ter ‘Brasa’ no nosso futebol”, afirma. Ele repete, em tom definitivo: “Não vai ter, até porque é respeito ao nosso uniforme e bandeira. Nosso nome é Brasil. Então vai ter Brasil no meião e não ‘Brasa’.”

O veto limita o espaço criativo da Nike no principal ativo comercial da seleção. A patrocinadora continua livre para usar o slogan em campanhas isoladas, em anúncios, vídeos e ações digitais, mas perde a chance de cravar a expressão diretamente na peça que aparece em campo, diante de milhões de torcedores. Em 2022, por exemplo, dados internos do mercado estimam em dezenas de milhões de unidades as vendas globais de camisas de seleções em ano de Copa. Cada detalhe do uniforme, da gola à tipografia, vale milhões de reais em exposição e em lembrança de marca.

O movimento também é observado por outros parceiros comerciais da CBF, que enxergam um comitê mais rígido para aprovar ativações. A atual gestão tenta reposicionar a entidade após anos de turbulência política e investigações. O uniforme, com histórico de cinco títulos mundiais desde 1958, volta a ser tratado como patrimônio intocável. Na prática, o espaço para slogans, hashtags e frases de efeito no material de jogo encolhe.

Disputa por símbolos e próximos passos

A escolha de preservar apenas o nome “Brasil” no meião reforça uma leitura do futebol como último terreno comum em um país fragmentado. Em 2022 e 2023, a camisa da seleção aparece em manifestações de rua de diferentes campos ideológicos, o que acende alertas dentro da CBF e no governo federal. Ao afastar termos que possam ser capturados por grupos específicos, a direção da entidade tenta devolver à amarelinha a ideia de neutralidade emocional, ainda que essa neutralidade seja cada vez mais contestada.

Especialistas em marketing esportivo avaliam, em conversas de bastidor, que o caso “Vai, Brasa!” se torna referência imediata para futuros contratos de patrocínio. Cláusulas de aprovação prévia, com prazos e comissões internas, tendem a ganhar força. O episódio ainda alimenta um debate maior: até onde uma empresa pode ir na reinvenção visual de um símbolo nacional para torná-lo mais jovem, vendável e global, sem rasgar a memória afetiva de quem acompanha a seleção desde as Copas de 1970, 1994 ou 2002?

Xaud promete seguir a mesma linha em novas negociações. Diz que qualquer proposta que toque em cores, escudo ou nome do país passará por crivo direto da presidência. A Nike, por sua vez, terá de ajustar seu discurso ao novo ambiente, em que erros de cálculo na sensibilidade política custam caro em imagem. A próxima coleção da seleção, prevista para a reta final das Eliminatórias e para 2026, será o primeiro teste concreto dessa convivência. Resta saber se a camisa conseguirá conciliar pressão comercial, paixão de arquibancada e um país que projeta suas crises e esperanças em 11 jogadores vestidos de verde e amarelo.

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