Itália vence Irlanda do Norte e fica a um jogo da Copa de 2026
A Itália vence a Irlanda do Norte por 2 a 0 nesta quinta-feira (26), em Bérgamo, e avança à final da repescagem europeia para a Copa do Mundo de 2026. A seleção agora depende de uma vitória fora de casa, em jogo único, para voltar ao Mundial após ficar fora das duas últimas edições.
Pressão, alívio e uma vaga a 90 minutos de distância
O resultado desta noite recoloca a Azzurra no centro da disputa internacional. A equipe carrega o peso de ter ficado fora das Copas de 2018 e 2022, algo inédito para uma tetracampeã mundial. A classificação para a final da repescagem não resolve a conta, mas transforma o encontro decisivo da próxima semana em jogo de alto risco esportivo e político para o futebol italiano.
Em um estádio Atleti Azzurri d’Italia lotado, o clima mistura ansiedade e cobrança. Desde o aquecimento, a torcida canta sem parar e reage a cada erro com impaciência. O trauma das últimas eliminatórias está presente em cada lance. A vitória por 2 a 0, construída apenas no segundo tempo, não é apenas um passo esportivo: é um gesto de sobrevivência de um projeto que tenta conciliar renovação e pressão imediata por resultados.
Domínio desde o início, gols só depois do intervalo
O jogo começa com a Itália instalada no campo ofensivo. A posse de bola ultrapassa com folga os 60% na primeira meia hora. Os laterais avançam, os pontas tentam o drible, os zagueiros atuam quase como meio-campistas. A Irlanda do Norte recua todos os jogadores para trás da linha da bola e transforma o duelo em ataque contra defesa.
Os italianos buscam o caminho pelos lados e insistem em cruzamentos. Bastoni é o primeiro a ameaçar, em duas cabeçadas após escanteios, ambas passando muito perto da meta de Pierce Charles. A melhor chance dos visitantes surge em lance isolado: cobrança de escanteio, desvio na primeira trave e a bola raspando o poste esquerdo de Donnarumma, em raro momento de silêncio em Bérgamo.
O intervalo chega com o placar zerado e um dado incômodo: apesar do controle territorial, a Itália cria poucas finalizações claras. O segundo tempo recomeça com o mesmo roteiro. A Azzurra ocupa o campo adversário, mas peca na definição. Retegui tem a bola do jogo aos seis minutos. Recebe em condição de finalizar, cara a cara com o goleiro, e chuta mal, facilitando a defesa.
O gol que muda o clima vem aos 10 minutos da etapa final. Politano cruza da direita, a defesa norte-irlandesa corta mal e deixa a bola viva na entrada da área. Sandro Tonali chega de frente e bate de primeira, firme, no canto. O 1 a 0 libera o grito preso nas arquibancadas e alivia a tensão no banco italiano.
Com a vantagem, a Irlanda do Norte precisa sair um pouco mais, mas esbarra nas próprias limitações técnicas. A Itália, por sua vez, passa a circular a bola com mais calma e encontra espaços que não existiam antes do gol. O time reduz o volume de cruzamentos e busca mais combinações por dentro, aproveitando o desgaste físico dos visitantes.
O segundo gol nasce dessa mudança de cenário. Aos 34 minutos, Tonali recebe no meio e enxerga o espaço às costas da defesa. O volante lança Moise Kean na direita. O atacante conduz, corta para o meio e finaliza colocado, no canto, sem chance para Pierce Charles. O 2 a 0 encerra a apreensão e transforma os minutos finais em festa controlada.
Antes da bola rolar, o estádio presta homenagem a Giuseppe Savoldi, ex-atacante morto aos 79 anos. O minuto de silêncio respeitado pelas duas seleções reforça a conexão da noite com a história recente do futebol italiano. Savoldi se notabiliza nas décadas de 1970 e 1980, sobretudo com a camisa do Bologna, e é lembrado pelos torcedores mais antigos enquanto uma nova geração tenta escrever seu capítulo em Copas do Mundo.
Impacto esportivo e simbólico para a Itália
A vitória desta quinta-feira muda o tom em torno da seleção, mas não encerra o debate. A Itália precisa ainda de mais 90 minutos perfeitos para evitar uma terceira ausência consecutiva em Copas, algo que seria devastador para o prestígio da liga, para o apelo comercial da marca Azzurra e para a formação de novos talentos. Para uma federação que movimenta bilhões de euros por ciclo, a presença no Mundial é ponto de partida, não de chegada.
Do ponto de vista técnico, o jogo contra a Irlanda do Norte expõe virtudes e limitações. A equipe mostra capacidade de manter intensidade alta por 90 minutos e não perde a estrutura tática mesmo sob pressão emocional. Falta, porém, transformar controle em volume de chances claras com mais regularidade. A dependência de bolas cruzadas contra defesas muito fechadas acende um alerta para a decisão da repescagem, quando o nível de exigência tende a ser maior.
Para a torcida, o 2 a 0 devolve confiança, mas não apaga a memória recente. As eliminações para Suécia, em 2017, e Macedônia do Norte, em 2022, ainda moldam a relação com a seleção. Cada jogo eliminatório é tratado como exame de recuperação. Um tropeço agora teria repercussão imediata nas arquibancadas, na imprensa e nos gabinetes da federação, onde já se discute o modelo de gestão da equipe nacional para o próximo ciclo.
Na Irlanda do Norte, a derrota mantém o padrão recente nas grandes eliminatórias. A seleção, que disputa a Euro de 2016, não consegue repetir a presença em grandes torneios e vê a distância para o bloco principal da Europa aumentar. O desempenho defensivo consistente em Bérgamo não se traduz em ameaça real ao gol adversário, e a equipe deixa a repescagem sem chutar mais do que algumas vezes com perigo.
Decisão fora de casa e nova prova de fogo
A Itália agora espera o vencedor de País de Gales x Bósnia e Herzegovina, duelo que define o adversário da final da repescagem. O confronto decisivo acontece em jogo único, fora de casa, em data já reservada no calendário da Fifa para o fim de março. Quem vencer garante vaga direta na Copa do Mundo de 2026, que será disputada em Estados Unidos, Canadá e México, com 48 seleções.
O desafio envolve mais do que adaptação tática. A seleção precisa mostrar maturidade emocional para atuar sob pressão em estádio hostil, cenário que derruba a Itália nas duas últimas tentativas de chegar ao Mundial. A noite em Bérgamo oferece um roteiro diferente: controle, paciência, dois gols no segundo tempo e um passo concreto em direção ao retorno. A resposta definitiva, porém, só virá quando a bola rolar pela última vaga italiana rumo à Copa.
