Uefa mantém suspensão de Prestianni após acusação de racismo
A Uefa mantém nesta quarta-feira (25) a suspensão provisória de Gianluca Prestianni, atacante do Benfica acusado de racismo por Vinicius Júnior em jogo da Liga dos Campeões. O Órgão de Apelação rejeita o recurso do clube português e afasta o jogador da partida contra o Real Madrid, em Madri, enquanto a investigação disciplinar segue em curso.
Decisão em cima da hora muda o jogo em Madri
O Benfica leva Prestianni a Madri na expectativa de uma reviravolta jurídica, mas volta a campo sem o jovem argentino de 19 anos. A cúpula da Uefa confirma a decisão tomada dois dias antes, em 23 de fevereiro de 2026, quando o Órgão de Controle, Ética e Disciplina aplica a suspensão inicial por um jogo por “comportamento discriminatório”.
O episódio nasce no jogo de ida entre Real Madrid e Benfica, quando Vinicius Júnior acusa o adversário de tê-lo chamado de macaco durante uma confusão após um gol do time espanhol. A denúncia, feita ainda no gramado, ganha força nas horas seguintes, repercute em redes sociais e reabre o debate sobre racismo nos estádios europeus. O caso deixa de ser apenas um lance tenso de mata-mata e vira tema político e institucional para a Uefa.
No comunicado desta quarta, o órgão de apelação é taxativo ao negar o pedido do Benfica. “O recurso interposto pelo SL Benfica foi indeferido. Consequentemente, a decisão do Órgão de Controle, Ética e Disciplina da Uefa, de 23 de fevereiro de 2026, é confirmada”, registra a nota oficial. Prestianni segue impedido de atuar na próxima partida de competições de clubes da Uefa para a qual estaria elegível.
A investigação, porém, está longe do fim. A entidade europeia preserva o enquadramento disciplinar e mantém aberta a possibilidade de novas sanções, tanto ao jogador quanto ao clube. Com isso, a ausência nesta noite em Madri pode ser apenas o primeiro capítulo de uma punição mais extensa, caso os relatores entendam que houve de fato conduta racista.
Combate ao racismo entra em campo
O Código Disciplinar da Uefa, em seu artigo 14, estabelece punições duras para casos de racismo. O texto prevê suspensão mínima de 10 partidas para o jogador condenado por insulto discriminatório, além de sanções esportivas e financeiras para o clube envolvido. A regra também alcança a torcida: gestos ou cânticos racistas podem gerar fechamento parcial de estádios, perda de mando de campo e multas pesadas.
Durante o jogo de ida, câmeras de TV e relatos em redes sociais mostram torcedores do Benfica imitando macacos em direção ao gramado. O comportamento entra no radar dos investigadores e se soma ao relato de Vinicius, que volta a ser alvo de ataques racistas mesmo depois de virar símbolo da luta contra o preconceito na Espanha. A Uefa informa que essa conduta das arquibancadas também faz parte do processo disciplinar em andamento.
O rigor da entidade reflete um ambiente de pressão crescente. Nos últimos anos, Vinicius denuncia seguidamente insultos racistas em estádios espanhóis, o que obriga ligas, clubes e autoridades a rever protocolos. A cada novo episódio, o discurso oficial contra o racismo é testado pela prática. O afastamento imediato de Prestianni, ainda em fase de apuração, sinaliza que a Uefa tenta responder com mais rapidez do que em casos anteriores.
A decisão também mexe com o Benfica dentro de campo. Em uma fase aguda da temporada, o clube português perde uma opção de ataque em jogo decisivo, com impacto direto no planejamento do técnico e na rotação do elenco. Fora das quatro linhas, a direção vê sua estratégia de defesa frustrada e precisa equilibrar o respaldo ao jogador com a imagem pública de um clube alinhado ao combate ao racismo.
Para Vinicius Júnior, o caso reforça o papel de protagonista involuntário na discussão. Cada nova acusação que movimenta instâncias disciplinares aumenta a responsabilidade sobre sua voz e alimenta o debate sobre proteção efetiva a atletas negros. O processo em curso será observado não apenas por torcedores de Real Madrid e Benfica, mas também por jogadores de outros clubes que se sentem desamparados diante de ofensas raciais.
Pressão por transparência e próximos passos
A negativa ao recurso do Benfica abre uma nova fase, marcada por pressão por transparência na condução do caso. A Uefa promete seguir a investigação, ouvir envolvidos, analisar imagens e relatórios da equipe de arbitragem e dos delegados da partida. Não há prazo oficial divulgado, mas decisões em processos semelhantes costumam sair em poucas semanas, dada a agenda apertada da Liga dos Campeões e o impacto esportivo de uma suspensão longa.
O clube português ainda pode buscar outras estratégias jurídicas, como questionar procedimentos ou tentar reduzir eventuais punições futuras. Publicamente, a tendência é de um discurso que combine defesa do atleta e condenação genérica ao racismo, fórmula que vem se repetindo em casos do tipo. O sucesso ou fracasso dessa linha terá efeito direto na reputação internacional do Benfica e na forma como patrocinadores e parceiros comerciais se posicionam.
No campo político, a decisão desta quarta serve de termômetro para o compromisso real das entidades com a pauta antirracista. Uma punição exemplar, se confirmada, pode incentivar ligas nacionais e federações a adotar medidas mais duras, dentro e fora da Europa. Uma resposta tímida tende a alimentar críticas de que o discurso segue distante da prática.
Enquanto a bola rola em Madri sem Prestianni, o caso já ultrapassa o placar da noite e entra na agenda permanente do futebol europeu. A partir da conclusão da investigação, a Uefa terá de mostrar se está disposta a aplicar integralmente as sanções previstas ou se continuará tratanto episódios de racismo como incidentes isolados. A definição desse limite dirá muito sobre o futuro de Vinicius Júnior, de Gianluca Prestianni e de qualquer outro jogador que entre em campo sabendo que, além do adversário, ainda precisa driblar o preconceito.
