Zema ataca STF, defende impeachment e endurece agenda social
O ex-governador de Minas e pré-candidato à Presidência, Romeu Zema (Novo), acusa o STF de viver uma “farra dos intocáveis” e defende o impeachment de ao menos dois ministros. Em evento na Associação Comercial de São Paulo, nesta segunda-feira (13/4), ele também ataca programas sociais, critica mudanças na jornada de trabalho e volta a defender medidas de segurança pública inspiradas em El Salvador.
Zema mira STF e busca espaço no eleitorado de direita
Na sede da Associação Comercial de São Paulo, no centro da capital paulista, Zema fala para um público majoritariamente empresarial. Ampara seu discurso nas revelações do caso Banco Master, que envolve suspeitas de tráfico de influência no Supremo Tribunal Federal, e afirma que o escândalo apenas expõe algo que, segundo ele, já se arrasta há anos.
“As revelações do Banco Master afloraram toda a podridão no STF, que já estava cheirando mal há alguns anos”, diz, em tom de indignação calculada. O pré-candidato se apresenta como voz contra o que chama de “farra dos intocáveis” e sustenta que, sem mudanças profundas na cúpula do Judiciário, qualquer agenda de reformas econômicas e institucionais fica travada.
Zema afirma defender o impeachment de “pelo menos dois” ministros do Supremo, sem citar nomes, e cobra uma nova forma de escolha para a corte. Fala em listas prévias de indicados, em mandatos definidos e em critérios mais rígidos de experiência e reputação. Não apresenta um desenho detalhado, mas insiste que o atual modelo de indicações políticas, chanceladas por maioria simples no Senado, “perdeu a credibilidade perante a população”.
O ataque frontal ao STF ocorre em um momento em que Zema tenta avançar sobre o eleitorado de direita, hoje dividido entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que lidera com 39% das intenções de voto, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-SP), que aparece com 35%, segundo o Datafolha mais recente. O mineiro marca 4% e se vê tecnicamente empatado com nomes como Ronaldo Caiado (5%), Renan Santos (2%), Aldo Rebelo (1%) e Cabo Daciolo (1%).
Em meio à disputa por visibilidade, o pré-candidato explora a insatisfação de parte do público com decisões recentes do tribunal, especialmente em temas de política criminal, redes sociais e financiamento de campanhas. “O clima de indignação hoje é maior do que em 2018”, afirma, sugerindo que a tensão entre Congresso, Planalto e Judiciário tende a dominar o debate até outubro.
Para reforçar a ligação com a plateia paulista, Zema volta a cultivar a imagem de gestor afinado com a agenda econômica liberal. Diz ser o governador mais “apaulistado” da história de Minas Gerais, lembra que estudou administração na Fundação Getulio Vargas e destaca privatizações e ajuste fiscal como credenciais para comandar o país.
Ataque a programas sociais e à mudança na jornada de trabalho
No mesmo tom de confronto com o Supremo, Zema endurece o discurso sobre programas de transferência de renda. Mira diretamente o Bolsa Família, retomado e ampliado pelo governo federal, que hoje atende milhões de famílias com valores básicos a partir de R$ 600 por mês, acrescidos de benefícios por criança e adolescente.
“Tem marmanjo de 20, 25 anos recebendo Bolsa Família que fica o dia inteiro no sofá jogando videogame”, afirma, sem apresentar dados que sustentem a imagem. Segundo ele, parte dos beneficiários recusa empregos formais para não perder o benefício. O argumento encontra eco em segmentos do empresariado presentes ao evento, que reclamam da dificuldade em preencher vagas de baixa remuneração.
Zema fala em “revisão responsável” dos programas sociais, com mais cobrança de contrapartidas como estudo, qualificação e busca ativa por emprego. Evita mencionar cortes diretos, mas indica que pretende redirecionar recursos para iniciativas de estímulo ao trabalho formal e à abertura de pequenas empresas. “Assistência é necessária para os vulneráveis, não para acomodar quem pode produzir”, diz.
O pré-candidato também critica o debate sobre mudanças na jornada de trabalho, em especial o fim da escala 6 por 1, discutida no Congresso em meio ao calendário eleitoral. “Isso é populismo e demagogia”, afirma. Segundo ele, a flexibilização da escala prejudica setores que dependem de funcionamento contínuo, como comércio, serviços e indústria, e pode elevar custos trabalhistas sem ganho proporcional de produtividade.
“Eles consideram um prêmio, mas nós sabemos que é algo nocivo para boa parte da população”, afirma, em referência ao governo federal e às centrais sindicais que pressionam por jornadas mais curtas. Empresários presentes avaliam, reservadamente, que uma mudança ampla nas regras pode pressionar salários, repassar custos a preços e enfraquecer a competitividade em relação a países vizinhos.
No campo da segurança pública, Zema volta a defender que o Brasil se inspire nas medidas adotadas por Nayib Bukele em El Salvador. Cita a queda abrupta dos índices de homicídio no país centro-americano, mas minimiza críticas de organismos internacionais sobre prisões em massa, superlotação carcerária e denúncias de tortura. Admite que o modelo não é “copiável ao pé da letra”, mas insiste em um regime mais rígido de encarceramento de faccionados e maior autonomia policial.
Escalada do confronto institucional e disputa eleitoral
O discurso de Zema, construído em tom de cruzada moral contra o Supremo e os programas sociais, mira um eleitorado que se sente traído por instituições e políticas públicas. Ao propor impeachment de ministros e reformulação da corte, ele pressiona um debate sensível sobre a independência do Judiciário e o equilíbrio entre poderes.
Especialistas em direito constitucional ouvidos em outras ocasiões lembram que a Constituição de 1988 prevê instrumentos para responsabilizar ministros, mas exige crimes de responsabilidade claramente tipificados, com processo formal no Senado. Sem provas robustas, o risco é transformar o impeachment em arma política, sujeita a maiorias circunstanciais e a humores eleitorais.
No campo social, a narrativa de que o Bolsa Família incentiva a ociosidade contrasta com estudos que apontam o programa como um dos responsáveis pela redução da extrema pobreza nas últimas duas décadas. O endurecimento do discurso, porém, fala a um público que vê na assistência um gasto excessivo e na flexibilização trabalhista um entrave à geração de empregos.
A defesa de medidas à la Bukele também coloca o debate de segurança em outro patamar. Ao mesmo tempo em que o modelo de El Salvador exibe queda acentuada na violência urbana, o país enfrenta denúncias sistemáticas de violações de direitos humanos, prisões sem ordem judicial e uso político do aparato de segurança. A importação parcial desse tipo de política pode redesenhar o sistema penal brasileiro e pressionar ainda mais presídios já superlotados.
No curto prazo, as falas de Zema tendem a provocar reação do STF e de outros presidenciáveis, que devem ser cobrados a se posicionar sobre impeachment de ministros, reformulação de programas sociais e mudanças na legislação trabalhista. O tribunal também pode reforçar a defesa pública de sua atuação, em especial após o caso Banco Master, para conter a percepção de crise prolongada.
Com 4% nas pesquisas e baixa rejeição, Zema aposta que o desgaste das instituições e o humor antipolítica podem abrir espaço para sua candidatura. O movimento, porém, depende de um delicado equilíbrio: radicalizar o suficiente para mobilizar o eleitorado mais indignado, sem romper pontes com partidos, empresários e setores do centro político de que ainda precisa para chegar competitivo a outubro. Até lá, a pergunta que fica é se o ataque frontal ao Supremo e aos programas sociais consolida um novo protagonista da direita ou isola mais um nome em uma disputa cada vez mais polarizada.
