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Trump impõe tarifa de 25% a carros da UE e acirra guerra comercial

Donald Trump anuncia nesta sexta-feira (1º) tarifa de 25% sobre carros e caminhões importados da União Europeia, em nova escalada da disputa comercial transatlântica. A medida, divulgada em rede social, entra em choque direto com o acordo firmado entre Washington e Bruxelas no ano passado e desencadeia reação imediata de líderes europeus.

Retaliação a acordo em xeque

O ex-presidente justifica o aumento como resposta direta ao que chama de descumprimento, pela União Europeia, do tratado comercial anunciado em julho do ano passado. Na época, o acerto limita as tarifas americanas sobre produtos europeus a 15%, ante a ameaça original da Casa Branca de chegar a 30%.

Em postagem na rede Truth, Trump afirma que a nova alíquota mira apenas veículos produzidos na Europa. “Carros e caminhões produzidos nos EUA não serão tarifados”, escreve. Ele cita investimentos superiores a US$ 100 bilhões em novas fábricas em território americano e promete que as unidades serão “inauguradas em breve”.

O acordo de 2025 vai além das tarifas. Bruxelas se compromete a investir US$ 600 bilhões adicionais na economia americana, a comprar US$ 750 bilhões em energia dos Estados Unidos e a ampliar aquisições de equipamentos militares produzidos no país. Em troca, Washington reduz parte dos tarifaços adotados na primeira fase da agenda protecionista republicana.

A decisão de hoje sinaliza, na prática, que o entendimento entra em zona de risco. Em março, o Parlamento Europeu aprova o tratado por 417 votos a 154, mas adiciona salvaguardas que tentam blindar o bloco contra uma guinada de Washington. As cláusulas de caducidade, ativação futura e suspensão refletem o temor de que os EUA não cumpram integralmente o combinado.

Eurodeputados também exigem que o governo americano remova 50% das taxas sobre produtos com aço e alumínio, como turbinas eólicas e motocicletas, um mês após o chamado acordo de Turnberry. O comissário de Comércio da UE, Maros Sefcovic, classifica a votação como “passo crucial” para dar segurança jurídica às empresas europeias. A representação americana em Bruxelas, na ocasião, diz receber o resultado “com satisfação”.

Mercado em alerta e tensão política

O anúncio de Trump recai imediatamente sobre o mercado financeiro. As ações da Ford recuam 2% na Bolsa de Nova York após a mensagem na Truth, enquanto papéis da Stellantis caem 1,7% e os da General Motors, 1,5%. O movimento revela desconforto com a perspectiva de uma nova rodada de retaliações cruzadas, em um setor que depende de cadeias globais de produção e de planejamento de longo prazo.

Executivos do setor automotivo relatam, em conversas reservadas com o governo, que vão adiar decisões relevantes de investimento até que haja clareza sobre o futuro do acordo entre Estados Unidos, México e Canadá, cuja revisão formal começa em julho. Grandes montadoras europeias já possuem fábricas e centros de pesquisa em território americano e planejam ampliações para atender o mercado local e reduzir a exposição a tarifas.

No fim de março, a Mercedes-Benz anuncia investimento de US$ 4 bilhões em sua planta no Alabama até 2030, dentro de um plano que prevê US$ 7 bilhões em operações nos EUA. A montadora já decide transferir a produção do SUV GLC da Alemanha para o estado americano, em movimento que tenta driblar barreiras comerciais. Mesmo assim, sente o peso da disputa: o lucro operacional do grupo cai mais da metade em 2025, para 5,8 bilhões de euros (cerca de US$ 6,9 bilhões), em parte por causa de 1 bilhão de euros em custos tarifários.

Em Bruxelas, a reação é imediata e vem carregada de recados políticos. “O comportamento do presidente Trump é inaceitável”, diz à Reuters Bernd Lange, presidente da comissão de comércio internacional do Parlamento Europeu. Para ele, a nova ofensiva “demonstra o quão pouco confiável é o lado americano”. O eurodeputado cita episódios recentes, como a pressão dos EUA sobre a Groenlândia, para argumentar que não é assim que “se tratam parceiros próximos”.

Lange defende que o bloco responda “com a máxima clareza e firmeza, baseando-se na força da nossa posição”. A declaração antecipa uma disputa que pode ir além da troca de tarifas e atingir negociações sensíveis nas áreas de defesa e energia. Parlamentares europeus debatem, em paralelo, propostas para eliminar tarifas da UE sobre produtos industriais americanos, ampliar o acesso de bens agrícolas dos EUA ao mercado europeu e manter a tarifa zero sobre lagostas americanas, medida que remonta a 2020.

Risco de escalada e incerteza adiante

A medida de Trump chega em um momento de atrito mais amplo entre Washington e Bruxelas. Nesta semana, o republicano ameaça reduzir o número de tropas americanas na Alemanha, Itália e Espanha após o chanceler alemão, Friedrich Merz, dizer que os Estados Unidos estão sendo “humilhados” pelo Irã nas negociações para encerrar o conflito no Oriente Médio. A crítica toca um ponto central da política externa americana e acende alerta entre aliados europeus.

A combinação de pressão militar, disputa comercial e divergências diplomáticas aumenta o custo político de qualquer recuo. Líderes europeus buscam uma resposta que preserve o acordo e, ao mesmo tempo, sinalize firmeza para suas opiniões públicas. Um contra-ataque tarifário sobre produtos emblemáticos da economia americana, como itens agrícolas ou bens industriais de alto valor agregado, entra imediatamente no radar.

Para a indústria automotiva dos dois lados do Atlântico, o risco é de um ciclo prolongado de incerteza regulatória. Fabricantes europeus com fábricas nos EUA podem ganhar competitividade relativa no curto prazo, ao fugir da nova tarifa sobre veículos importados do continente. Ao mesmo tempo, continuam expostos à possibilidade de mudanças rápidas nas regras, algo que encarece investimentos e complica decisões de longo prazo.

Consumidores americanos tendem a enfrentar preços mais altos em modelos europeus importados, sobretudo veículos de luxo e utilitários esportivos, ou uma oferta mais limitada, caso montadoras redirecionem envios para outros mercados. Já exportadores europeus avaliam se vale a pena absorver parte do custo para preservar participação nos Estados Unidos ou se é hora de acelerar a aposta em Ásia e América Latina.

Negociadores em Bruxelas e Washington trabalham agora sob relógio apertado. A revisão do acordo com México e Canadá, em julho, e o calendário eleitoral europeu colocam pressão adicional sobre qualquer tentativa de acomodação. A dúvida, para governos e empresas, é se a nova tarifa de 25% representa apenas mais um lance duro de negociação ou o início de uma ruptura mais profunda nas relações econômicas entre os dois maiores mercados do mundo.

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