Trump anuncia extensão de cessar-fogo entre Israel e Líbano
Donald Trump anuncia nesta quinta-feira (23), na Casa Branca, a extensão do cessar-fogo entre Israel e Líbano, um dia após a jornada mais letal desde o início da trégua. O acordo é fechado no Salão Oval, em Washington, diante dos embaixadores de Israel, Yechiel Leiter, e do Líbano, Nada Moawad, enquanto ambos os lados ainda contam seus mortos no sul libanês.
Trégua prorrogada sob pressão e em meio a novos ataques
No centro da sala mais vigiada do poder americano, Trump tenta transformar um cessar-fogo frágil em ponto de virada político. A trégua, em vigor desde 16 de abril e prevista para expirar no próximo domingo (26), ganha sobrevida após um dia em que ataques israelenses matam pelo menos cinco pessoas no Líbano, incluindo a jornalista Amal Khalil, do jornal Al-Akhbar. O saldo de quase 2.500 mortos no país desde o início da ofensiva, em 2 de março, pesa na mesa de negociação.
Trump usa a própria rede social, a Truth Social, para dar o tom do encontro. “A reunião foi muito boa! Os Estados Unidos vão trabalhar com o Líbano para ajudá-lo a se proteger do Hezbollah”, escreve. No Salão Oval, ao lado dos embaixadores, ele afirma aos repórteres que vê “uma grande chance” de Israel e Líbano assinarem um acordo de paz ainda neste ano e diz esperar receber em breve o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, e o presidente libanês, Josef Aoun.
A negociação desta quinta-feira é a segunda rodada em uma semana, sempre em Washington, com mediação direta dos EUA. O vice-presidente JD Vance, o secretário de Estado, Marco Rubio, o embaixador americano em Israel, Mike Huckabee, e o embaixador em Beirute, Michel Issa, acompanham as conversas. O Hezbollah, protagonista militar do confronto no sul do Líbano e aliado direto do Irã, permanece ausente fisicamente, mas é o tema que domina cada frase.
Hezbollah no centro da mesa e do campo de batalha
Israel tenta transformar o inimigo comum em terreno de cooperação com o governo libanês. A presença militar israelense, entre 5 e 10 quilômetros dentro do território do Líbano, é justificada por Tel Aviv como uma “zona de segurança” para proteger o norte israelense de foguetes do Hezbollah. Em pouco menos de dois meses, o grupo lança centenas de projéteis e realiza sucessivas operações contra posições israelenses, enquanto as Forças de Defesa de Israel intensificam ataques aéreos e de artilharia.
Leiter, representante de Israel em Washington, não esconde a prioridade ao falar no Salão Oval. Segundo nota da embaixada israelense, ele afirma que as negociações devem se concentrar na “erradicação do Hezbollah”, não na retirada das tropas israelenses do sul do Líbano. “Se o Hezbollah e os agentes da Guarda Revolucionária continuarem a ser tratados com condescendência, um processo real para alcançar nosso objetivo mútuo permanecerá inatingível”, diz.
Do outro lado, Beirute tenta usar o cessar-fogo como porta de entrada para demandas antigas. Um funcionário libanês já havia antecipado que o país quer a retirada gradual das tropas israelenses, o retorno de libaneses detidos em prisões israelenses e a delimitação formal da fronteira terrestre em uma próxima fase das negociações. Em público, a embaixadora Nada Moawad adota tom pragmático, mas revela o peso político de Trump nesse momento. “Acredito que com sua ajuda, com seu apoio, podemos tornar o Líbano grande novamente”, afirma, ecoando o slogan eleitoral do republicano.
O Hezbollah observa à distância e envia o próprio recado. O parlamentar Hassan Fadlallah afirma, em coletiva televisionada, que o grupo deseja a continuidade da trégua, mas “com base no cumprimento integral por parte do inimigo israelense”. Ele rejeita encontros diretos com Israel e cobra do governo libanês o fim de qualquer contato presencial com autoridades israelenses. O contraste entre a mesa em Washington e o discurso em Beirute expõe a fratura interna que ameaça a durabilidade do cessar-fogo.
Dia mais letal testa limites da trégua
Enquanto autoridades trocam declarações em capitais distantes, o sul do Líbano segue sob fogo. Na quarta-feira (22), o país vive o dia mais mortal desde o início da trégua, em 16 de abril. O Ministério da Saúde libanês relata ao menos três mortos em um ataque aéreo israelense e mais dois feridos, incluindo uma criança, em bombardeio de artilharia. O Exército israelense anuncia, já na quinta, que mata dois homens armados após identificá-los se aproximando de soldados e descreve o episódio como “ameaça imediata”.
Entre as vítimas está Amal Khalil, repórter do Al-Akhbar, confirmada morta por um alto funcionário militar libanês e pelo próprio jornal. O Exército israelense diz analisar relatos de que dois jornalistas foram feridos em ataques a veículos que, segundo Israel, saíam de uma estrutura militar do Hezbollah. As Forças de Defesa de Israel insistem que “não têm como alvo jornalistas”, mas a morte de Khalil alimenta a revolta em Beirute e amplia a pressão sobre o governo libanês, que já lida com quase 2.500 mortos desde o início da ofensiva israelense.
A escalada militar produz efeitos diretos sobre a população civil. Comunidades do sul recebem novos alertas israelenses para que moradores não entrem na área ocupada, ampliando o quadro de deslocamento interno e esvaziamento de vilarejos. A economia libanesa, fragilizada há anos por crise financeira e colapso de serviços públicos, absorve mais um choque, desta vez concentrado na fronteira com Israel.
EUA ganham protagonismo e impõem agenda política
Trump usa a mediação do cessar-fogo para reforçar o papel de Washington como árbitro indispensável no Oriente Médio. O presidente indica que os EUA têm “planos” para apoiar o Líbano contra o Hezbollah, mas evita detalhes sobre a cooperação militar ou de inteligência. Diz apenas que o país mantém “uma ótima relação com o Líbano” e, ao mesmo tempo, insiste que Israel precisa garantir a própria defesa diante dos ataques do grupo armado apoiado pelo Irã.
Ao fim da reunião, Trump vai além do campo militar e entra na política interna libanesa. Questionado sobre as leis que criminalizam a normalização de relações com Israel, responde com espanto calculado: “É crime conversar com Israel?”. Ele afirma desconhecer as normas, mas diz estar “quase certo” de que serão revogadas em breve. “Vou garantir isso”, promete. A frase coloca o governo libanês em posição delicada. Aceitar a pressão americana significa desafiar uma legislação apoiada por partidos influentes e por uma parte expressiva da opinião pública, moldada por décadas de conflito.
Os EUA também mantêm, em paralelo, planos militares que pressionam Teerã. Autoridades em Washington desenvolvem cenários para atacar alvos iranianos no estreito de Ormuz caso a trégua desmorone e o confronto se espalhe. O cessar-fogo entre Israel e Líbano, embora formalmente separado das negociações mais amplas com o Irã, se enrosca na mesma teia regional que envolve programas de mísseis, alianças religiosas e disputas por influência no Golfo.
Cessar-fogo prorrogado, paz ainda distante
A extensão do cessar-fogo cria uma janela de três semanas que pode aliviar o fronte imediato, mas não resolve as causas do conflito. Israel mantém tropas em território libanês e exige o enfraquecimento decisivo do Hezbollah. O Líbano tenta recuperar soberania e garantir que seus cidadãos presos em Israel voltem para casa. O Irã observa cada gesto em Washington e mede até onde os EUA pretendem ir para conter seu aliado libanês.
Trump aposta que o tempo jogará a seu favor. O plano, exposto sem muitos detalhes, é transformar a pausa na violência em ponto de partida para conversas diretas entre Netanyahu e Josef Aoun, ainda durante a trégua. A continuidade dos ataques pontuais, porém, mostra que o cessar-fogo se sustenta sobre terreno instável. A próxima rodada de disparos ou a próxima morte civil podem redefinir as linhas de negociação. A dúvida que se impõe, ao fim do dia mais letal da trégua, é se três semanas bastam para transformar uma pausa tensa em caminho real para a paz.
