Trump ameaça retirar tropas dos EUA da Alemanha, Itália e Espanha
Donald Trump ameaça reduzir ou retirar tropas americanas da Alemanha, Itália e Espanha após novos atritos sobre a guerra contra o Irã. O presidente faz o anúncio entre quarta (29) e quinta-feira (30), em meio ao aumento das tensões com aliados europeus.
Choque direto com Berlim, Roma e Madri
A ofensiva de Trump começa na noite de quarta-feira, na rede Truth Social. Ele escreve que os Estados Unidos “estão estudando e revisando a possível redução de tropas na Alemanha, com uma decisão a ser tomada em breve”. Horas depois, amplia a ameaça para Itália e Espanha e transforma um incômodo de bastidor em confronto aberto com três pilares da presença militar americana na Europa.
O alvo principal é a Alemanha, que abriga 36.436 militares americanos, segundo dados de dezembro de 2025 do Centro de Dados de Recursos Humanos da Defesa dos EUA. Trata-se do maior contingente dos Estados Unidos em solo europeu, distribuído por bases aéreas e instalações estratégicas usadas em operações no Oriente Médio e no leste europeu. Trump já ameaça cortes ali em 2020, durante o primeiro mandato, mas agora vincula a possível retirada à postura de Berlim na guerra contra o Irã.
Na quinta-feira, o presidente é questionado sobre eventuais cortes também na Itália e na Espanha, onde há cerca de 12.600 e 3.800 militares americanos da ativa, respectivamente. “Quer dizer, eles não têm colaborado muito”, responde. Em seguida, endurece: “Sim, provavelmente […] Por que eu não deveria? A Itália não tem ajudado em nada. A Espanha tem sido horrível. Absolutamente”. A frase resume a frustração da Casa Branca com a recusa de aliados em seguir a estratégia americana no conflito.
O estopim imediato é a crítica pública do chanceler alemão, Friedrich Merz. Na segunda-feira (27), em Berlim, ele afirma que os EUA estão sendo “humilhados” pelo Irã e acusa Washington de não ter uma estratégia eficaz para encerrar a guerra. A declaração rompe a cautela que a diplomacia alemã adota desde o retorno de Trump à Presidência e expõe divergências que vinham crescendo em silêncio.
A reação do presidente americano é fulminante. Na terça-feira (28), em nova publicação no Truth Social, ele ataca Merz diretamente: “O chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, acha que está tudo bem o Irã ter uma arma nuclear. Ele não sabe do que está falando!”. Trump ainda afirma que “não é de admirar que a Alemanha esteja em situação tão precária, tanto economicamente quanto em outros aspectos”. Berlim rebate nos bastidores e lembra que defende, há anos, que Teerã não deve ter armas nucleares.
Guerra com o Irã expõe fissuras na aliança
A disputa sobre tropas expõe um conflito mais profundo: a forma como os EUA conduzem a guerra contra o Irã. Washington inicia a campanha militar sem notificar a maior parte dos aliados da Otan, que resistem a se envolver diretamente e enfatizam a necessidade de uma saída diplomática. A decisão irrita a Casa Branca, que conta com apoio mais visível e se decepciona com a resposta europeia.
A Alemanha autoriza o uso de sua infraestrutura militar, incluindo bases aéreas, para operações ligadas ao conflito. Mas impõe limites claros: não permite que essas bases sirvam de ponto de partida para ataques ofensivos diretos contra o Irã. Merz condiciona qualquer ajuda adicional a uma fase pós-guerra, com foco em reconstrução e estabilização. A linha vermelha deixa Washington sem a legitimidade e a logística que esperava de um aliado central na Otan.
Para sinalizar compromisso, Berlim anuncia o envio de um navio caça-minas ao Mediterrâneo, em preparação para eventuais esforços de reabertura do Estreito de Ormuz, assim que um cessar-fogo definitivo seja alcançado. A embarcação integra uma coalizão liderada por Inglaterra e França que busca garantir a passagem segura de navios por uma das rotas mais estratégicas do planeta. Trump, porém, considera o gesto insuficiente diante de seus apelos públicos para que aliados despachem navios de guerra e mais caça-minas à região.
A Itália tenta se afastar do fogo cruzado. O ministro da Defesa, Guido Crosetto, diz à agência ANSA, nesta quinta-feira, que não entende o alvo das críticas do presidente americano. “Como é claro para todos, não usamos o Estreito de Ormuz. E até nos oferecemos para realizar uma missão para proteger a navegação – um gesto que foi, na verdade, muito apreciado pelos militares dos EUA”, afirma. A declaração revela desconforto em Roma e sugere um ruído entre a cúpula política da Casa Branca e o comando militar americano.
Merz também tenta conter o dano político. Ele ressalta, na quarta-feira (29), que seu relacionamento com Trump continua “bom”, ao mesmo tempo em que volta a alertar para o peso econômico da guerra. Segundo o chanceler, o conflito pressiona o custo de energia na Alemanha e agrava um quadro já frágil de crescimento. Na quinta-feira, depois da nova ameaça de Trump sobre as tropas, ele reafirma, em uma base militar em Münster, que a parceria transatlântica segue “particularmente importante” para Berlim.
Risco de vácuo militar na Europa e pressão sobre a Otan
A possibilidade de retirada de milhares de militares americanos da Alemanha, Itália e Espanha atinge o coração da arquitetura de segurança europeia montada desde o fim da Segunda Guerra. As bases nessas três nações funcionam como plataforma de operações para o Oriente Médio, o norte da África e a fronteira leste da Otan. Uma redução significativa criaria um vácuo logístico e simbólico que os europeus teriam dificuldade de preencher no curto prazo.
Na prática, a ameaça de Trump reacende o debate sobre a própria Otan. O presidente já chama a aliança de “tigre de papel” e, diante da resistência europeia à guerra com o Irã, volta a falar em reconsiderar a permanência dos EUA no pacto. A retórica sobe o tom num momento em que governos europeus discutem, sob pressão doméstica, o aumento de gastos militares e a busca de maior autonomia em relação a Washington.
Para a Alemanha, o custo político é imediato. O país tenta, desde 2020, evitar a linha de fogo de Trump e preservar canais discretos de negociação com a Casa Branca. A crise atual encerra essa trégua informal. Ao ver seu chanceler atacado diretamente e suas bases usadas como moeda de pressão, Berlim enfrenta o desafio de equilibrar a defesa da soberania com a manutenção do guarda-chuva de segurança americano.
Itália e Espanha também entram no centro do tabuleiro. A presença de 12.600 militares na Itália e de 3.800 na Espanha sustenta operações navais e aéreas no Mediterrâneo, além de missões de vigilância e treinamento. Uma retirada parcial forçaria ajustes em cadeias de comando, rotas de abastecimento e planejamento conjunto de defesa. A mudança poderia acelerar iniciativas europeias para reforçar capacidades próprias, mas exigiria investimentos bilionários em um horizonte de vários anos.
Decisão em aberto e disputa por liderança
Trump afirma que uma decisão sobre a redução de tropas na Alemanha será tomada “em breve”, sem apresentar prazos nem números. O vago cronograma amplia a incerteza em capitais europeias e abre espaço para barganhas de última hora, tanto no campo militar quanto no comercial. Nas próximas semanas, diplomatas esperam uma rodada intensa de conversas em Washington, Bruxelas, Berlim, Roma e Madri.
A guerra com o Irã segue como pano de fundo e teste de liderança. Enquanto os EUA pressionam por alinhamento à sua estratégia, governos europeus insistem em uma combinação de dissuasão militar e saída diplomática. A forma como essa disputa se resolve definirá não apenas o tamanho do contingente americano na Europa, mas também o desenho das alianças ocidentais na próxima década.
