Ciencia e Tecnologia

Sonda Psyche faz manobra em Marte e registra rara “crescente” do planeta

A sonda Psyche, da Nasa, sobrevoa Marte em 15 de maio de 2026 e registra imagens inéditas do planeta em formato de crescente. A passagem a 4.609 km da superfície rende dados preciosos para a próxima etapa da missão rumo ao asteroide metálico 16 Psyche.

Marte em crescente e a rota até um “asteroide de ouro”

As novas imagens de Marte chegam ao público nesta terça-feira (19), quando a agência espacial divulga o material capturado pela Psyche durante a aproximação. As fotos mostram o Planeta Vermelho em um fino arco iluminado, semelhante às fases da Lua vistas da Terra, resultado do ângulo elevado entre a espaçonave, o Sol e Marte.

A Psyche realiza a passagem rasante enquanto cruza o Sistema Solar em direção ao asteroide 16 Psyche, um corpo de cerca de 280 quilômetros de largura, localizado no cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter. Lançada em outubro de 2023, a missão tem um objetivo claro: investigar um dos objetos mais intrigantes já identificados, um asteroide rico em ferro e níquel, apelidado de “asteroide de ouro” e estimado em até US$ 10 quintilhões em valor bruto de metais.

Para a comunidade científica, o interesse está longe de ser apenas financeiro. Pesquisadores suspeitam que o 16 Psyche pode ser o núcleo exposto de um antigo planeta embrionário destruído por colisões ao longo de bilhões de anos. Se a hipótese se confirma, o objeto funciona como um registro geológico preservado do início da formação dos planetas rochosos, incluindo a Terra.

O encontro com Marte é uma etapa crítica nessa viagem de longa duração. A Psyche precisa seguir uma rota precisa para chegar ao asteroide em agosto de 2029, e a passagem pelo planeta vizinho oferece a oportunidade de ajustar a trajetória sem gastar grandes quantidades de combustível. A equipe de navegação no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) acompanha cada sinal enviado pela nave por meio da Rede de Espaço Profundo, um conjunto de antenas de grande porte espalhadas por diferentes continentes.

Gravidade como estilingue e laboratório em movimento

A manobra realizada pela Psyche usa um recurso clássico da exploração espacial: a assistência gravitacional. Em vez de depender apenas dos motores, a nave se aproxima de Marte em um ângulo calculado para que a gravidade do planeta funcione como um estilingue. O resultado, segundo a Nasa, é um ganho de cerca de 1.600 km/h em velocidade e um pequeno desvio de curso, suficiente para colocá-la na rota correta até o asteroide.

Essa técnica permite que missões de longa distância evitem tanques gigantes de combustível e reduzam custos. No caso da Psyche, a estratégia se combina com um sistema de propulsão solar-elétrica, em que grandes painéis solares alimentam motores de baixo empuxo e longa duração. Após deixar Marte para trás, a nave retoma esse modo de voo, acelerando de forma contínua até alcançar quase 20 mil km/h no espaço profundo.

Durante o sobrevoo, todos os instrumentos científicos da espaçonave entram em ação. As câmeras registram o planeta em alta resolução, enquanto magnetômetros e sensores de partículas observam a interação de Marte com o vento solar, o fluxo constante de partículas carregadas emitidas pelo Sol. A equipe relata que a atmosfera marciana espalha a luz solar de forma mais intensa do que o previsto, o que amplia o brilho ao redor do disco do planeta nas imagens.

Os cientistas consideram o encontro um ensaio geral para a fase crucial da missão. As sequências rápidas de fotos da superfície, feitas no momento de maior aproximação, servem para calibrar sistemas de imagem que, mais à frente, vão mapear o relevo e a composição de 16 Psyche. Os dados de radiação e partículas, por sua vez, serão comparados com medições de outras missões em Marte, como os robôs Curiosity e Perseverance e orbitadores da Nasa e da Agência Espacial Europeia.

Responsáveis pela navegação celebram o resultado. Don Han, chefe da área no JPL, descreve o momento em que os cálculos se confirmam como decisivo para a confiança da equipe. “Acompanhar a aproximação em tempo real mostra que a manobra funciona exatamente como planejado e garante que a nave siga no caminho certo”, afirma.

O que está em jogo na corrida até o 16 Psyche

O sucesso da passagem por Marte vai além de belas imagens. Cada sinal recebido ajuda a validar modelos de navegação, desempenho dos motores elétricos e resistência dos instrumentos à radiação do espaço profundo. Esses dados interessam não só aos cientistas da missão, mas a todo o setor de exploração interplanetária, que depende de trajetórias precisas e sistemas confiáveis para alcançar destinos cada vez mais distantes.

O asteroide 16 Psyche representa um alvo científico singular. Por ser rico em ferro e níquel, materiais que provavelmente compõem o núcleo de planetas rochosos, ele oferece uma oportunidade rara de observar, de perto, algo que na Terra permanece inacessível a sondas e perfurações. “O impulso gravitacional fornecido por Marte é essencial para que a espaçonave continue sua longa jornada pelo Sistema Solar”, resume Lindy Elkins-Tanton, principal responsável científica pela missão.

Quando chegar ao destino, a Psyche deve realizar órbitas sucessivas em diferentes altitudes. O plano de voo prevê mapas detalhados da superfície, medições do campo magnético local e análises da densidade do asteroide. A combinação desses dados pode revelar se o objeto é de fato um núcleo metálico exposto ou se tem uma estrutura mais complexa, com camadas de diferentes materiais.

Os resultados podem redefinir o entendimento sobre como se formam e evoluem os planetas rochosos. Modelos atuais sugerem que, no início do Sistema Solar, pequenos corpos chocam-se e se fundem, formando estruturas maiores. Alguns desses blocos primordiais não sobrevivem ao processo e deixam apenas fragmentos, como asteroides metálicos. Confirmar essa história em um objeto real ajuda a testar teorias que hoje dependem de simulações e observações indiretas.

Próxima parada: um laboratório metálico no cinturão de asteroides

Com a manobra em Marte concluída, a Psyche entra em uma fase longa de cruzeiro, em que a rotina se alterna entre correções finas de rota e checagens dos sistemas a bordo. A cada contato pela Rede de Espaço Profundo, engenheiros analisam o desempenho da propulsão solar-elétrica, ajustam parâmetros e monitoram a saúde dos instrumentos que precisam operar sem falhas por mais três anos.

O encontro com o 16 Psyche, previsto para agosto de 2029, transforma o asteroide em um laboratório natural sobre o interior de mundos como a Terra, Marte e Vênus. A missão também alimenta um debate que tende a ganhar força nos próximos anos: se estruturas metálicas no espaço podem, um dia, interessar economicamente como fontes de matéria-prima, ou se permanecerão, sobretudo, patrimônios científicos. Enquanto a nave se afasta de Marte e acelera rumo ao cinturão de asteroides, a resposta ainda está aberta, mas o caminho para descobri-la já está traçado.

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