Rússia faz maior exercício nuclear em décadas com apoio de Belarus
A Rússia realiza em maio de 2026 o maior exercício militar com arsenal nuclear das últimas décadas, mobilizando mais de 64 mil soldados. As manobras, que incluem lançadores de mísseis, bombardeiros e submarinos estratégicos, se estendem para Belarus e elevam a tensão em uma Europa já marcada pela guerra na Ucrânia.
Escalada planejada e recado para o Ocidente
As operações ganham intensidade a partir de 18 de maio, quando unidades russas se deslocam para Belarus para exercícios com armas nucleares táticas. O Ministério da Defesa russo afirma que o objetivo é preparar o país para o “possível emprego” de seu arsenal em caso de “ameaça de agressão”. O discurso oficial fala em treinamento de rotina, mas o volume de tropas e equipamentos indica uma demonstração calculada de força.
O comunicado de Moscou informa a mobilização de mais de 7,8 mil peças de armamento e equipamentos militares. Estão em campo mais de 200 lançadores de mísseis, mais de 140 aeronaves, 73 navios e 13 submarinos, dos quais oito são submarinos de mísseis balísticos estratégicos. Esses números representam uma fatia relevante da tríade nuclear russa, o conjunto de forças capazes de lançar ogivas por terra, mar e ar.
Estimativas do Boletim dos Cientistas Atômicos apontam que a Rússia dispõe de pouco mais de 320 lançadores de mísseis intercontinentais, entre silos fixos e plataformas móveis. Com mais de 200 lançadores ativados nestes exercícios, bem mais da metade da capacidade total entra em operação ao mesmo tempo. Entre os submarinos de mísseis balísticos, oito dos 13 existentes participam das manobras, provavelmente a quase totalidade dos que estão prontos para combate imediato.
O país costuma concentrar esses exercícios estratégicos, conhecidos como “Trovão”, em outubro. Em 2022, porém, quebrou a rotina e testou sua força nuclear em fevereiro, dias antes da invasão em larga escala da Ucrânia. A repetição de um desvio no calendário tradicional volta a acender alertas em capitais ocidentais, mesmo sem uma ligação oficial com operações em curso no campo de batalha.
Guerra de drones e arenas sobrepostas
As manobras ocorrem em meio a uma escalada de ataques com drones de longo alcance entre Rússia e Ucrânia. Dois dias antes do início dos exercícios, Moscou sofre o maior ataque com drones desde o começo da guerra. Três moradores da região metropolitana morrem e outras 17 pessoas ficam feridas. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelenski, descreve a ofensiva noturna como “resposta justa” a ataques russos contra cidades ucranianas.
Em 14 de maio, um míssil russo atinge um edifício de nove andares em Kiev e mata 24 pessoas. As autoridades de Moscou evitam relacionar diretamente esses episódios aos exercícios nucleares, mas o encadeamento de fatos reforça a percepção de que o Kremlin reage a um ambiente de pressão crescente dentro de suas próprias fronteiras.
As forças nucleares estratégicas russas mantêm, na prática, um grau permanente de alerta, com sistemas projetados para responder em prazos muito menores que as forças convencionais. Ao colocar no terreno uma parcela tão ampla de sua estrutura nuclear, Moscou não apenas testa procedimentos, mas torna visível ao adversário o custo potencial de qualquer escalada.
Na véspera do auge das manobras estratégicas, Belarus anuncia exercícios próprios com armas nucleares táticas, ogivas instaladas pelo Exército russo em 2023. O Ministério da Defesa bielorrusso declara que pretende “testar a capacidade” de lançar mísseis a partir de áreas não preparadas em todo o território. O país já havia simulado o emprego dessas armas em 2024, com um batalhão de mísseis Iskander e aviões de ataque Su-25 adaptados para transportar ogivas nucleares.
A Otan também pratica, todos os anos, cenários de uso de bombas nucleares americanas estocadas em bases na Itália, Holanda, Bélgica, Alemanha e Turquia. As manobras em Belarus, porém, causam inquietação extra nas capitais ocidentais. A invasão da Ucrânia em 2022 partiu também do território bielorrusso, e análises da própria Otan, ainda em 2017, já projetavam um conflito iniciado sob a cobertura de exercícios de grande escala nesse país.
Nova geração de mísseis e impacto na segurança global
Menos de uma semana antes do início das manobras, em 12 de maio, a Rússia testa o novo míssil balístico intercontinental Sarmat. A arma substitui o veterano R-36M Voevoda, conhecido no Ocidente pelo codinome SS-18 Satan, projetado e mantido originalmente por uma empresa ucraniana. Ao receber o relatório do lançamento, o presidente Vladimir Putin diz que o Sarmat tem alcance superior a 35 mil quilômetros.
Um alcance desse tamanho permite, em teoria, que o míssil atinja qualquer alvo no planeta por diferentes rotas, e não só pela trajetória mais curta. Putin afirma que essa flexibilidade, somada a uma trajetória de voo suborbital e a um peso de lançamento elevado, “torna a interceptação praticamente impossível”. Ele garante que “nenhum outro míssil” combina todas essas características ao mesmo tempo.
Especialistas lembram, porém, que os dados completos do Sarmat ainda não aparecem em testes práticos conhecidos. Em dois lançamentos bem-sucedidos, o míssil percorre não mais que 6 mil quilômetros, distância inferior a um sexto do alcance anunciado por Putin. A ausência de comprovação independente alimenta dúvidas sobre o estágio real de maturidade do sistema.
No mesmo discurso, o presidente russo cita outros projetos avançados, como o míssil de médio alcance Oreshnik, que ele diz estar em operação desde 2025, e dois sistemas de propulsão nuclear: o torpedo submarino Poseidon e o míssil de cruzeiro Burevestnik. Putin sustenta que esses dois últimos passam por testes bem-sucedidos em 2025, mas organizações de monitoramento não encontram evidências públicas que confirmem as provas.
Em conjunto, os exercícios nucleares em larga escala e a vitrine de novos mísseis reforçam a mensagem de que Moscou não pretende abrir mão da paridade estratégica com os Estados Unidos. A pressão recai sobre um sistema de controle de armas já fragilizado, após o fim de tratados como o INF, sobre mísseis de médio alcance, e o esvaziamento do diálogo sobre substitutos para o New START, acordo que limita arsenais estratégicos até o fim da década.
Risco de erro de cálculo e próximos movimentos
A dimensão das manobras de maio faz crescer o temor de erro de cálculo em um ambiente saturado de incidentes militares e retórica inflamada. Cada novo teste de míssil ou lançamento de drone amplia a chance de interpretações equivocadas em Moscou, Kiev ou nas capitais da Otan. O envolvimento ativo de Belarus, com ogivas russas posicionadas a poucas centenas de quilômetros de fronteiras da União Europeia, adiciona uma camada extra de imprevisibilidade.
Diplomatas em Washington, Bruxelas e Berlim avaliam como responder a uma Rússia que exibe grande parte de sua força nuclear em plena guerra na Ucrânia, ao mesmo tempo em que fala em novas armas estratégicas. A pressão por algum tipo de reabertura de negociações sobre controle de arsenais cresce, mas encontra um cenário em que a confiança mútua está no nível mais baixo desde o fim da Guerra Fria. A pergunta que permanece é se esse ciclo de demonstrações de força vai empurrar as potências de volta à mesa de negociação ou a um patamar ainda mais arriscado de confronto indireto.
