Esportes

Queniano quebra barreira das 2h e redefine maratona em Londres

Sabastian Sawe cruza a linha da Maratona de Londres em 1h59min30s neste domingo (27), torna-se o primeiro atleta a correr uma prova oficial abaixo de duas horas e coloca a Adidas no centro da corrida tecnológica dos “supertênis”.

Recorde histórico em um par de tênis de 97 gramas

A manhã fria em Londres guarda um momento que o atletismo persegue há anos. Quando o cronômetro marca 1 hora, 59 minutos e 30 segundos, o queniano de 28 anos rompe a barreira simbólica das duas horas na maratona e reescreve os livros do esporte. O feito vem calçado em um par de Adizero Adios Pro Evo 3, tênis de US$ 500 (cerca de R$ 2.500) e 97 gramas, vitrine da aposta da Adidas em tecnologia extrema para alta performance.

Sawe não apenas vence a Maratona de Londres. Ele destrona a marca de 2h00min35s estabelecida em 2023 pelo compatriota Kelvin Kiptum, morto em um acidente de carro no início de 2024, e leva a discussão sobre os limites humanos para dentro dos laboratórios de materiais. A marca de Londres entra para a história como o primeiro sub-2 oficial, reconhecido dentro das regras tradicionais de prova, sem carros marcadores especiais nem condições controladas de circuito.

Logo após cruzar a linha de chegada, o queniano ergue o tênis branco com inscrições em caneta preta: “WR” e “sub-2”. É um gesto simples, mas calculado. Amarra a imagem do homem recordista ao produto que ele usa e oferece à Adidas o tipo de propaganda que nenhuma campanha publicitária compra. “A grande diferença é que ele é muito leve e muito confortável”, diz Sawe a repórteres, ainda na segunda-feira, já projetando o lançamento do modelo ao público na próxima quinta (30).

Adidas toma a dianteira na guerra dos supertênis

A cena interessa muito além da pista de Londres. Minutos depois do resultado, o mercado financeiro reage. As ações da Adidas sobem cerca de 1,5% na manhã desta segunda-feira, em meio a um ano difícil para a companhia, que acumula queda de 18% em 2026 por causa de temores com tarifas nos Estados Unidos e o impacto do conflito no Oriente Médio. O sub-2 de Sawe funciona como correção de rota simbólica e ajuda a reposicionar a marca como referência em corrida de performance.

O Adizero Adios Pro Evo 3 é o ápice de uma estratégia iniciada em 2023, com o lançamento do Evo 1, que acompanha o recorde mundial feminino de Tigst Assefa em Berlim. Agora, em Londres, a etíope volta a protagonizar: quebra o próprio recorde, vence a prova pela segunda vez e também corre com o novo modelo. “Estou muito feliz por ter quebrado o recorde e por ter vencido em Londres pela segunda vez. Isso significa muito para mim”, afirma. Ela credita o desempenho ao conjunto entre anos de disciplina e o equipamento certo. “Treinei muito, e por causa de todo o trabalho árduo que dediquei, alcancei esse nível de sucesso”, diz.

O tênis, apresentado pela Adidas como 30% mais leve que o antecessor, combina espuma de nova geração, placas de carbono no solado e uma construção minimalista. Segundo a empresa, o conjunto melhora a economia de corrida em 1,6%, ou seja, reduz o gasto de energia a cada quilômetro. Em maratonas decididas em segundos, esse percentual vira ouro. Nas áreas de largada, o efeito já aparece. Entre os amadores mais rápidos em Londres, a Reuters encontra muitos pés calçados com Adidas e Puma Nitro Elite, enquanto os modelos Alphafly e Vaporfly, da Nike, símbolos da era dos supertênis, surgem esporádicos.

O movimento inverte o enredo que domina a última década, quando a Nike puxa a fronteira tecnológica com o Breaking2, em 2017, em Monza, e com o desafio 1:59, em 2019, em Viena, ambos com Eliud Kipchoge. As performances abaixo das duas horas não entram nos registros oficiais, devido às condições especiais das tentativas, mas colocam a marca americana como sinônimo de inovação. Hoje o roteiro muda. “A Nike se meteu em problemas por não ser inovadora o suficiente”, avalia Simon Jaeger, gestor da Flossbach von Storch, que tem ações das duas companhias. Ele fala em “falha de liderança” na gestão do ex-CEO John Donahoe e vê a Adidas se destacando tanto em tênis casuais quanto de performance.

Corrida tecnológica acirra debate sobre limites e futuro do esporte

O impacto do sub-2 de Sawe não se esgota no quadro de medalhas ou na tela do pregão. A maratona vira uma vitrine privilegiada de ciência aplicada. Um par de tênis que pesa menos de 100 gramas, custa R$ 2.500 e promete ganho de 1,6% no uso de energia mostra como cada detalhe passa por engenheiros, físicos e químicos antes de chegar ao pé do atleta. Eventos com mais de 50 mil corredores, como Londres, transformam as ruas em laboratório a céu aberto. Marcas contam manualmente quantos concorrentes cruzam a linha de chegada usando seus produtos e ajustam investimentos a partir desses números.

O avanço, porém, levanta perguntas sobre equilíbrio competitivo. Quando um modelo com preço de US$ 500 entra em cena e se associa a quebras de recorde seguidas, parte do pelotão teme que o pódio se torne consequência do acesso à tecnologia mais do que do talento e do treino. A World Athletics, federação internacional, já define limites para espessura de solado e uso de placas rígidas, mas a sofisticação dos materiais torna a fiscalização mais complexa. A popularização dos supertênis também altera rotinas de preparação. Técnicos redesenham treinos, ajustam cargas e repensam a estratégia de prova para explorar melhor o retorno de energia do calçado. Amadores economizam por meses para comprar um par que, na prática, pode nunca ser usado em treinos diários, apenas em provas-alvo.

O efeito se espelha na indústria. O mercado de running cresce de forma consistente e empurra gigantes e novatas para uma disputa de nicho. Hoka e On, antes marcas de nicho entre entusiastas, entram no radar de investidores e ganham espaço nas ruas. A Nike tenta reagir. Sob comando do CEO Elliott Hill, no cargo desde 2024, promete recentrar a empresa em esportes como corrida e futebol. Novas versões de Alphafly e Vaporfly estão previstas para o fim do ano, em pleno outono do hemisfério norte, quando grandes maratonas como Berlim, Chicago e Nova York voltam a ocupar as manchetes. Até lá, porém, a Adidas desfruta da vantagem simbólica de ter assinado o primeiro sub-2 oficial.

No comunicado após a prova, a própria marca adota tom de família esportiva. “A família Adidas está incrivelmente orgulhosa das conquistas históricas de Sabastian e Tigst”, diz Patrick Nava, gerente-geral de running. Ele apresenta o feito como resultado de “anos de trabalho árduo” dos atletas ao lado da equipe de inovação. A narrativa atende a dois públicos ao mesmo tempo: o fã que vibra com o desempenho e o investidor que busca sinais de liderança de produto em um setor cada vez mais disputado.

Próxima fronteira: sustentabilidade, regulação e novo patamar de expectativas

O lançamento do Adizero Adios Pro Evo 3 segue roteiro agressivo. Primeiro, a vitrine de Londres e os recordes em série. Depois, a abertura de vendas pelo aplicativo da Adidas, com distribuição mais ampla planejada para a temporada de maratonas do outono europeu. O preço alto limita o alcance imediato, mas ajuda a construir a imagem de objeto de desejo. A médio prazo, parte da tecnologia tende a descer para linhas mais baratas, como já ocorre em outros ciclos da indústria.

O sub-2 oficial também redefine o horizonte psicológico da modalidade. Para a nova geração de maratonistas, correr abaixo de duas horas deixa de ser uma impossibilidade romântica e passa a ser um objetivo concreto, sujeito a planejamento e patrocínio. A questão, agora, é saber até que ponto o avanço virá do corpo humano e até que ponto dependerá de espumas, placas e polímeros cada vez mais sofisticados. Reguladores, marcas e atletas terão de responder, nos próximos anos, a uma pergunta incômoda: o que ainda é maratona tradicional e o que já é uma nova modalidade, moldada pelas máquinas que calçamos nos pés?

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