PT abre congresso e mira centro-direita para segurar avanço de Flávio Bolsonaro
O PT abre, nesta sexta-feira (25/4), em Brasília, o 8º Congresso Nacional, voltado a traçar a estratégia para a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva em outubro. Em meio ao avanço de Flávio Bolsonaro nas pesquisas, o partido mira alianças com a centro-direita, endurece o discurso contra a extrema-direita e coloca o combate à desinformação no centro do programa.
Congresso mira alianças amplas e narrativa da democracia em risco
O encontro ocupa o Congresso Nacional até domingo e reúne dirigentes partidários, governadores, prefeitos, parlamentares e ministros. Lula, submetido a procedimentos médicos na véspera, participa por vídeo na abertura e é esperado presencialmente no ato final. Nos bastidores, a ordem é clara: organizar a campanha da reeleição e conter a trajetória de crescimento do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), hoje principal nome da oposição na disputa presidencial.
O texto-base do programa, discutido em plenário desde a manhã, apresenta a eleição de 2026 como um novo confronto entre “democracia” e “ditadura”. O documento afirma que o país vive “contradições existenciais” e lista pares antagônicos para marcar posição: “democracia contra ditadura, soberania contra entreguismo, bem-estar contra sofrimento, desenvolvimento contra retrocesso, esperança contra medo, vida contra morte”. A escolha de palavras mostra que o partido aposta em reavivar o clima de 2022, quando Lula derrotou Jair Bolsonaro por 50,9% a 49,1% dos votos válidos.
O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB-SP), convidado de honra da abertura, ajuda a sinalizar a busca por alianças ao centro. Em discurso, ele elogia Lula e faz ataques diretos ao bolsonarismo. “O presidente Lula salvou a democracia no Brasil. Se perdendo as eleições tentaram dar um golpe, imagine se tivessem ganhado”, afirma, arrancando aplausos da plateia. Alckmin, que até 2018 era o principal rosto do PSDB, reforça o recado de que o PT precisa de uma frente mais larga para enfrentar a direita radical nas urnas.
Desinformação, segurança pública e apostas entram no eixo do programa
A cúpula petista trata a desinformação como ameaça central à campanha. O programa fala em “ofensiva programática e unidade popular” e adverte para o risco de nova “máquina da desinformação” capturar o debate público. “A reeleição de Lula é o eixo em torno do qual devemos organizar a resistência contra a hegemonia financeira e a extrema-direita”, diz o texto. Dirigentes relatam preocupação com o uso intensivo de redes sociais pela oposição e com a atuação de estruturas de comunicação informal nos estados.
O partido também tenta ocupar a agenda da segurança pública, tema historicamente associado à direita. O plano prevê a criação de um Ministério da Segurança Pública e de um Sistema Único que integre ações federais, estaduais e municipais. A aposta é mostrar capacidade de resposta a um problema que preocupa o eleitor comum e, ao mesmo tempo, afastar o discurso de endurecimento indiscriminado, que costuma render votos à oposição conservadora.
Na área trabalhista, delegados pressionam por mudanças concretas. Uma das bandeiras mais repetidas é o fim da escala 6×1, modelo em que o trabalhador atua seis dias seguidos e folga um. O texto classifica o esquema como forma de “exploração do tempo de vida da classe trabalhadora” e defende rever jornadas e vínculos criados após a reforma trabalhista de 2017. A mensagem é dirigida ao núcleo sindical que sustenta o PT desde os anos 1980 e cobra entregas mais rápidas no terceiro mandato de Lula.
O debate sobre as casas de apostas, em especial as plataformas digitais, surge como ponte com o eleitorado evangélico. Ministros palacianos comemoram a decisão recente do governo de restringir as chamadas “bets de predição” e bloquear sites irregulares. No documento do congresso, o PT promete fiscalizar com rigor o setor e propõe proibir operações consideradas “predatórias”, como o “Jogo do Tigrinho”. Para as demais, defende taxação alta, com imposto seletivo superior ao aplicado sobre o tabaco. A linha é a mesma do projeto de lei apresentado na Câmara pelo líder do governo, Pedro Uczai (PT-SC).
Disputa com Flávio Bolsonaro reconfigura xadrez eleitoral
A presença de figuras históricas, como José Dirceu e Paulo Okamoto, reforça a dimensão política do encontro. Do palco, eles reiteram a tese da soberania nacional e miram o cenário internacional. Criticam o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e cobram de Washington a libertação do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, “sequestrado” pelos EUA no início do ano. A fala agrada à militância mais à esquerda, mas aumenta o contraste com o discurso moderado usado para atrair setores de centro e centro-direita.
O pano de fundo de todas as intervenções é a ascensão de Flávio Bolsonaro nas pesquisas. Levantamentos recentes mostram o senador fluminense avançando em segmentos que rejeitam tanto Lula quanto o bolsonarismo raiz do pai. Dirigentes petistas admitem, em privado, que o risco de uma nova candidatura da extrema-direita com discurso menos radicalizado, mas ainda alinhado ao legado de 2019 a 2022, obriga o partido a reorganizar a base de apoio e estender pontes com antigos adversários.
As alianças com partidos de centro-direita entram nessa conta. Governadores e prefeitos relatam negociações em estados-chave para montar palanques mistos, que incluam siglas que hoje oscilam entre oposição moderada e neutralidade. A ideia é repetir, em 2026, a fórmula que garantiu a frente ampla de 2022, mas com um componente adicional: proteger Lula de uma rejeição alta em setores empresariais e entre eleitores mais conservadores, que passaram a enxergar em Flávio uma alternativa menos imprevisível do que o pai.
As bandeiras sobre segurança pública e apostas, somadas ao discurso de responsabilidade fiscal tocado por Alckmin, são parte desse esforço. Ao atacar as “jogatinas” e prometer mais controle sobre o setor, o governo abre um canal de diálogo com lideranças evangélicas que resistem ao PT, mas veem com preocupação o impacto do jogo online em famílias de baixa renda. Ao mesmo tempo, o reforço da pauta social — com a crítica à jornada 6×1 e a defesa de direitos trabalhistas — mantém mobilizada a base tradicional lulista, concentrada entre trabalhadores formais, servidores e beneficiários de programas sociais.
Próximos passos e incertezas até outubro
As resoluções finais do 8º Congresso do PT devem ser aprovadas até domingo e entregues a Lula como bússola para a campanha. A expectativa na cúpula é sair de Brasília com um roteiro claro de alianças estaduais, uma mensagem fechada sobre o embate “democracia x ditadura” e um pacote de propostas que dialoguem com temas sensíveis ao eleitorado, como segurança e endividamento das famílias. A partir de maio, a direção partidária promete intensificar viagens pelo país e testar os slogans em pesquisas qualitativas.
A resposta dos adversários tende a ser rápida. Flávio Bolsonaro já explora o discurso de que o PT usa a pauta da democracia para fugir de problemas econômicos e de escândalos de corrupção do passado. Partidos de centro observam com cautela o movimento petista, tentando medir o custo de se associar a Lula num ambiente em que a polarização continua alta. O congresso que hoje organiza a ofensiva petista também expõe um dilema: até que ponto a frente ampla necessária para vencer em outubro será suficiente para governar um país ainda dividido ao meio.
