Primeira mulher no comando da PM de SP prioriza violência doméstica
A coronel Glauce Anselmo Cavalli assume nesta quarta-feira (29) o comando da Polícia Militar de São Paulo e coloca o enfrentamento à violência doméstica no centro da agenda da corporação. A escolha ocorre após uma sequência de casos de violência policial e pressões por mudança de cultura na instituição.
Marco inédito em quase dois séculos de história
Glauce se torna a primeira mulher a comandar a PM paulista em quase 200 anos de existência da instituição, criada em 1831. A nomeação sinaliza uma tentativa de renovação em meio a críticas crescentes ao uso excessivo da força e à baixa capacidade de resposta da polícia em casos de agressões dentro de casa.
A posse em São Paulo, maior estado do país, tem peso nacional. A corporação soma hoje mais de 80 mil policiais e responde pelo policiamento ostensivo em 645 municípios, com presença diária em bairros onde a violência doméstica se mistura a outros conflitos. Cada decisão do comando impacta diretamente a rotina de milhões de moradores, sobretudo mulheres em situação de vulnerabilidade.
Violência policial, pressão social e mudança de rota
A troca no topo da PM vem após episódios recentes de mortes em operações, denúncias de abuso e imagens de agressões que circulam nas redes sociais e pressionam o governo paulista. O desgaste atinge não apenas a cúpula política, mas também a confiança de quem depende da polícia para pedir socorro em situações de risco.
Ao apresentar as primeiras diretrizes, Glauce aponta a violência doméstica como prioridade explícita. O plano inclui ampliar equipes dedicadas a esse tipo de ocorrência, reforçar o atendimento a vítimas desde o primeiro chamado ao 190 e padronizar procedimentos que hoje variam de batalhão para batalhão. A meta é reduzir a subnotificação e acelerar o registro de boletins, medida vista por especialistas como porta de entrada para proteção efetiva.
Violência dentro de casa ganha centralidade
Dados de órgãos estaduais mostram que, a cada ano, dezenas de milhares de mulheres procuram delegacias e unidades policiais em busca de proteção em São Paulo. Em muitos casos, o primeiro contato é com uma viatura da PM. A escolha de transformar esse momento inicial em foco do novo comando muda o eixo da atuação cotidiana dos policiais.
Glauce fala em construir uma polícia mais preparada para escutar, acolher e agir com rigor contra agressores. “Nenhuma ligação de vítima de violência doméstica pode ser tratada como ocorrência de rotina”, afirma, em mensagem ao efetivo. O discurso mira uma mudança de cultura, que envolve desde o treinamento de recrutas até a atualização de protocolos internos e o uso de tecnologia para monitorar ocorrências reincidentes.
Formação, protocolos e controle interno
Na prática, a prioridade à violência doméstica tende a se refletir em cursos obrigatórios, metas internas e novos indicadores de desempenho. A expectativa é incluir módulos específicos sobre gênero, direitos humanos e mediação de conflito em todas as turmas de formação e aperfeiçoamento, com carga horária definida e avaliação regular.
O comando também promete ampliar o cruzamento de dados com o Judiciário e com a rede de proteção social, para acompanhar medidas protetivas e garantir resposta rápida em caso de descumprimento. Em paralelo, a cúpula discute formas mais rígidas de responsabilizar policiais envolvidos em agressões dentro da própria corporação, inclusive em episódios de violência doméstica praticada por agentes fardados ou fora de serviço.
Impacto na relação com a sociedade
A aposta em uma liderança feminina no comando da PM, em um estado com mais de 44 milhões de habitantes, tem também um componente simbólico. Organizações de defesa de direitos humanos enxergam na posse de Glauce uma oportunidade de reaproximação entre polícia e sociedade civil, desde que o discurso se traduza em metas mensuráveis e transparência sobre resultados.
Especialistas apontam que a mudança de foco pode ajudar a reduzir subnotificações, aumentar pedidos de medidas protetivas e encurtar o tempo de resposta em ocorrências críticas, hoje muitas vezes marcadas por demora e desconfiança. Cada minuto entre a ligação de emergência e a chegada da viatura pode ser decisivo para impedir uma agressão grave ou um feminicídio.
Desafios e próximos passos do novo comando
O desafio de Glauce será conciliar a promessa de maior sensibilidade social com a pressão por resultados rápidos na segurança pública, em um cenário de cobrança intensa por redução de crimes. A prioridade à violência doméstica não elimina outras frentes, como combate a facções, roubo de veículos e letalidade policial, que seguem no centro do debate paulista.
Nas próximas semanas, o novo comando deve detalhar cronogramas, metas numéricas e mudanças na estrutura dos batalhões para sustentar o discurso de transformação. O alcance real dessa guinada só ficará claro com o tempo, à medida que os números de ocorrências, prisões e reincidência de agressões forem publicados e comparados. A pergunta que atravessa o início da gestão é direta: a primeira mulher à frente da PM paulista terá força política e apoio interno suficientes para mudar uma cultura construída ao longo de quase dois séculos?
