Ultimas

Pressionado no Congresso, Lula testa novo mote e redesenha campanha

Lula testa um novo mote de campanha e redesenha seu pacote de propostas após uma sequência de derrotas no Congresso, na virada de abril para maio de 2026. O movimento tenta conter o desgaste político e recuperar terreno na disputa pela reeleição.

Pronunciamento em rede nacional marca virada de discurso

O ensaio dessa guinada aparece em cadeia de rádio e TV em 1º de Maio. No pronunciamento, Lula critica o “sistema”, promete reduzir a jornada semanal de trabalho e defende o fim da escala de seis dias por um de descanso. Ele apresenta ainda uma nova rodada do Desenrola, programa de renegociação de dívidas, e acena a segmentos específicos do eleitorado, como mulheres, trabalhadores precarizados e público religioso.

O texto lido da Presidência transforma propostas em esboço de slogan de campanha. Lula volta a falar em soberania nacional, combate às empresas de apostas esportivas e defesa das riquezas do país, tentando atualizar bandeiras que o acompanharam em outros mandatos. O discurso mira um eleitorado que sente o peso de juros altos, endividamento recorde e insegurança no emprego, mesmo após a retomada de programas sociais.

Derrotas históricas no Congresso expõem fragilidade

Enquanto tenta reorganizar a narrativa, Lula enfrenta o Congresso mais hostil desde o início do mandato. Na quarta-feira, 29 de abril, o Senado rejeita a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, um revés inédito desde o fim do século 19. No dia seguinte, 30 de abril, deputados e senadores derrubam o veto presidencial ao projeto da dosimetria das penas, que beneficia Jair Bolsonaro e outros condenados por participação na trama golpista de 8 de janeiro.

As duas votações escancaram o enfraquecimento da base governista. A derrota de Messias, advogado ligado ao PT e figura central na estratégia jurídica do governo, frustra o plano de Lula de consolidar maioria no STF e tensiona uma das alianças mais importantes para 2026, em Minas Gerais. Lula deseja que Rodrigo Pacheco, hoje no PSB, seja candidato ao governo mineiro, segundo maior colégio eleitoral do país. Lulistas, porém, desconfiam que o presidente do Senado tenha trabalhado contra Messias e perdido o apetite de apoiar o projeto do Planalto.

Programas sociais não rendem o retorno político esperado

No Planalto, a avaliação é que os gastos sociais recordes não se convertem em popularidade. Desde 2023, o governo consolida o Bolsa Família em R$ 600 e cria um adicional de R$ 150 por criança de até seis anos para famílias beneficiárias. Em 2024, lança o Pé-de-Meia, que paga R$ 200 mensais a estudantes pobres do ensino médio para combater a evasão. A isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000 por mês começa a valer neste período, mas tem efeito modesto na percepção do eleitor.

As pesquisas mais recentes mostram Lula e Flávio Bolsonaro empatados em intenções de voto para um eventual segundo turno. A fotografia numérica reforça a sensação de que a recuperação de marcas do primeiro e segundo mandatos, como o foco em transferência de renda, não basta para criar uma nova onda de apoio. Dentro do PT, dirigentes admitem frustração com os “dividendos de popularidade” dos programas, apesar da ampliação de benefícios e do aumento da despesa social.

Novas bandeiras: jornada menor, segurança e soberania

Diante do impasse, Lula manda sua equipe montar um cardápio atualizado de propostas para um quarto mandato. A redução da jornada de trabalho se torna a aposta mais visível. O governo quer aprovar no Congresso, ainda antes da eleição, o fim da escala 6×1, em que o trabalhador labora seis dias para folgar um. A meta é transformar a mudança em marca de gestão, numa tentativa de dialogar com a base sindical e com trabalhadores exaustos por longas jornadas e deslocamentos diários.

Na segurança pública, tema que tende a dominar a campanha, o Planalto insiste em uma proposta de emenda à Constituição que reorganiza as atribuições de União, estados e municípios. O texto está parado há mais de um ano no Congresso. Lula condiciona a criação de um Ministério da Segurança Pública, promessa feita em 2022, à aprovação da PEC. Sem avanço legislativo, o presidente segue apenas com o discurso, enquanto adversários exploram o aumento da sensação de insegurança em grandes cidades.

No plano externo, Lula tenta reciclar o discurso de soberania para contrastar sua posição com o alinhamento de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos. A equipe presidencial enxerga aí uma oportunidade de associar o adversário à imagem de Donald Trump, mal avaliado por parte expressiva do eleitorado brasileiro. No segundo semestre de 2025, esse discurso rende a melhor fase de popularidade do mandato, em meio à reação ao aumento de tarifas americanas sobre produtos nacionais.

Tecnologia, dívida e disputas internas no centro da campanha

Dentro do PT, um grupo coordenado por Cristiano Silveira trabalha em diretrizes de governo com foco em desenvolvimento tecnológico. A ideia é reduzir a dependência de softwares, plataformas e equipamentos estrangeiros e transformar o tema em eixo estruturante da campanha. O ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli assume a tarefa de consolidar o programa, misturando propostas do PT e de partidos aliados. Ao lado do presidente do PT, Edinho Silva, e do ex-prefeito de Diadema José de Filippi Jr., ele integra o núcleo duro da pré-campanha.

O governo, porém, coleciona frustrações em áreas que poderiam compor esse novo discurso. A tentativa de regulamentar o trabalho por aplicativos fracassa após meses de negociação com empresas, motoristas e entregadores. O projeto é engavetado, retirando da vitrine uma das promessas mais populares junto a trabalhadores de baixa renda. No combate à violência contra mulheres, Lula intensifica pronunciamentos e ações pontuais, tentando recuperar espaço num eleitorado feminino decisivo em 2022.

Campanha busca reorganizar narrativa em meio a incertezas

À medida que o calendário eleitoral avança, o Planalto corre contra o tempo para transformar testes de discurso em uma mensagem coerente. A combinação entre promessas clássicas, como fortalecimento do Bolsa Família, e novas bandeiras, como jornada menor, soberania tecnológica e reestruturação da segurança pública, ainda não forma um enredo único. A crise no Congresso adiciona um elemento de risco, ao reduzir a capacidade do governo de entregar o que anuncia em rede nacional.

A campanha de Lula tenta agora responder a uma dúvida central do eleitor: até que ponto o presidente consegue mudar a vida das pessoas em meio a um Congresso hostil e alianças em xeque? A forma como ele equilibra concessões políticas, novas propostas e fidelidade às marcas históricas do PT vai definir se o novo mote em teste será suficiente para garantir um quarto mandato ou se ficará apenas como registro de uma tentativa em meio à maior pressão parlamentar de sua trajetória recente.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *