Polvos gigantes de 19 m eram predadores de topo no mar do Cretáceo
Polvos gigantes com até 19 metros de comprimento atuam como predadores de topo nos mares do Cretáceo, revela estudo publicado em 2026 na revista Science. A pesquisa, liderada pelo japonês Yasuhiro Iba, redesenha a cadeia alimentar de um oceano até aqui atribuído a répteis marinhos e tubarões. Fósseis raríssimos encontrados no Japão, Canadá e China sustentam a revisão.
Mandíbulas de pedra em mares dominados por dinossauros
O trabalho liderado por Iba, professor associado de ciências da Terra e planetárias na Universidade de Hokkaido, analisa fósseis datados de 100 milhões a 72 milhões de anos. Nesse intervalo, enquanto dinossauros como Tyrannosaurus rex, triceratops e velociraptor dominam os continentes, um outro tipo de gigante patrulha o fundo do mar: os polvos do gênero extinto Nanaimoteuthis.
Os pesquisadores chegam a esses animais a partir de um dos poucos elementos que resistem ao tempo em corpos tão moles: as mandíbulas. A equipe reexamina 15 fósseis de bicos gigantes descobertos no Japão e na Ilha de Vancouver, no Canadá, e encontra mais 12 mandíbulas incrustadas em rochas sedimentares do Cretáceo. São peças que passam despercebidas em coletas anteriores e só emergem com o que Iba chama de “mineração digital de fósseis”.
As amostras são submetidas a tomografia de moagem, uma técnica de imagem 3D que fatia digitalmente a rocha e reconstrói, camada a camada, a estrutura interna. Um modelo de inteligência artificial treina nos dados e ajuda a separar, com precisão de laboratório, o que é fóssil e o que é matriz de pedra. O resultado são modelos tridimensionais de alta resolução das mandíbulas, com marcas de desgaste tão nítidas que permitem inferir a dieta de animais extintos há dezenas de milhões de anos.
“Ficamos surpresos. O registro fóssil de polvos é extremamente limitado, então encontrar animais tão grandes e ecologicamente importantes no oceano Cretáceo superou nossas expectativas”, diz Iba à CNN, ao comentar a descoberta. O grupo estima o tamanho total dos bichos ao extrapolar o comprimento dos bicos, numa relação comparável à usada hoje para inferir o porte de lulas e polvos modernos.
Predadores inteligentes em um oceano mais complexo
Os resultados indicam que os Nanaimoteuthis medem entre 7 e 19 metros do topo da cabeça à ponta dos braços, rivalizando em comprimento com grandes répteis marinhos. As mandíbulas exibem sinais de intenso desgaste, compatível com a trituração de presas duras, como conchas espessas e ossos de peixes de grande porte. Em várias peças, o desgaste é assimétrico, concentrado em um lado do bico.
Essa assimetria chama a atenção dos pesquisadores. Para Iba e colegas, o padrão sugere um comportamento de manipulação sofisticado, possivelmente ligado a estratégias de caça e manuseio das presas. “Dentro desse ecossistema, o Nanaimoteuthis provavelmente usa seu corpo grande e braços longos para capturar presas e suas mandíbulas poderosas para processar alimentos duros”, afirma o paleontólogo. “Assim como os polvos modernos, ele pode depender da inteligência para encontrar, capturar e consumir suas presas.”
A hipótese de que esses polvos ocupam o topo da cadeia alimentar vai além da força da mandíbula. Até agora, paleontólogos assumem que os grandes predadores marinhos do Cretáceo são quase exclusivamente vertebrados: répteis marinhos, tubarões e grandes peixes. O novo estudo coloca um invertebrado gigante, com corpo mole, nessa disputa. “Isso indica que os ecossistemas marinhos do Cretáceo eram mais complexos e incluíam uma gama mais ampla de predadores de topo do que se pensava anteriormente”, diz Iba.
O trabalho recebe elogios e ressalvas de especialistas que não participam da pesquisa. Tim Coulson, professor de zoologia na Universidade de Oxford, classifica o artigo como “convincente e empolgante”. Para ele, o tamanho dos animais e o tipo de desgaste nos bicos apontam para uma dieta baseada em grandes presas. “Esses animais provavelmente se alimentam de outros animais e podem triturar ossos de peixes grandes e possivelmente de répteis marinhos, além de conchas. Seu tamanho sugere que eram predadores de topo, situados no topo da cadeia alimentar”, afirma.
Jakob Vinther, professor associado de macroevolução na Universidade de Bristol, considera a descoberta “bastante surpreendente”, mas pede cautela. Ele argumenta que os fósseis não provam, de forma definitiva, que o Nanaimoteuthis caça e consome sistematicamente os maiores répteis marinhos com os quais compartilha o oceano. “A questão é se faria sentido um animal como esse abater uma presa tão grande”, diz Vinther. Segundo ele, polvos podem suprir suas necessidades energéticas com presas menores, mesmo quando têm porte colossal.
Revolução digital na paleontologia marinha
A discussão sobre o quão alto esses polvos se acomodam na cadeia alimentar não reduz o impacto metodológico do estudo. Ao combinar tomografia 3D e modelos de IA em 27 mandíbulas, a equipe de Iba abre uma nova frente de investigação em depósitos fósseis já conhecidos. Em vez de depender só de esqueletos espetaculares, paleontólogos passam a extrair informações cruciais de pequenos fragmentos mineralizados, muitas vezes descartados como detritos de rocha.
O próprio Iba vê nessa abordagem uma forma de trazer à luz o que chama de “atores ocultos” dos ecossistemas antigos. “Nosso objetivo é revelar os atores ocultos dos ecossistemas antigos e construir uma imagem muito mais completa de como os ecossistemas do passado realmente funcionavam”, afirma. Ao mapear mandíbulas, placas, dentes e outras estruturas menos vistosas, pesquisadores conseguem reconstituir a teia alimentar com mais nuances, incluindo predadores intermediários e especialistas em nichos específicos.
Essa mudança tem consequências diretas para a história evolutiva dos cefalópodes, grupo que inclui polvos, lulas e sépias. O estudo mostra que os Nanaimoteuthis estão entre os primeiros polvos com nadadeiras registradas cientificamente, com estruturas em forma de remo na cabeça que ajudam na natação. A combinação de grande porte, mobilidade eficiente e provável inteligência coloca esses animais como precursores de estratégias de caça vistas hoje em polvos modernos, ainda que em escala muito menor.
Para a paleontologia marinha, o caso funciona como prova de conceito. Se mandíbulas de polvos de 100 milhões de anos emergem de rochas analisadas com novas ferramentas digitais, outros grupos de organismos pouco representados no registro fóssil podem seguir o mesmo caminho. Invertebrados gigantes, pequenos peixes de corpo mole e até formas juvenis de répteis marinhos podem estar escondidos em acervos de museus e afloramentos já escavados.
Vinther lembra que parte das conclusões sobre comportamento segue no campo das hipóteses, por melhor que sejam as evidências. “Os autores argumentam que os padrões assimétricos de desgaste nas mandíbulas dos polvos apontam para evidências de inteligência”, diz. “Embora plausível, não é possível afirmar com certeza o quão inteligentes esses animais eram.” A lacuna abre espaço para estudos que cruzem dados de fósseis, biologia de polvos atuais e modelos de simulação ecológica.
O que ainda falta saber sobre os gigantes do Cretáceo
A partir deste estudo, o desafio é testar até onde vai o papel de predador de topo atribuído aos Nanaimoteuthis. Novas escavações em camadas do Cretáceo no Japão, no Canadá e na China, onde já aparecem as mandíbulas, tendem a buscar agora ossos e conchas com marcas compatíveis com a mordida desses polvos. A combinação de análise microscópica de microfraturas em ossos, química de isótopos e modelagem de redes alimentares pode ajudar a quantificar com mais precisão a posição desses animais na cadeia.
Iba pretende ampliar o uso da mineração digital de fósseis em acervos existentes, em vez de depender apenas de novas coletas em campo, que são caras e demoradas. A expectativa é que, ao longo da próxima década, esse tipo de varredura revele uma fauna marinha mais diversa e interligada do que a imagem dominada por grandes vertebrados que os livros didáticos ainda apresentam. Para os polvos, a aposta é que outros parentes gigantes dos Nanaimoteuthis apareçam em rochas de diferentes continentes.
O estudo deixa aberta uma pergunta central: até que ponto esses polvos gigantes mudam a forma como se entende o equilíbrio de poder nos mares do Cretáceo? A resposta depende de novos fósseis, mais análises digitais e, em última instância, da capacidade da ciência de enxergar predadores formidáveis onde, por mais de um século, se via apenas pedra sem importância.
