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Polícia fecha fazenda de criptomoedas ligada ao Comando Vermelho

A Polícia Civil desarticula nesta sexta-feira (22) uma fazenda clandestina de mineração de criptomoedas ligada ao Comando Vermelho e prende 10 suspeitos no Rio e no Piauí. O grupo é acusado de golpes bancários milionários com a fraude conhecida como “Falsa Central Telefônica”. A operação mira uma das principais fontes de dinheiro do crime organizado no país.

Golpe sofisticado usa telefone e criptomoedas

As prisões ocorrem em uma comunidade do Rio de Janeiro e em cidades do Piauí, em cumprimento a mandados judiciais obtidos após meses de investigação. As equipes cercam imóveis usados pela quadrilha, apreendem computadores, celulares, máquinas de mineração, armas, drogas e veículos roubados. Em um dos endereços, os agentes encontram uma sala inteira tomada por equipamentos de alta potência, ligados sem autorização à rede elétrica, montando o que os investigadores chamam de “fazenda de mineração”.

O grupo é apontado como braço financeiro do Comando Vermelho especializado em enganar clientes de bancos por telefone. Os criminosos se passam por funcionários de setores de segurança das instituições e ligam para as vítimas com informações precisas sobre contas e cartões. Depois de relatar um suposto “comprometimento” da conta, orientam a pessoa a desligar a chamada e ligar para uma central de atendimento, que na prática é controlada pela própria quadrilha.

Quando a vítima disca o número indicado, cai em um call center clandestino, montado para imitar o atendimento oficial do banco. A partir daí, os golpistas pedem senhas, códigos de verificação e acesso a aplicativos. Com esse material em mãos, assumem o controle das contas e promovem transferências, pagamentos de boletos e compras em poucos minutos. As transações seguem em sequência até que a instituição financeira bloqueia os movimentos ou a vítima percebe a fraude.

Mineração ilegal reforça caixa do crime organizado

A investigação aponta que parte do dinheiro desviado por meio da “Falsa Central Telefônica” é lavado com o apoio da fazenda de criptomoedas. A estrutura funciona com dezenas de computadores especializados que rodam cálculos complexos sem parar. Esse processo, conhecido como mineração, valida transações em redes como o blockchain e, em troca, remunera os operadores com moedas digitais que passam a circular no mercado.

Na prática, a quadrilha converte recursos de origem criminosa em criptomoedas, que podem ser fracionadas, enviadas para carteiras anônimas no exterior e trocadas de volta por reais. A pulverização das movimentações dificulta o rastreamento por bancos e órgãos de controle. “Os mineradores funcionam como validadores de informação em uma rede sem banco central; aqui, essa lógica é sequestrada para lavar dinheiro”, explica, em referência ao modelo, o economista e professor Alan de Genaro, da FGV.

O esquema chama a atenção por mesclar um golpe antigo, baseado em engenharia social por telefone, com ferramentas típicas do universo digital mais recente. Investigadores afirmam que a combinação entre call centers clandestinos, aplicativos bancários e mineração de criptomoedas cria uma cadeia quase industrial de produção e ocultação de dinheiro. A fazenda descoberta hoje, segundo a polícia, opera em regime 24 horas por dia, com consumo de energia suficiente para abastecer dezenas de residências.

A operação é conduzida pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco) e pela 26ª DP (Todos os Santos), com apoio de unidades especiais como a Core e departamentos-gerais da capital, Baixada, interior e divisões especializadas. As equipes cumprem mandados de prisão e de busca e apreensão em endereços ligados a integrantes do Comando Vermelho. O objetivo é recolher documentos, mídias digitais e ativos financeiros que permitam identificar outros envolvidos e dimensionar o prejuízo às vítimas.

Cooperação entre estados e pressão sobre o Comando Vermelho

A investigação nasce no Rio, mas logo ultrapassa as fronteiras do estado. A análise de transações suspeitas e de registros telefônicos conduz os policiais até comparsas no Piauí, onde parte do atendimento falso e do suporte tecnológico ocorre. A partir daí, as polícias civis dos dois estados montam uma força-tarefa. Delegados relatam que o intercâmbio de dados bancários, relatórios de inteligência e informações de campo acelera a identificação do núcleo financeiro do grupo.

O foco recai sobre a estrutura que abastece o caixa do Comando Vermelho, organização que há décadas domina o tráfico em áreas do Rio e amplia influência em outros estados. Ao atingir a fazenda de criptomoedas e o golpe telefônico, a operação mira o dinheiro que sustenta armas, drogas e a própria expansão da facção. “Cada real recuperado aqui deixa de financiar fuzis, munição e novas fraudes”, afirma um investigador envolvido na apuração.

Os 10 presos respondem, em tese, por associação criminosa, estelionato, lavagem de dinheiro e crimes relacionados ao tráfico e ao porte ilegal de armas. A polícia não divulga valores exatos, mas fala em movimentações que chegam a milhões de reais ao longo dos últimos meses. Documentos apreendidos podem revelar quantas pessoas caem no golpe em diferentes estados e quais bancos são mais atingidos pelas fraudes.

Próximos passos e disputas no ambiente digital

Os investigadores ainda passam os equipamentos apreendidos por perícia detalhada. Peritos analisam discos rígidos, celulares, pen drives e carteiras digitais em busca de senhas, endereços de criptomoedas e registros de movimentações. A expectativa é rastrear fluxos financeiros, localizar contas no exterior e congelar ativos antes que sejam transferidos novamente. Parte desse material deve alimentar novos inquéritos e pedidos de prisão contra suspeitos que ainda não foram localizados.

A operação pressiona o Comando Vermelho e envia um recado para outras facções e grupos especializados em crimes virtuais: o ambiente digital não é um refúgio absoluto. A resposta das quadrilhas, porém, tende a ser rápida, com migração para novas tecnologias, serviços de criptografia mais opacos e golpes ainda mais segmentados. A velocidade dessa corrida entre polícia e criminosos define quanto dinheiro ilegal seguirá circulando em redes invisíveis para a maioria dos clientes bancários.

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