Pessoas com maior criatividade artística podem ter mais problemas de saúde mental, diz estudo
Pesquisa com mais de 14 mil gêmeos na Suécia encontrou associação com depressão, ansiedade e sintomas psicóticos; cientistas ressaltam que criatividade não causa transtornos mentais.

Pessoas com maior criatividade artística podem apresentar mais problemas de saúde mental, segundo um estudo internacional publicado na revista científica Molecular Psychiatry, em 8 de outubro de 2026. A pesquisa analisou dados de 14.658 gêmeos na Suécia e encontrou associações entre criatividade nas artes e condições como depressão, ansiedade e propensão a sintomas psicóticos. Os resultados, porém, não significam que ser criativo provoque doenças psiquiátricas.
O levantamento foi conduzido por pesquisadores do Instituto Max Planck de Estética Empírica, na Alemanha, e do Instituto Karolinska, na Suécia. Os cientistas investigaram diferentes manifestações da criatividade, incluindo música, escrita, dança, teatro, artes visuais, ciência e invenção. Uma das principais descobertas foi que a relação com a saúde mental varia conforme o tipo de criatividade: enquanto as atividades artísticas apresentaram associações com mais dificuldades psicológicas, o mesmo padrão não foi observado na criatividade científica.
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O que o estudo descobriu sobre criatividade e saúde mental?
Os pesquisadores procuraram entender uma relação que intriga a ciência há décadas: por que algumas pesquisas identificam maior frequência de transtornos psiquiátricos entre pessoas envolvidas com atividades artísticas, enquanto outras não encontram essa associação?
Para investigar a questão, os cientistas utilizaram informações de gêmeos suecos acompanhados em diferentes momentos. O estudo reuniu dados sobre conquistas criativas, atividades profissionais, características de personalidade e saúde mental.
A criatividade foi avaliada de diferentes maneiras. Os pesquisadores consideraram realizações nas artes e nas ciências, ocupações profissionais e características como abertura a novas experiências.
Já a saúde mental foi analisada a partir de questionários respondidos pelos participantes e de diagnósticos registrados em sistemas de saúde.
Os resultados mostraram que pessoas com maiores realizações artísticas e níveis elevados de abertura a experiências apresentavam, em determinadas análises, mais sintomas depressivos, ansiedade e indicadores relacionados à propensão a experiências psicóticas.
Esses indicadores não significam necessariamente a presença de um transtorno psiquiátrico diagnosticado.
Além disso, as associações variaram conforme a medida de criatividade e o problema de saúde mental considerado.
Criatividade científica apresentou resultados diferentes
Uma das descobertas mais importantes foi a diferença entre criatividade artística e científica.
Enquanto algumas medidas de criatividade artística estavam associadas a maior frequência de dificuldades psicológicas, a criatividade científica apresentou resultados predominantemente sem associação estatisticamente significativa.
Em determinadas análises, especialmente aquelas relacionadas à criatividade no trabalho, foram identificadas associações com menos problemas de saúde mental.
Essa diferença ajuda a explicar por que estudos anteriores chegaram a conclusões aparentemente contraditórias.
Ao analisar todas as formas de criatividade como uma característica única, os pesquisadores podem deixar de identificar particularidades importantes de cada atividade.
Produzir uma pintura, escrever uma música, desenvolver uma descoberta científica e solucionar um problema técnico são manifestações diferentes da capacidade criativa.
Por isso, os autores defendem que futuras pesquisas considerem essas diferenças ao investigar a relação entre criatividade e saúde mental.
Por que os pesquisadores analisaram gêmeos?
A utilização de gêmeos foi uma das principais características da pesquisa.
Gêmeos idênticos compartilham praticamente todo o material genético e, em muitos casos, crescem em ambientes familiares semelhantes.
Ao comparar essas pessoas, os cientistas conseguem avaliar se determinadas associações permanecem mesmo quando parte das influências genéticas e familiares é controlada.
No estudo, os pesquisadores também utilizaram informações genéticas de uma parcela dos participantes para investigar características hereditárias associadas à criatividade e à saúde mental.
Os resultados sugeriram que fatores genéticos compartilhados desempenham um papel importante na relação observada entre criatividade artística e determinados problemas psicológicos.
Isso significa que algumas influências genéticas podem estar associadas tanto a características criativas quanto à predisposição a determinadas condições de saúde mental.
Entretanto, os autores ressaltam que a genética não explica necessariamente toda a associação.
Fatores ambientais, experiências individuais e condições de vida também podem influenciar os resultados e precisam ser investigados.
Depressão pode estar relacionada à abertura para novas experiências
Outro resultado chamou a atenção dos pesquisadores.
A análise longitudinal identificou que sintomas depressivos registrados em um primeiro momento estavam associados a maior abertura a experiências aproximadamente dez anos depois.
Essa característica de personalidade envolve curiosidade, interesse por novas ideias, imaginação e disposição para explorar experiências diferentes.
A associação permaneceu mesmo em comparações entre gêmeos idênticos, o que levou os cientistas a considerar a possibilidade de uma relação causal.
No entanto, os próprios autores destacam que a hipótese ainda precisa ser confirmada por novos estudos.
Uma das explicações possíveis é que pessoas que enfrentam sintomas depressivos busquem atividades criativas como forma de lidar com suas emoções.
Outra possibilidade é que determinadas experiências psicológicas estejam relacionadas a processos de reflexão e introspecção.
Essas interpretações são hipóteses científicas e não significam que a depressão aumente necessariamente a criatividade.
Também não existe recomendação médica de que o sofrimento psicológico seja necessário ou benéfico para o desenvolvimento artístico.
Ser artista aumenta o risco de desenvolver transtornos mentais?
O estudo não permite concluir que trabalhar com arte ou desenvolver habilidades criativas provoque doenças psiquiátricas.
Os pesquisadores identificaram associações estatísticas, mas muitas delas perderam força quando foram considerados fatores genéticos e familiares.
Esse resultado sugere que a relação é mais complexa do que uma simples sequência em que a criatividade provoca problemas de saúde mental.
Também não é correto afirmar que pessoas criativas necessariamente apresentam maior risco individual de adoecimento.
A pesquisa avaliou tendências observadas entre grupos, e os resultados não podem ser utilizados para diagnosticar artistas ou prever a saúde mental de uma pessoa.
Outra limitação envolve a população estudada. Os dados foram obtidos na Suécia, e os resultados podem não se repetir da mesma maneira em países com características sociais, culturais e econômicas diferentes.
Além disso, algumas condições psiquiátricas apresentaram poucos casos em determinados grupos, dificultando análises mais detalhadas.
Atividades artísticas também podem trazer benefícios emocionais
A associação encontrada entre criatividade artística e dificuldades psicológicas não significa que atividades como música, pintura, dança e escrita sejam prejudiciais à saúde mental.
Outras pesquisas investigam justamente os possíveis benefícios da participação em atividades artísticas para o bem-estar emocional.
Uma revisão científica publicada em março de 2026 na revista Nature Reviews Psychology discutiu diferentes mecanismos pelos quais o envolvimento com a arte pode influenciar a saúde mental.
Entre os aspectos investigados estão expressão emocional, interação social, aprendizagem, regulação das emoções e experiências de pertencimento.
É importante diferenciar a capacidade criativa de uma pessoa dos efeitos de participar de atividades artísticas.
O estudo com gêmeos investigou principalmente características e realizações criativas, enquanto pesquisas sobre intervenções artísticas avaliam como determinadas experiências podem contribuir para o bem-estar.
Assim, os dois campos de investigação não são necessariamente contraditórios.
Uma pessoa pode apresentar características criativas associadas a determinadas vulnerabilidades psicológicas e, ao mesmo tempo, encontrar benefícios emocionais na prática de atividades artísticas.
O que os resultados significam para a saúde mental?
A pesquisa amplia o conhecimento sobre possíveis relações entre personalidade, criatividade, genética e transtornos psiquiátricos.
Entretanto, os resultados não devem reforçar a ideia de que sofrimento psicológico é uma condição necessária para produzir arte.
A criatividade pode se manifestar em pessoas com diferentes condições de saúde e não depende da presença de depressão, ansiedade ou qualquer outro transtorno.
Da mesma forma, pessoas que enfrentam dificuldades emocionais podem desenvolver atividades criativas sem que isso substitua o acompanhamento profissional quando necessário.
Sintomas persistentes de tristeza, ansiedade intensa, alterações importantes do sono ou prejuízos na rotina merecem avaliação de um profissional de saúde, independentemente da profissão ou das habilidades criativas da pessoa.
Próximos passos
Os autores defendem a realização de novas pesquisas para compreender melhor como fatores genéticos e ambientais influenciam a relação entre criatividade e saúde mental.
Também será importante investigar outras populações e acompanhar participantes durante períodos mais longos para avaliar como essas características se desenvolvem ao longo da vida.
O estudo representa um avanço na compreensão de uma relação complexa, mas não estabelece que a criatividade artística seja causa de transtornos psiquiátricos.
A principal conclusão é que diferentes formas de criatividade apresentam relações distintas com a saúde mental e que fatores hereditários parecem contribuir para parte das associações identificadas.


