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Paulinho volta ao Palmeiras após 302 dias e muda cenário no ataque

Paulinho volta a jogar pelo Palmeiras após 302 dias afastado por lesão e cirurgia na tíbia. O camisa 10 entra no segundo tempo do clássico contra o Santos, neste sábado (2), no Allianz Parque, e recoloca seu nome no radar do time para a sequência do Campeonato Brasileiro.

Reestreia em clássico e alívio após a travessia

A cena se desenha aos 29 minutos do segundo tempo. O placar marca 1 a 1, o Allianz Parque pressiona, e Abel Ferreira chama Paulinho. O atacante entra no lugar de Maurício, cruza o gramado em passos curtos, recebe o abraço dos companheiros e ouve o estádio inteiro se levantar para aplaudir um retorno que pareceu, por meses, incerto.

O Palmeiras vive um momento de reconstrução ofensiva no Brasileiro, e a volta do camisa 10 não é apenas simbólica. Em pouco mais de 15 minutos em campo, Paulinho participa da articulação pelo lado esquerdo, busca o jogo por dentro e quase vira herói. Em finalização na entrada da pequena área, ele supera a marcação, ajeita o corpo e bate cruzado. A bola passa rente à trave de Gabriel Brazão e prolonga a espera pelo primeiro gol depois da lesão. O empate por 1 a 1, com gols de Rollheiser e Flaco López, deixa a sensação de oportunidade desperdiçada, mas também de recomeço.

Ao deixar o gramado, o atacante fala em alívio e em sobrevivência. “Claro que é um dia emocionante para mim, marcando minha volta aos jogos depois de um momento muito difícil. Nove meses de muita luta, muita resiliência, em que precisei buscar apoio, ajudas, de todas as maneiras, tanto física quanto mental”, diz. Ele faz questão de dividir a noite com quem segurou a barra fora de campo. “Quero agradecer ao grupo e ao estafe por me deixarem pertencer ao grupo, porque é complicado quando fico fora. Consegui jogar o Mundial, mas não cheguei a estar no dia a dia com o grupo como atleta normal, e me ajudaram muito”.

Da sala de cirurgia ao gramado: a reconstrução do camisa 10

A reestreia deste sábado fecha um ciclo aberto em 4 de julho de 2025, nas quartas de final do Mundial de Clubes da Fifa. Naquele dia, Paulinho entra no segundo tempo da derrota para o Chelsea, em uma participação discreta que já carrega sinais do que viria. Pouco depois do torneio, exames detectam uma fratura por estresse na tíbia da perna direita, sequência de um desgaste acumulado e da carga de jogos desde a chegada ao Palmeiras.

O clube decide por uma nova cirurgia e, a partir dali, passa a tratar o caso com máxima cautela. A comissão técnica sabe que lida com um investimento alto e com um jogador que, em forma, altera o nível do ataque. O Palmeiras paga 18 milhões de euros, cerca de R$ 115 milhões à época, ao Atlético, além de ceder dois atletas ao clube mineiro. A conta só fecha esportivamente se o camisa 10 estiver em campo, em sequência. Por isso, não há pressa.

Paulinho passa meses entre fisioterapia, reforço muscular e trabalhos controlados com bola. O retorno aos treinos com o elenco ocorre há cerca de dois meses, mas sem qualquer risco de atalho. O departamento físico monta um programa de recondicionamento específico, com controle minucioso de carga. Ele participa de jogos-treino internos, aumenta gradualmente o tempo em campo, responde bem e, só então, volta a ser opção para a 14ª rodada do Brasileiro.

Nesse período, o atacante acompanha de fora os altos e baixos do time. Vê o Palmeiras testar formações, buscar alternativas para compensar sua ausência e ajustar a circulação de bola no terço final do campo. Em 17 jogos com a camisa alviverde, ele soma três gols e duas assistências. Os números ainda não justificam o tamanho da compra, mas a diretoria insiste na ideia de que o investimento é de longo prazo, pensado para anos, não para uma única temporada.

O próprio Paulinho demonstra entender que a volta não zera o relógio de pressões, apenas muda o tipo de cobrança. “O mês de maio será importante para mim, a parada do campo, para dar uma desinflamada no corpo. Quero voltar aos 100% para ajudar o Palmeiras, fazer gols, dar títulos, porque o Palmeiras merece”, afirma. Ele fala em dor controlada, em escuta ao corpo e em respeito aos limites, ao mesmo tempo em que se oferece para o jogo pesado. “Jogo competitivo, clássico, bom jogar esses jogos, ainda mais em uma volta. Agora é recuperar e focar no próximo, porque temos muito pela frente”.

Impacto imediato e novas cartas na mão de Abel Ferreira

A presença do camisa 10 muda o desenho de opções ofensivas de Abel. Com Paulinho disponível, o treinador pode recompor o plano original de ter um atacante capaz de atacar profundidade, mas também de se associar entre linhas, funcionando quase como um segundo meia em alguns momentos. Esse perfil abre espaço para variações com dois homens mais próximos de Flaco López ou para um trio móvel que inclui Maurício e um ponta de velocidade.

O retorno também mexe com o vestiário. Jogadores que assumem protagonismo na ausência de Paulinho ganham concorrência direta. A disputa por posição tende a se acirrar, especialmente entre quem atua pelos lados do ataque. Para a diretoria, a volta permite projetar uma temporada mais condizente com o peso financeiro do negócio. Em um mercado em que atacantes acima da média superam com facilidade a casa dos 10 milhões de euros, um reforço interno do porte de Paulinho tem efeito similar ao de uma grande contratação.

A torcida, que acompanha a novela da recuperação desde a confirmação da fratura, encontra no clássico um primeiro sinal concreto de que a espera valeu. A reação nas arquibancadas à entrada do jogador mostra o tamanho da expectativa. O chute que passa raspando a trave alimenta a sensação de que o gol está próximo e de que o Palmeiras ganha, enfim, um protagonista pronto para decidir jogos grandes no Brasileiro.

Nos bastidores, a comissão técnica trata o caso como exemplo da importância de respeitar o tempo de uma lesão complexa. A fratura por estresse na tíbia não aceita improviso. Qualquer precipitação pode significar nova cirurgia e um afastamento ainda maior. O cuidado com as etapas de recuperação vira argumento em reuniões internas sobre gestão de elenco, minutos em campo e controle de carga para outros atletas em situação semelhante.

Um mês para ganhar corpo e retomar protagonismo

O calendário oferece a Paulinho um roteiro claro. Maio se torna o mês para transformar minutos em ritmo, ritmo em confiança e confiança em números. A parada prevista no calendário nacional, que alivia a sequência de jogos em gramados pesados, aparece como oportunidade para ajustar detalhes físicos sem a pressão de atuar a cada três dias.

O Palmeiras projeta aumentar gradualmente o tempo do atacante em campo nas próximas rodadas, sempre a partir de respostas clínicas e físicas. A ideia é que ele alcance algo próximo de 100% após esse ciclo, pronto para suportar a maratona do segundo semestre, quando decisões do Brasileiro e de mata-matas costumam se concentrar. A dimensão exata do impacto de Paulinho ainda depende do que ele entrega em gols, assistências e presença constante. O retorno, porém, já altera o humor no Allianz Parque e reabre uma pergunta que parecia suspensa desde julho passado: com seu camisa 10 de volta, até onde este Palmeiras pode ir na temporada?

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