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Pai de Henry confronta réus em júri e diz que deixou de ver Monique como mãe zelosa

O pai de Henry Borel, Leniel Borel, presta depoimento emocionado no fim da tarde desta sexta-feira (29) no júri popular que julga a morte do menino, no Rio de Janeiro. Ele é a 13ª e última testemunha de acusação no processo que tem como réus o ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, e a mãe da criança, Monique Medeiros, acusados de homicídio triplamente qualificado, tortura, coação no curso do processo e fraude processual.

Depoimento muda o clima do tribunal

O plenário acompanha em silêncio o relato de Leniel sobre o último fim de semana com o filho, morto aos 4 anos em março de 2021. O depoimento marca o quinto dia do júri, iniciado na segunda-feira e previsto para durar entre sete e dez dias, com a oitiva de 27 testemunhas ao todo.

O pai descreve um domingo aparentemente comum, entre brincadeiras e rotina familiar, interrompido pela lembrança do momento em que entrega a criança de volta à mãe. “Foi maravilhoso, se não fosse tão trágico”, afirma. A frase ecoa entre os presentes e explicita a ruptura entre lembrança afetiva e desfecho violento, que o tribunal tenta reconstituir minuto a minuto.

Leniel conta que a separação de Monique ocorre cerca de seis meses antes da morte do menino. Nesse período, a professora passa a viver com Jairinho em um apartamento na Zona Oeste do Rio. O relacionamento, que dura pouco mais de um mês e meio até a morte de Henry, se torna o centro da acusação, que atribui ao ex-vereador as agressões e a Monique a omissão para manter o vínculo com o então parlamentar.

O pai lembra a cena em que o menino resiste a deixar seu colo na hora da despedida, na noite de domingo. Ele tenta acalmar o filho. “Falei que a mamãe é uma mamãe boa”, relata Leniel. Segundo ele, Henry rebate na hora: “Disse que não era”. A resposta, que ganha novo peso diante das provas exibidas ao longo da semana, reforça a tensão no salão do júri.

A juíza Elizabeth Machado Louro, que preside o julgamento, intervém para lembrar que, no primeiro depoimento à polícia, Leniel descreve Monique como uma mãe zelosa. Confrontado, ele afirma que sua percepção muda após o acesso a conversas, laudos e relatos de familiares e pessoas próximas. Cita, entre outros, registros envolvendo a avó de Henry e uma prima, que chegam ao processo meses depois da morte do menino.

Momentos de tensão e desgaste emocional

O quinto dia de julgamento é marcado por sucessivas quebras na rotina do tribunal. Pouco antes do depoimento de Leniel, o ex-vereador Jairinho pede para deixar o plenário durante o testemunho do médico legista Luiz Airton Saavedra de Paiva, 12ª testemunha ouvida pelos jurados. Ele se retira quando são exibidos detalhes da necropsia de Henry, documento central para a acusação de agressões anteriores à morte.

Pela manhã, Monique Medeiros também passa mal ao assistir às imagens do exame cadavérico do filho. Amparada por agentes, a ré deixa a sala de audiências às pressas, sob autorização da juíza. O episódio expõe o desgaste físico e emocional acumulado ao longo de cinco dias de sessões que atravessam a madrugada em alguns momentos.

Os dois respondem por homicídio triplamente qualificado, crime que pode render penas superiores a 30 anos de prisão, além das acusações de tortura, coação de testemunhas e fraude para alterar a cena do crime. A acusação sustenta que Jairinho agride a criança dentro do apartamento, enquanto Monique teria conhecimento das agressões anteriores e opta por proteger o companheiro.

O caso ganha dimensão nacional desde 2021, quando denúncias de agressões anteriores, relatos de ex-enteadas e contradições em depoimentos começam a vir à tona. Entre as testemunhas já ouvidas em plenário, uma ex-enteada do ex-vereador relata episódios de afogamento e violência, que, segundo a Promotoria, indicam um padrão de conduta. A defesa tenta desqualificar esses relatos e sustenta que não há prova direta de que Jairinho tenha espancado Henry na noite da morte.

A dinâmica do júri exige que cada testemunha seja confrontada por acusação e defesa, com intervenções constantes da magistrada para conter excessos. O objetivo é permitir que os sete jurados, cidadãos sorteados para a função, reconstruam o que ocorreu entre a noite de 7 de março e a madrugada de 8 de março de 2021, quando o menino dá entrada já sem vida em um hospital na Barra da Tijuca.

Julgamento testa resposta do Estado à violência contra crianças

O julgamento de Jairinho e Monique se torna um termômetro da capacidade do sistema de Justiça em responder a crimes praticados contra crianças dentro da própria família. A morte de Henry, aos 4 anos, expõe lacunas na rede de proteção infantil, que depende de escolas, conselhos tutelares, unidades de saúde e vizinhos para identificar sinais de abuso e romper o silêncio doméstico.

O Ministério Público do Rio insiste que os laudos médicos, as conversas de celular apreendidas e os depoimentos colhidos ao longo de três anos mostram um ciclo de violência prévia. Os promotores afirmam que houve omissão deliberada da mãe e tentativas de interferir em testemunhas e versões, o que fundamenta também a acusação de coação no curso do processo e fraude processual.

Especialistas em direitos da infância ouvidos ao longo da investigação apontam que casos de violência repetida contra crianças quase nunca chegam à Justiça com tamanha visibilidade. A repercussão nacional do processo pressiona o Estado a revisar protocolos, inclusive de atendimento médico em emergências pediátricas, para evitar que sinais de maus-tratos passem despercebidos.

Se o Conselho de Sentença condenar os réus a penas superiores a 15 anos, a Justiça pode determinar a prisão imediata de Jairinho e Monique ainda no plenário. A decisão, esperada para os próximos dias, terá efeito simbólico sobre a forma como tribunais tratam crimes contra crianças, sobretudo quando envolvem agentes políticos e pessoas com trânsito em diferentes esferas de poder.

Próximos capítulos do júri e expectativa pela sentença

Com o fim do depoimento de Leniel, a fase de acusação se encerra e o julgamento entra em nova etapa. A partir deste sábado (30), começam a ser ouvidas as testemunhas de defesa, convocadas pelos advogados de Jairinho e Monique para sustentar teses alternativas para a morte de Henry e tentar afastar as imputações de tortura e homicídio qualificado.

O cronograma prevê até dez dias de sessões, mas a duração efetiva depende do ritmo dos depoimentos e de novos incidentes processuais. Depois da oitiva das 27 testemunhas, virão os interrogatórios dos réus, os debates orais entre acusação e defesa e, por fim, a votação secreta dos jurados. Até lá, permanece em aberto a pergunta que movimenta o caso desde 2021: de que forma o Estado brasileiro vai responder, na prática, à morte de uma criança de 4 anos dentro de casa.

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