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Operação mira fintechs e desvio de nafta em esquema bilionário de combustíveis

O Ministério Público de São Paulo deflagra, em maio de 2026, uma operação contra um esquema bilionário de combustíveis que envolve fintechs, empresas de fachada e fundos de investimento. A investigação mira o desvio de nafta petroquímica para adulterar gasolina e abastecer um mercado clandestino em vários estados. Órgãos de controle e forças de segurança estaduais e federais participam da ofensiva.

Rede criminosa usa fintechs e fundos para lavar dinheiro

A nova fase da apuração nasce no Gaeco, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público paulista, e se apoia em um cruzamento raro de bases de dados fiscais, bancárias e regulatórias. Procuradores, auditores da Receita Federal, técnicos da Agência Nacional do Petróleo e equipes da Secretaria da Fazenda de São Paulo reconstroem, ao longo de anos, o caminho do dinheiro que sai dos postos e termina em uma teia de empresas fictícias, fundos de investimento e instituições financeiras digitais.

As investigações apontam que organizações criminosas, entre elas facções com atuação em presídios paulistas, usam seis fintechs como uma espécie de “banco paralelo”. Essas empresas movimentam, segundo a Receita Federal, mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025. Em vez de circular pelo sistema financeiro tradicional, uma parte expressiva dos recursos do esquema passa por contas digitais de baixa supervisão, cartões pré-pagos e operações fracionadas, o que dificulta o rastreamento imediato dos beneficiários finais.

O dinheiro sujo não para nas fintechs. Quatro fundos de investimento entram na cadeia para dar aparência de legalidade ao patrimônio acumulado. Esses veículos, que reúnem quase R$ 205 milhões em ativos, operam como blindagem jurídica para imóveis, participações em empresas e aplicações financeiras. Na prática, os cotistas reais permanecem escondidos atrás de laranjas e estruturas societárias espalhadas por diferentes estados.

O núcleo fiscal da investigação calcula que, apenas em dois anos, a sonegação de tributos chega a R$ 200 milhões. O número não inclui o prejuízo mais amplo, somado à concorrência desleal e ao impacto ambiental de combustíveis adulterados. Procuradores descrevem o modelo como “uma engrenagem industrial de fraude tributária e lavagem de dinheiro”, que combina tecnologia financeira, engenharia societária e acesso a segmentos-chave da cadeia de combustíveis.

Nafta vira gasolina adulterada e corrói arrecadação

O ponto central do esquema é a nafta petroquímica, um derivado de petróleo mais barato, usado principalmente como matéria-prima da indústria química para produzir plásticos, solventes e outros insumos. No papel, empresas de fachada simulam compras regulares de nafta de grandes fornecedores do setor químico. Os contratos indicam suposto uso industrial controlado. Na prática, segundo o Gaeco, parte significativa das cargas segue para terminais de armazenamento de combustíveis na Grande São Paulo.

Nesses depósitos, a nafta é misturada, de forma clandestina, à gasolina automotiva. O objetivo é simples: reduzir o custo de produção do litro vendido aos postos ligados ao esquema e ampliar a margem de lucro. A diferença de tributação entre os produtos amplia o ganho ilícito. Enquanto a gasolina suporta carga de impostos mais pesada, a nafta, classificada como insumo industrial, paga menos tributos. Cada caminhão desviado representa, ao mesmo tempo, combustível adulterado nas bombas e menos dinheiro no caixa dos governos.

Os investigadores identificam ainda um padrão na escolha dos responsáveis formais pelas empresas envolvidas. Parentes próximos de integrantes da quadrilha, pessoas em situação de vulnerabilidade social e até presos em regime fechado aparecem como sócios-administradores. Essa estratégia fragmenta a responsabilidade penal e dificulta o trabalho de rastreamento de quem de fato controla as operações. Empresas são abertas em série em diferentes unidades da federação para simular rotas comerciais complexas e alongar o caminho do produto.

O efeito para o consumidor é imediato, ainda que pouco visível. Gasolina adulterada aumenta o risco de dano ao motor, eleva o consumo e potencializa a emissão de poluentes. O impacto para o mercado também é direto: postos que seguem a legislação enfrentam concorrência desleal de revendedores que compram combustível mais barato, turbinado pela mistura irregular de nafta. O resultado, segundo autoridades, é uma erosão prolongada da confiança na fiscalização e uma pressão adicional sobre a arrecadação em um setor que já responde por parcela relevante dos tributos arrecadados no país.

Mandados em vários estados e pressão por novo controle

A ofensiva atual atinge o momento mais visível da investigação. Ao todo, 59 mandados de busca e apreensão são cumpridos em São Paulo e em outros estados, com apoio de Gaecos do Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Paraná. Policiais militares e civis reforçam o efetivo em endereços ligados a terminais de armazenamento, escritórios de contabilidade, sedes de fintechs e residências de suspeitos. O objetivo imediato é apreender documentos, computadores e celulares que permitam detalhar as engrenagens financeiras do grupo.

Autoridades envolvidas no caso afirmam, sob reserva, que a investigação não se limita ao núcleo preso hoje. A expectativa é alcançar, nas próximas fases, executivos de alto escalão em empresas que aparecem como fornecedoras ou intermediárias da nafta, além de gestores profissionais ligados aos fundos de investimento. A vinculação de parte das operações ao PCC, apontada em etapas anteriores de apurações sobre o setor de combustíveis, coloca pressão extra sobre órgãos de controle financeiro e reguladores de fintechs.

O caso reacende o debate sobre a capacidade do Estado em acompanhar a velocidade da inovação no sistema financeiro. Plataformas digitais que facilitam pagamentos e acesso a crédito ampliam a inclusão financeira, mas também abrem novas brechas para estruturas criminosas sofisticadas. A previsão de procuradores e auditores é que o desdobramento natural da operação inclua regras mais rígidas de transparência para fundos de investimento, monitoramento reforçado de instituições de pagamento e exigência de rastreio mais fino sobre a circulação de derivados de petróleo sensíveis, como a própria nafta.

A partir de agora, a investigação entra em uma fase em que o dinheiro fala mais alto do que os caminhões. Planilhas, relatórios fiscais e extratos bancários vão orientar pedidos de bloqueio de bens, ações de cobrança de tributos e uma provável onda de denúncias formais à Justiça paulista e a tribunais de outros estados. A principal incógnita é se o avanço sobre o elo financeiro do esquema será suficiente para desidratar a participação de facções criminosas no mercado de combustíveis ou se a operação apenas revela a face mais visível de uma engrenagem que ainda se adapta para continuar operando nas sombras.

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