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OMS alerta: falta de verba ameaça controle do ebola no Congo

Organizações internacionais de saúde alertam, em maio de 2026, que a ajuda global para conter o surto de ebola na República Democrática do Congo é insuficiente. A falta de recursos ameaça o controle da doença e aumenta o risco de avanço para países vizinhos.

Corrida contra o tempo em meio a cofres vazios

Equipes médicas e agentes comunitários trabalham em ritmo máximo no leste do Congo, mas esbarram em um obstáculo menos visível que o vírus: o dinheiro que não chega. A OMS e outras agências calculam que, para os próximos três meses, seriam necessários pelo menos US$ 120 milhões para manter centros de tratamento, equipes de vigilância e campanhas de informação. Menos da metade desse valor, cerca de US$ 50 milhões, está efetivamente garantida até agora.

O novo surto é identificado no fim de março, em áreas próximas às fronteiras com Uganda e Ruanda, e desde então cresce de forma constante. Fontes ligadas às operações de campo estimam, de forma preliminar, mais de 800 casos suspeitos e confirmados e uma taxa de letalidade que se aproxima de 50%. Em comunidades rurais, famílias inteiras convivem com funerais improvisados e medo de deslocamento, enquanto postos de saúde relatam estoques de luvas, máscaras e medicamentos básicos suficientes apenas para poucas semanas.

Risco regional aumenta com falha na resposta global

Autoridades de saúde consideram que a janela para conter o surto dentro das fronteiras congolesas se estreita a cada dia. Em cidades fronteiriças, como Goma e Beni, o fluxo diário de pessoas ultrapassa 20 mil viajantes, muitos sem qualquer triagem sanitária. “Se não houver uma injeção rápida de recursos, veremos o vírus atravessar fronteiras por terra e ar”, afirma um epidemiologista ligado a uma agência da ONU, sob condição de anonimato.

Governos de países vizinhos reforçam postos de controle, mas também reclamam da falta de apoio financeiro. Em Kampala, capital de Uganda, um alto funcionário do Ministério da Saúde afirma que o orçamento emergencial liberado para vigilância de fronteiras cobre apenas 60 dias de operação intensificada. “Não é só um surto do Congo, é uma ameaça regional”, diz. A lembrança do surto de 2014 a 2016, que matou mais de 11 mil pessoas na África Ocidental e custou bilhões de dólares em perdas econômicas, volta a orientar as discussões internas em ministérios da região.

Pressão sobre sistemas frágeis e economia local

Hospitais congoleses, já sobrecarregados por malária, cólera e desnutrição, passam a destinar leitos e profissionais para alas de isolamento de ebola. Esse remanejamento reduz o atendimento para outros pacientes e alonga filas. Profissionais de saúde relatam que, em algumas províncias, até 30% da força de trabalho é deslocada para tarefas relacionadas ao surto, da coleta de amostras ao rastreamento de contatos.

A economia local também sente o impacto. Pequenos comerciantes próximos a áreas de quarentena veem o movimento cair pela metade em poucas semanas. Caminhoneiros evitam rotas consideradas de risco, elevando o custo do transporte de alimentos e combustíveis. Organizações humanitárias calculam que, se o surto se mantiver fora de controle por mais seis meses, a renda de famílias em áreas afetadas pode cair até 25%, ampliando a insegurança alimentar.

Desconfiança, fadiga e lições esquecidas

Líderes comunitários relatam crescente fadiga da população com sucessivas emergências sanitárias. Na última década, o leste do Congo enfrenta repetidos episódios de ebola, sarampo e covid-19, sempre acompanhados de promessas internacionais que nem sempre se cumprem. “As pessoas escutam que o mundo está ajudando, mas não veem mudança concreta no posto de saúde do bairro”, comenta um coordenador local de uma ONG médica europeia.

A desconfiança afeta diretamente estratégias centrais de controle, como o isolamento rápido de casos suspeitos e o rastreamento de contatos. Trabalhadores de campo contam que, em alguns vilarejos, famílias escondem doentes com medo de separação forçada ou estigma. Sem recursos para equipes treinadas, transporte seguro e diálogo constante com essas comunidades, especialistas alertam que o vírus encontra mais espaço para circular silenciosamente.

Janela estreita para evitar uma crise global

Nos bastidores, diplomatas e representantes de agências de saúde pressionam países do G7 e grandes doadores a destravarem recursos adicionais ainda em maio. O cenário considerado “aceitável” por técnicos é garantir, em até 30 dias, o fechamento do déficit estimado em US$ 70 milhões, permitindo manter centros de tratamento, vacinação direcionada e vigilância ativa até o fim de agosto.

Se a ajuda não for ampliada, autoridades admitem reservadamente a possibilidade de uma crise com contornos semelhantes à da África Ocidental, agora em uma região com conflitos armados e fronteiras mais porosas. A decisão passa por gabinetes em capitais distantes de Kinshasa, mas o relógio corre nas aldeias onde o ebola volta a circular. A questão, para quem está na linha de frente, não é mais se a comunidade internacional vai reagir, e sim se vai reagir a tempo.

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