Ciencia e Tecnologia

Nova espécie de réptil de 230 milhões de anos é descrita no RS

Uma equipe da Universidade Federal de Santa Maria descreve, em 2026, uma nova espécie de réptil herbívoro do período Triássico, o Isodapedon varzealis. O animal vive há cerca de 230 milhões de anos na região onde hoje fica o município de Agudo, no centro do Rio Grande do Sul.

Crânio preservado revela bico em forma de papagaio

O novo réptil é identificado a partir de um crânio fossilizado encontrado em 2020 em rochas triássicas de Agudo. O fóssil pertence ao grupo dos rincossauros, répteis quadrúpedes e herbívoros que dominam muitos ecossistemas terrestres antes da expansão dos dinossauros.

A espécie recebe o nome Isodapedon varzealis em referência à localidade da descoberta e à linhagem à qual se associa. O estudo é liderado pelo paleontólogo Rodrigo Temp Muller, da UFSM, em parceria com a mestranda Jeung Hee Schiefelbein, e acaba de ser publicado na revista científica Royal Society Open Science.

O crânio chama atenção pelo bico pontiagudo e robusto, comparado pelos pesquisadores ao de um papagaio. A anatomia indica um animal de 1,2 a 1,5 metro de comprimento, de locomoção quadrúpede, especializado em dieta vegetal. O formato dos ossos sugere um bico forte o bastante para cortar ramos duros e também escavar o solo em busca de raízes.

O trabalho de preparação do material se estende por mais de seis meses no laboratório da UFSM. Técnicos e pesquisadores removem, milímetro a milímetro, o sedimento que recobre a região dos dentes, considerada chave para reconhecer uma espécie de rincossauro. Esse processo revela detalhes até então ocultos do arcabouço ósseo.

Ao final da preparação, sulcos, curvaturas e o encaixe dos dentes se mostram diferentes dos de outros fósseis já descritos no Brasil e no exterior. Essas características diagnósticas sustentam a proposta de uma nova espécie, que passa a integrar o catálogo da fauna do Triássico brasileiro.

Diversidade no Triássico brasileiro e ecos da Pangeia

O registro do Isodapedon varzealis eleva para seis o número de espécies de rincossauros conhecidas no Triássico do Brasil. Parte delas também vem de camadas rochosas de Agudo e de outras áreas do centro do Rio Grande do Sul, o que transforma a região em um dos principais laboratórios naturais do período no hemisfério sul.

Os pesquisadores destacam que quatro dessas seis espécies aparecem nas mesmas sucessões de rochas, formadas entre 233 e 228 milhões de anos atrás. A sobreposição indica um momento de alta diversidade de rincossauros, que convivem com alguns dos primeiros dinossauros conhecidos. O cenário é de ecossistemas em rápida transformação, com mudanças climáticas e rearranjos ambientais que remodelam a vida em terra firme.

Análises de parentesco, que comparam dezenas de características anatômicas, aproximam o novo réptil de um rincossauro de idade semelhante descrito na Escócia. A ligação, à primeira vista improvável, ganha sentido quando os cientistas lembram da configuração do planeta no Triássico, quando os continentes ainda se agrupam no supercontinente Pangeia.

Nesse mundo conectado, grandes extensões de terra se estendem sem barreiras oceânicas significativas. Animais terrestres podem se dispersar por milhares de quilômetros ao longo de planícies contínuas, o que ajuda a explicar por que formas tão próximas surgem em regiões hoje separadas por mais de 9 mil quilômetros. O Isodapedon varzealis, nesse contexto, funciona como uma peça adicional do quebra-cabeça que mostra como a fauna se distribui na Pangeia.

O estudo também reforça o papel dos rincossauros como marcadores de tempo geológico. Certas espécies aparecem apenas em intervalos específicos da história da Terra. Quando um fóssil desse grupo é encontrado em determinada camada de rocha, ele ajuda a datar aquela formação com mais precisão, o que impacta diretamente a reconstrução da cronologia de eventos climáticos e biológicos.

Impacto para a paleontologia brasileira e próximos passos

A identificação do Isodapedon varzealis consolida o sul do Brasil como referência internacional no estudo do Triássico. Depósitos fossilíferos de municípios como Agudo, Santa Maria e Candelária passam a atrair mais equipes e projetos financiados, nacionais e estrangeiros. Para a UFSM, o achado reforça uma linha de pesquisa que vem acumulando descrições de novos vertebrados há pelo menos duas décadas.

O aumento para seis espécies de rincossauros registradas no país não é apenas um número a mais em catálogos científicos. Cada novo animal descrito obriga pesquisadores a revisitar árvores evolutivas, a testar hipóteses sobre a origem dos dinossauros e a refinar modelos de como os ecossistemas respondem a mudanças ambientais profundas. Ao revelar um herbívoro de bico adaptado a cortar e escavar, o estudo sugere nichos ecológicos mais variados do que se imaginava para a época.

Os autores destacam que o crânio de Agudo está longe de esgotar as perguntas. Camadas vizinhas já produziram outros fósseis, ainda em preparação, que podem representar indivíduos juvenis, espécies aparentadas ou até grupos completamente distintos. A expectativa é de que novas escavações nos próximos anos ampliem ainda mais a lista de vertebrados triássicos brasileiros.

A descoberta também tem efeito simbólico para a ciência feita no país. Em meio a ciclos de cortes de orçamento e incertezas, um estudo de fôlego publicado em uma revista internacional reforça a capacidade de grupos locais de liderar pesquisas de fronteira. Ao recolocar o interior do Rio Grande do Sul no mapa global da paleontologia, o Isodapedon varzealis ajuda a contar outra história: a de como o conhecimento produzido em laboratórios brasileiros projeta o passado remoto da Terra para o centro do debate científico.

Novas campanhas de campo em Agudo e em outras áreas triássicas do estado já estão planejadas por diferentes equipes. A cada bloco de rocha removido, aumenta a chance de que mais espécies desconhecidas venham à luz, alterando de novo a forma como se entende a origem dos grandes répteis que dominam o planeta milhões de anos depois. A principal pergunta, agora, não é mais se o Triássico gaúcho guarda surpresas, mas quantas ainda permanecem escondidas sob o solo vermelho do interior do estado.

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