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No 1º de Maio, ato em Brasília cobra fim da jornada 6×1 e reage ao Congresso

Centenas de trabalhadores ocupam o Eixão Sul, em Brasília, neste 1º de Maio, para exigir o fim da jornada 6×1 e criticar decisões recentes do Congresso Nacional. Lideranças sindicais e parlamentares de esquerda transformam o Dia do Trabalhador em recado direto ao Legislativo, em meio ao aumento das tensões com o governo federal.

Dia do Trabalhador vira palco de recado ao Congresso

O ato começa por volta das 10h, na altura da SQS 106, e se estende até às 14h, sob faixas coloridas que pedem respeito a direitos trabalhistas e rejeitam recuos na legislação. CUT e CTB organizam a manifestação em Brasília, enquanto protestos similares ocorrem em capitais como Belo Horizonte, Recife, Salvador e Rio de Janeiro, espalhando a mesma mensagem de pressão sobre o Congresso.

As pautas vão além do fim da escala 6×1, regime em que o empregado trabalha seis dias seguidos e descansa apenas um. Os manifestantes cobram regras mais claras para o trabalho por aplicativos, defesa do direito de negociação para servidores públicos e medidas duras contra o feminicídio e a “pejotização” — quando empresas contratam como pessoa jurídica para fugir de direitos como férias, 13º salário e FGTS.

Faixas apontam o Congresso como alvo central. Cartazes criticam a derrubada recente de vetos na lei que endurece penas para os condenados pelos atos de 8 de janeiro e reagem à rejeição, pelo Senado, da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. O clima é de desconfiança em relação à pauta do Legislativo em 2026, ano em que o calendário eleitoral aumenta o peso de cada gesto público.

Direitos, jornada e disputa sobre o modelo de trabalho

No carro de som, o presidente da CTB, Flausino Antunes, afirma que reduzir a jornada é questão de dignidade e não ameaça o desempenho econômico. “Nunca direito foi uma questão que atrapalha o desenvolvimento econômico. Dá para conciliar o aumento do emprego, o aumento da produtividade com os direitos aos trabalhadores”, diz, sob aplausos de uma plateia que mistura servidores, comerciários e trabalhadores de aplicativos.

O dirigente lembra que o debate sobre jornada acompanha momentos cruciais da história trabalhista brasileira, da Consolidação das Leis do Trabalho, em 1943, até a Constituição de 1988, que fixa a carga semanal em 44 horas. A reclamação agora mira escalas que, na prática, espremem o descanso em apenas um dia e afetam setores como comércio, serviços e parte da indústria, em que folgas alternadas são regra silenciosa.

O presidente da CUT-DF, Rodrigo Rodrigues, destaca o peso simbólico do calendário. “O que aconteceu esta semana no Congresso mostra que existem outras prioridades de um setor do Congresso, mas nós queremos que essa discussão da questão da jornada de trabalho avance, porque é importante, é primordial”, afirma. Ele ressalta que o ato também funciona como alerta eleitoral: “Em ano eleitoral isso é um recado muito importante para o povo”.

As críticas à pejotização ganham espaço nas falas e nos panfletos distribuídos ao longo da via, que costuma reunir famílias aos domingos e, desta vez, vira avenida de bandeiras vermelhas. Dirigentes apontam que o aumento de contratos como pessoa jurídica, especialmente em serviços e tecnologia, reduz arrecadação previdenciária e empurra trabalhadores para uma rotina sem férias remuneradas, descanso semanal garantido ou proteção em caso de demissão.

Placas também exigem políticas mais firmes contra o feminicídio, crime que ainda mata milhares de mulheres por ano no país. Mulheres de diferentes categorias puxam palavras de ordem que conectam violência de gênero, desigualdade salarial e jornadas exaustivas, num esforço para manter a agenda de direitos das mulheres no centro da discussão trabalhista.

Pressão eleitoral e disputa de narrativa sobre direitos

Parlamentares de esquerda circulam entre as barracas de água, carros de som e pequenos palcos improvisados. A senadora Leila Barros (PDT-DF) e a deputada federal Erika Kokay (PT-DF) ouvem reivindicações, posam para fotos e prometem defender emendas que protejam a negociação coletiva e enfrentem os efeitos da pejotização em projetos em tramitação na Câmara e no Senado.

O pano de fundo é a piora recente na relação entre Planalto e Congresso após a derrubada de vetos presidenciais e a rejeição de nomes indicados pelo governo. A mobilização deste 1º de Maio tenta tensionar esse tabuleiro e dar fôlego político às centrais sindicais, que buscam voltar a ser protagonistas nos debates sobre reforma trabalhista, trabalho por aplicativos e renda mínima para categorias mais vulneráveis.

Do ponto de vista prático, o fim da escala 6×1 pode significar readequação de turnos, contratação de novos funcionários e aumento de custos para setores que se apoiam em jornadas estendidas, como varejo, bares, restaurantes e serviços de entrega. Sindicalistas argumentam que a mudança traz benefício direto para milhões de trabalhadores, com mais descanso, redução de afastamentos por doenças e tempo para a vida familiar, enquanto empresários temem perda de competitividade.

A disputa sobre o tema entra na agenda de 2026 com potencial de influenciar votações e campanhas, sobretudo em estados com forte peso de comércio e serviços. A presença de atos coordenados em várias capitais amplia o alcance da mensagem e sinaliza que o embate não se limita à Esplanada, mas se espalha por centros urbanos em que o trabalho aos fins de semana e feriados é rotina.

O que pode mudar após o 1º de Maio

A pressão das ruas tende a acelerar negociações entre líderes de centrais sindicais e parlamentares aliados para a apresentação de projetos focados na revisão de jornadas, proteção a trabalhadores de aplicativos e combate à pejotização. As entidades planejam usar as imagens deste 1º de Maio em campanhas digitais e reuniões com bancadas estaduais para vincular a pauta trabalhista ao desempenho dos deputados e senadores nas urnas.

O desfecho ainda é incerto. Congressistas ligados ao empresariado já indicam resistência a mudanças que elevem custos em um cenário de crescimento moderado e juros ainda altos. A capacidade das centrais de manter mobilização constante, para além das datas simbólicas, pode definir se o ato deste ano será lembrado como ponto de inflexão no debate sobre a jornada 6×1 ou apenas como mais um capítulo na longa disputa entre produtividade, lucro e tempo de descanso. A resposta virá nas próximas votações em Brasília.

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