Esportes

Nicola liga títulos do Botafogo em 2024 a rombo de R$ 2,7 bi

O jornalista Jorge Nicola afirma, em coluna publicada no R7 nesta terça-feira (15), que os títulos do Botafogo em 2024 cobram um preço financeiro devastador. Segundo ele, os gastos de John Textor para montar o time campeão levaram a SAF alvinegra a uma dívida histórica, hoje estimada em R$ 2,7 bilhões.

Glória em campo, colapso no caixa

O ano de 2024 entra para a história do Botafogo como o mais vitorioso desde a profissionalização do futebol. O clube ergue o troféu do Campeonato Brasileiro e, poucos meses depois, conquista a Copa Libertadores, títulos que mudam o patamar esportivo do Alvinegro. A mesma temporada, porém, marca o início de uma crise financeira sem precedentes sob o comando de John Textor.

Nicola relata que o dono da SAF decide montar um elenco para disputar todos os títulos possíveis, sem medir limites de gasto. “Os títulos do Brasileiro e da Libertadores em 2024 estão cobrando um preço muito alto para o Botafogo. O tempo mostrou que o dono da SAF do clube, John Textor, gastou muito mais do que poderia na montagem daquele elenco”, escreve o colunista. Contratações caras, altos salários, bônus por desempenho e comissões se acumulam em contratos longos, que estouram qualquer previsão de orçamento.

A festa em campo contrasta com o que acontece nos bastidores a partir de 2025. O fluxo de caixa da SAF entra em estresse permanente. A Eagle, holding de Textor, abandona o modelo de caixa único que ligava Botafogo e Lyon, clube francês também sob sua gestão. Receitas esperadas deixam de chegar, enquanto compromissos firmados na euforia dos títulos seguem vencendo mês a mês.

O quadro se agrava quando o Botafogo começa a enviar receitas e jogadores ao Lyon em 2025, na tentativa de equilibrar o ecossistema de clubes de Textor. A operação, segundo a análise de Nicola, não encontra sustentação quando o caixa compartilhado é descontinuado. O Alvinegro perde ativos esportivos e financeiros e não vê retorno proporcional nem em resultados técnicos nem em valorização de elenco.

Dívidas recordes, punições e desgaste de imagem

O rombo de R$ 2,7 bilhões coloca a SAF do Botafogo em um patamar inédito entre clubes que adotaram o modelo empresarial no Brasil. “A SAF do clube tem hoje dívidas de aproximadamente R$ 2,7 bilhões, algo que nunca havia sido visto entre times que se tornaram sociedades anônimas de futebol no Brasil”, afirma Nicola. A cifra engloba débitos antigos reestruturados, novas obrigações assumidas na era Textor e passivos decorrentes de disputas com jogadores, empresários e outros clubes.

As consequências chegam ao campo esportivo e à reputação da marca. Multas e punições impostas pela Fifa e pela Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD) restringem a margem de manobra do Botafogo no mercado de transferências. Atrasos em pagamentos de direitos econômicos e salários viram processos internacionais. Em casos extremos, o clube corre risco de bloqueio para registrar reforços e até perda de pontos em competições, cenário já visto em outros países.

Nicolas descreve ainda um episódio simbólico da fragilidade do momento: o anúncio de venda de jogadores do Botafogo em classificados de um jornal inglês, numa tentativa de mostrar ao mercado que ativos importantes estão disponíveis. O gesto, além de expor a necessidade urgente de caixa, vira motivo de constrangimento fora do país. “Mas o mico internacional está longe de ser o maior problema do Botafogo”, escreve o jornalista, ao reforçar que o centro da crise é estrutural, não apenas de imagem.

Enquanto isso, as apostas feitas em 2025 para tentar reencontrar o equilíbrio financeiro falham em sequência. O clube investe em reforços que não entregam desempenho esportivo nem revenda significativa. Trocas constantes de treinadores aumentam os custos com rescisões e desmontam qualquer planejamento técnico de médio prazo. As disputas entre sócios e acionistas da SAF ganham força e paralisam decisões estratégicas, em um ambiente de incerteza que afasta investidores e desanima patrocinadores.

Pressão sobre o futuro da SAF e do projeto esportivo

A análise de Nicola expõe um ponto sensível para o futebol brasileiro: a conta de projetos esportivos acelerados, ancorados em investimentos de alto risco, chega cada vez mais rápido. No caso do Botafogo, o contraste entre o brilho de 2024 e o aperto de 2025 e 2026 ilustra o desafio de conciliar ambição esportiva e disciplina financeira. O clube vê sua capacidade de investimento futuro reduzida, com parte relevante das receitas comprometida com o serviço da dívida.

A relação com patrocinadores e parceiros comerciais também entra em xeque. Marcas tendem a evitar ambientes de instabilidade, especialmente quando há risco de sanções esportivas que afastem o time de grandes vitrines, como Libertadores e Mundial de Clubes. Em negociação de jogadores, o Botafogo perde força: precisa vender para fazer caixa e, muitas vezes, aceita propostas abaixo do potencial de mercado para aliviar a pressão imediata.

Torcedores e pequenos investidores, que veem na SAF uma promessa de profissionalização, lidam agora com um cenário mais duro. O clube que volta ao topo da América em 2024 enfrenta, dois anos depois, a perspectiva de cortes, elenco mais enxuto e metas esportivas menos ambiciosas. Qualquer novo ciclo de conquistas depende de renegociação de dívidas, redefinição de governança e clareza sobre o papel de John Textor na condução do projeto.

Os próximos meses tendem a ser decisivos. A SAF precisa mostrar capacidade de reestruturar os R$ 2,7 bilhões, recuperar credibilidade com entidades como Fifa e CNRD e estabelecer uma estratégia de médio prazo que não dependa de apostas pontuais. A história recente do Botafogo deixa, por enquanto, uma pergunta em aberto: até que ponto o torcedor está disposto a aceitar anos de austeridade para pagar a conta de uma temporada inesquecível?

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