Nasa testa propulsor elétrico recorde em avanço rumo a Marte
A Nasa testa em fevereiro de 2026, nos Estados Unidos, um novo propulsor elétrico movido a vapor de lítio metálico que alcança 120 quilowatts de potência. O equipamento, desenvolvido no Laboratório de Propulsão Elétrica do JPL, marca um avanço decisivo para futuras missões tripuladas a Marte.
Primeira ignição em alta potência
Dentro de uma câmara de vácuo de 8 metros de comprimento, refrigerada a água, o protótipo magnetoplasmadinâmico entra em funcionamento cinco vezes seguidas. No centro do propulsor, um eletrodo de tungstênio atinge mais de 2.800 graus Celsius e brilha em branco intenso, enquanto uma pluma vermelha de plasma de lítio se abre pelo espaço confinado do laboratório.
O ensaio ocorre no Laboratório de Propulsão Elétrica do Jet Propulsion Laboratory (JPL), na Califórnia, e rompe uma barreira simbólica na pesquisa dos chamados propulsores MPD. São motores que aceleram um gás ionizado, o plasma, usando correntes elétricas muito altas combinadas a campos magnéticos intensos. Em vez de queimar combustível como um foguete químico tradicional, o sistema empurra a nave ao expulsar esse plasma a altíssima velocidade.
A equipe atinge 120 quilowatts, um patamar inédito para esse tipo de motor nos Estados Unidos. A marca representa mais de 25 vezes a potência dos propulsores elétricos que hoje impulsionam a sonda Psyche, missão da própria Nasa, considerada a referência atual em propulsão elétrica de alta potência na frota da agência.
O administrador da Nasa, Jared Isaacman, vincula o resultado diretamente ao plano de levar humanos a Marte. “Na Nasa, trabalhamos em muitas coisas ao mesmo tempo e não perdemos Marte de vista. O desempenho bem-sucedido do nosso propulsor neste teste demonstra um progresso real rumo ao envio de um astronauta americano para pisar no Planeta Vermelho”, afirma.
Por que esse motor importa agora
A propulsão elétrica não é novidade, mas ganha outra escala com o novo protótipo. Motores elétricos atuais, como os da Psyche, usam energia solar para acelerar pequenas quantidades de gás, produzindo um empuxo suave e contínuo. A estratégia compensa a força modesta com tempo: a nave acelera devagar, porém de forma constante, até atingir velocidades superiores a 200.000 km/h.
O MPD testado no JPL vai além ao operar em níveis de potência que, até aqui, permanecem apenas em estudos teóricos ou em pequenos experimentos. A tecnologia é pesquisada desde a década de 1960, mas nunca chega a voar em missões operacionais. Agora, com 120 quilowatts demonstrados em laboratório, o motor começa a sair do território das simulações e a entrar na fase em que a engenharia precisa provar que os componentes suportam o calor e o desgaste por milhares de horas.
James Polk, cientista pesquisador sênior do JPL e um dos líderes do projeto, acompanha o teste por um pequeno visor na parede da câmara de vácuo. Do lado de fora, ele observa o eletrodo em forma de bocal ficar incandescente enquanto o plasma se forma. “É um momento importantíssimo para nós, porque não só mostramos que o propulsor funciona, como também atingimos os níveis de potência que tínhamos como meta. E sabemos que temos uma boa plataforma de testes para começar a enfrentar os desafios da ampliação da produção”, diz.
O laboratório usa uma instalação específica para propelentes metálicos condensáveis, projetada para lidar com vapores de metais como o lítio em níveis de potência que podem chegar à casa dos megawatts. Isso permite testar com segurança um tipo de motor que opera em temperaturas extremas e em regime de alta corrente elétrica, algo impraticável em câmaras de vácuo convencionais.
Impacto para missões tripuladas a Marte
A promessa central da tecnologia está na economia de massa. Propulsão elétrica consome até 90% menos propelente do que foguetes químicos de alta potência. Em uma missão interplanetária, essa redução de combustível significa espaço extra para cargas científicas, sistemas de suporte à vida e blindagem contra radiação, itens decisivos para manter astronautas vivos durante a viagem.
Os propulsores MPD alimentados por lítio combinam empuxo maior com essa eficiência. Em tese, podem operar em faixas de potência muito superiores às dos motores elétricos hoje em uso, sem multiplicar na mesma proporção a quantidade de propelente. Para uma viagem tripulada a Marte, que pode exigir entre 2 e 4 megawatts de potência total, a solução passa por instalar vários desses propulsores em uma única espaçonave e operá-los por mais de 23.000 horas ininterruptas.
Na prática, o avanço abre uma rota intermediária entre os grandes foguetes químicos, usados na decolagem da Terra, e sistemas elétricos mais fracos, adequados apenas a sondas leves. Um motor MPD robusto, combinado a uma fonte de energia nuclear no espaço, poderia reduzir de forma significativa a massa de lançamento. Com menos toneladas de combustível químico no topo do foguete, o custo do lançamento cai e a margem de segurança aumenta.
O efeito não se limita às missões da Nasa. Agências espaciais europeias, chinesas e japonesas, além de empresas privadas que planejam missões comerciais ao espaço profundo, acompanham de perto a evolução dessa tecnologia. Quem conseguir dominar a propulsão elétrica de alta potência primeiro ganha vantagem estratégica em missões de carga para órbitas altas, para a Lua e para Marte, além de obter um diferencial na nova economia espacial.
Próximos passos e desafios em aberto
O objetivo da equipe do JPL é escalar o motor testado até a faixa de 500 quilowatts a 1 megawatt por unidade nos próximos anos. Para chegar lá, os engenheiros precisam provar que eletrodos, cabos e estruturas suportam o calor extremo por muitas horas, sem derreter, trincar ou perder desempenho. O teste bem-sucedido de fevereiro de 2026 fornece a primeira base sólida de dados para esse processo.
A expectativa dentro da Nasa é integrar propulsores desse tipo a conceitos de naves tripuladas que combinam energia nuclear a motores elétricos de alta potência. Essas plataformas, ainda em estudo, poderiam reduzir o tempo de viagem a Marte e diminuir a exposição dos astronautas à radiação cósmica. Ao mesmo tempo, trazem novos dilemas técnicos e políticos: desde o transporte de material nuclear em foguetes até a definição de quem lidera e financia missões dessa escala.
Enquanto a Artemis leva astronautas de volta à Lua e reativa a corrida tecnológica global, o teste do MPD a lítio no JPL funciona como um lembrete de que a Nasa já prepara o passo seguinte. O caminho até um voo operacional ainda é longo, mas, pela primeira vez em décadas, um motor elétrico de alto desempenho mostra em laboratório a potência necessária para tirar um futuro foguete rumo a Marte do papel.
