Nasa avança Artemis III ao mover foguete SLS e analisar Orion
Equipes do Centro Espacial Kennedy da Nasa manobram, desde quarta-feira (28), o estágio central do foguete SLS e recebem de volta a cápsula Orion da Artemis II. As duas frentes, na Flórida, aceleram a preparação para a Artemis III, missão que deve orbitar a Lua em 2027.
Um foguete de 64 metros em movimento
No coração do Centro Espacial Kennedy, na costa leste da Flórida, técnicos conduzem uma operação que lembra um enorme jogo de xadrez industrial. O alvo é o estágio central do SLS, o foguete mais poderoso em operação, que sustenta a nave Orion no caminho para a órbita lunar. Com 64,6 metros de altura quando totalmente montado, essa peça concentra dois tanques gigantes de combustível líquido super-resfriado, capazes de armazenar mais de 2,8 milhões de litros de propelente.
O cilindro laranja, que domina o interior do Edifício de Montagem de Veículos (VAB), primeiro segue em posição horizontal pelo corredor de transferência. Em seguida, será içado para o High Bay 2, um dos andares altos do prédio, onde será conectado à seção de motores e à cauda, já integradas desde agosto de 2025. É a primeira vez que toda essa sequência de montagem do estágio central acontece no próprio Kennedy, o que reforça a autonomia do centro para preparar missões lunares complexas.
Os quatro motores RS-25 instalados na base do estágio central formam, com os dois foguetes auxiliares laterais, o coração de um sistema capaz de produzir 8,8 milhões de libras de empuxo na decolagem. Traduzido para o leitor comum, é força suficiente para tirar do chão um prédio de 30 andares. “Cada etapa de integração no VAB reduz o risco no dia do lançamento”, costuma repetir a agência em comunicados sobre o programa, ao sublinhar a filosofia de testar cada elemento em solo antes de qualquer contagem regressiva.
Enquanto o estágio central avança no prédio icônico que já abrigou Saturno V e ônibus espaciais, outros componentes do SLS também chegam à Flórida. Em 13 de abril, o primeiro lote de segmentos dos foguetes auxiliares de combustível sólido desembarcou no Kennedy após cruzar oito estados em vagões ferroviários especiais. Fabricados pela Northrop Grumman em Utah, esses blocos cilíndricos vão formar, quando empilhados, estruturas da altura de um prédio de 17 andares.
Do voo lunar à bancada de testes
Os segmentos dos auxiliares passam agora pela Instalação de Rotação, Processamento e Preparação (RPF), onde são inspecionados e preparados para a fase seguinte. Depois de aprovados, seguem para o VAB, onde serão empilhados com os conjuntos dianteiro e traseiro para dar forma final aos dois foguetes laterais, responsáveis por mais de 75% da força de impulso no instante da decolagem. Um segundo lote de segmentos está previsto para chegar ainda neste verão do hemisfério norte, consolidando o cronograma rumo a 2027.
Em paralelo ao vaivém de peças do SLS, outra protagonista volta a ocupar os hangares do Kennedy: a cápsula Orion da Artemis II. Após levar Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e o canadense Jeremy Hansen em um voo ao redor da Lua, a nave retorna ao Centro de Processamento de Carga Útil Multiuso para uma espécie de autópsia técnica. Técnicos iniciam a desativação da espaçonave, removem cargas úteis, retiram componentes de aviônica para reutilização e extraem dados gravados em voo.
O escudo térmico, que encara temperaturas superiores a 2.700 graus Celsius na reentrada, passa por desmontagem e análise minuciosa. A proteção é formada por 186 blocos de Avcoat, material ablativo que queima de forma controlada para dissipar calor. A nova versão desse escudo, já instalada no módulo de tripulação da Artemis III, conclui testes de ciclo térmico e inspeções ultrassônicas, que simulam anos de desgaste em poucos meses. “Cada parafuso que abrimos na Orion da Artemis II nos ensina algo para a Artemis III”, explicam engenheiros da Nasa ao justificar a importância do pós-voo.
No módulo de serviço da Orion da Artemis III, que abriga sistemas de propulsão, geração de energia e suporte de vida, as quatro asas de painéis solares passam por sequências de abertura e travamento em solo. A estrutura também enfrenta câmaras que alternam calor e frio extremos, reproduzindo as variações do espaço profundo. Os testes já incluem o cone adaptador que conecta a nave ao topo do SLS, etapa decisiva para garantir que qualquer esforço mecânico na decolagem seja distribuído de forma segura.
Corrida por segurança e protagonismo lunar
A combinação entre montagem do foguete e autópsia da cápsula cria um retrato claro da estratégia da Nasa. O programa Artemis busca não apenas repetir o feito de levar humanos à vizinha celeste, como ocorreu entre 1969 e 1972, mas estabelecer uma presença contínua na Lua a partir do fim desta década. O voo da Artemis III, previsto para 2027, serve como passo intermediário crucial: a missão deve colocar astronautas em órbita lunar para testar, em condições reais, encontros e acoplamentos com naves comerciais que apoiarão o pouso da Artemis IV em 2028.
Os efeitos práticos desse ritmo de trabalhos já aparecem dentro e fora da agência. No plano interno, o Kennedy consolida o papel de porto espacial completo, capaz de receber, montar, testar e lançar alguns dos veículos mais complexos já construídos. Para a indústria, o programa injeta contratos bilionários em empresas como Northrop Grumman e em uma cadeia extensa de fornecedores de materiais especiais, eletrônica e sistemas de propulsão, espalhados por diversos estados americanos.
O impacto geopolítico também pesa. Em meio à expansão dos programas lunares da China e de iniciativas independentes de Índia e Rússia, a Nasa tenta preservar a liderança tecnológica que marcou a era Apollo. A diferença, desta vez, é a presença mais evidente de parceiros privados e de agências como a canadense CSA, que envia um de seus astronautas à órbita lunar na Artemis II. Cada avanço em solo na Flórida funciona como sinal de compromisso para essa rede internacional, que inclui ainda acordos com países europeus e asiáticos.
O foco em segurança orienta cada decisão técnica. Os dados coletados da Orion da Artemis II alimentam ajustes no software de voo, na proteção térmica e no sistema de aborto de lançamento, que permite separar a cápsula do foguete em frações de segundo em caso de falha. A Nasa planeja integrar, ainda neste ano, o módulo de tripulação e o módulo de serviço da Artemis III ao sistema de escape, fechando o design da nave que deve transportar a próxima leva de astronautas à vizinhança lunar.
Próxima parada: órbita lunar em 2027
O cronograma até 2027 inclui uma sequência de marcos que se concentram no Kennedy. Os segmentos dos foguetes auxiliares terminam o processamento e seguem para o VAB. O estágio central é erguido e unido à base de motores, enquanto a Orion recebe os últimos ajustes antes de encontrar seu módulo de serviço. Só então o conjunto completo passa por testes integrados, que vão desde checagens de software até ensaios de abastecimento com propelentes super-resfriados.
Se cada peça responder como previsto, a Artemis III leva astronautas à órbita da Terra no topo do SLS para validar manobras de encontro e acoplamento com veículos comerciais, ensaiando a logística que sustentará pousos futuros. O sucesso abre caminho para a Artemis IV em 2028 e para uma presença humana mais duradoura na Lua, com impacto direto em ciência, tecnologia e negócios. Resta saber se o ritmo visto hoje nos hangares da Flórida resiste a desafios orçamentários e políticos até a próxima grande decolagem rumo ao nosso satélite natural.
