Ciencia e Tecnologia

Nasa acelera plano de base lunar permanente em disputa com China

A Nasa detalha nesta terça-feira (26/05) o plano de erguer uma base permanente no polo sul da Lua até 2032, em parceria com empresas privadas. O projeto prevê módulos robóticos, drones, veículos de exploração e energia nuclear e solar para sustentar futuras missões tripuladas e preparar o caminho para Marte.

Nova corrida à Lua sob pressão política e geopolítica

O programa, batizado de Ignition Moon Base, nasce em clima de disputa aberta com a China e sob um calendário apertado pela política doméstica dos Estados Unidos. A Casa Branca quer ver astronautas americanos de volta à superfície lunar antes do fim do mandato de Donald Trump, em 2029, enquanto Pequim mira seu próprio pouso tripulado até 2030.

Na segunda-feira (25/03), a China lança a espaçonave Shenzhou-23 e envia uma nova tripulação à estação espacial Tiangong, em órbita da Terra. O movimento reforça a percepção, em Washington, de que a liderança simbólica e tecnológica no espaço volta a ser disputada quilômetro a quilômetro. “Não me surpreenderia nem um pouco se a China chegasse lá primeiro”, admite à BBC o cientista lunar Simeon Barber, da Open University.

Em março, a Nasa anuncia um programa de US$ 20 bilhões para erguer uma base alimentada por reatores de fissão nuclear e grandes painéis solares no polo sul da Lua. A meta é transformar a região em laboratório científico e ponto de apoio para missões ainda mais ambiciosas, incluindo viagens tripuladas a Marte nas próximas décadas.

Da exploração robótica à promessa de habitações semipermanentes

O plano se desenrola em três fases. Até 2029, a Lua recebe uma frota de módulos robóticos de pouso, drones de reconhecimento e veículos de carga. Essa etapa prevê 25 lançamentos e cerca de 4 toneladas de equipamentos pousados no solo lunar, segundo Carlos García-Galán, executivo do programa Moon Base.

A Nasa seleciona empresas como Blue Origin, Intuitive Machines e Astrobotic para construir a primeira geração de máquinas. A Blue Origin, do fundador da Amazon, Jeff Bezos, desenvolve o módulo de pouso Endurance, projetado para aterrissagens de alta precisão, navegação autônoma e controle sofisticado em ambientes de baixa gravidade. A Astrobotic prepara o módulo Griffin-1, planejado para tocar o solo na cratera Nobile, perto do polo sul, uma das regiões mais visadas por abrigar água congelada.

Esses veículos não só transportam carga. Eles carregam câmeras de alta resolução e instrumentos que usam pulsos de laser refletidos para guiar os pousos em terrenos acidentados. Drones ajudam a mapear fendas, penhascos e crateras eternamente sombreadas, onde a luz do Sol quase não entra, mas onde o gelo pode se acumular há bilhões de anos.

Superada a fase inicial, a Nasa planeja instalar os primeiros blocos de infraestrutura energética na superfície. Reatores compactos de fissão e fazendas de painéis solares fornecem eletricidade para habitats pressurizados, laboratórios, antenas de comunicação e sistemas de suporte à vida. Em 2032, a agência quer ver astronautas vivendo em estruturas “semipermanentes”, com capacidade de permanecer na Lua por períodos prolongados, circulando em veículos projetados para cruzar longas distâncias no terreno rochoso.

Disputa de prestígio, ciência e recursos naturais

A escolha do polo sul não é aleatória. Nesta região, crateras profundas abrigam água em forma de gelo, escondida do Sol. Esse recurso pode ser quebrado em hidrogênio e oxigênio, usado tanto para consumo humano quanto como combustível para foguetes. Uma base capaz de produzir parte do que consome reduz o custo e a complexidade de missões que partem da Terra.

O projeto, porém, depende da etapa mais delicada de toda a empreitada: pousar humanos com segurança na superfície lunar. A Nasa contrata a SpaceX, de Elon Musk, para desenvolver a nave Starship Human Landing System. A empresa registra avanços tecnológicos rápidos, mas também enfrenta explosões, testes interrompidos e atrasos que alimentam o ceticismo. “A etapa mais crítica é colocar os astronautas na superfície”, resume Barber.

A própria agência sente o peso das expectativas. O administrador da Nasa, Jared Isaacman, afirma que os anúncios recentes mostram que os EUA “nunca mais abrirão mão da Lua”. Especialistas ouvidos por universidades e centros de pesquisa, no entanto, consideram o calendário agressivo, quando não irrealista, diante do histórico de atrasos em grandes programas espaciais. A lembrança das missões Apollo, que pousam humanos na Lua entre 1969 e 1972, ressalta o contraste: a Nasa volta a um terreno conhecido, mas agora precisa provar que consegue ficar.

A iniciativa também rearranja o mapa econômico do setor aeroespacial. Contratos bilionários irrigam empresas privadas, de gigantes como Blue Origin e SpaceX a companhias menores e altamente especializadas em robótica, navegação autônoma e sistemas de energia. O programa promete gerar empregos de alta qualificação e acelerar tecnologias com uso civil, como baterias mais eficientes, telecomunicações resilientes e novos materiais.

Próxima fronteira: da Lua a Marte

Na prática, uma base lunar bem-sucedida muda o patamar da presença humana no espaço. Em vez de missões rápidas de ida e volta, a Nasa imagina uma operação contínua, com equipes se revezando em ciclos longos, testando como o corpo humano reage a anos fora da Terra. Laboratórios na Lua investigam desde a origem do satélite natural até o comportamento de materiais, plantas e microrganismos em gravidade reduzida e sob radiação intensa.

O projeto serve ainda como ensaio geral para Marte. Reatores, habitats, logística de suprimentos e sistemas de reciclagem de água e ar precisam funcionar de forma confiável a centenas de milhares de quilômetros de casa. A diferença é que, no planeta vermelho, uma evacuação de emergência é praticamente impossível. Se a Nasa dominar essa equação na Lua, ganha fôlego político e técnico para defender o próximo salto.

Enquanto engenheiros aperfeiçoam módulos e políticos disputam prazos, uma pergunta permanece em aberto: quem fincará primeiro uma nova bandeira humana na superfície lunar, os Estados Unidos ou a China? A resposta, mais do que um troféu simbólico, define quem dita as regras da exploração em um território visto, cada vez mais, como a porta de entrada para o resto do Sistema Solar.

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