Magyar suspende mídia pública na Hungria para desmontar legado de Orbán
Péter Magyar, primeiro-ministro eleito da Hungria, anuncia nesta quarta-feira (15) que vai suspender as transmissões de notícias das emissoras públicas até reformar a lei de mídia e criar uma nova autoridade reguladora. A medida, inédita desde o fim do comunismo, mira o desmonte do sistema de propaganda construído por Viktor Orbán ao longo de 16 anos no poder.
Ruptura com um sistema de propaganda
O anúncio ocorre três dias após a derrota de Orbán nas eleições parlamentares de domingo (12) e antecipa o embate central do novo governo. Magyar, que espera tomar posse em meados de maio, coloca a mídia pública no topo da agenda de transição e trata a suspensão como condição para reconstruir a confiança dos húngaros na informação produzida pelo Estado.
Desde 2010, Orbán molda o ecossistema de comunicação do país em torno de sua figura e de seu partido. Segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras, cerca de 80% da imprensa húngara fica sob controle direto do Estado ou de empresários aliados ao ex-premiê. Jornais críticos perdem anúncios oficiais, rádios independentes enfrentam processos e TVs públicas priorizam discursos semanais do líder, quase sempre sem contraponto.
Magyar escolhe a própria rádio pública Kossuth, símbolo desse arranjo, para anunciar a guinada. Em entrevista ao vivo, afirma que “todo húngaro merece um serviço público de mídia que transmita a verdade” e acusa a emissora de ter se transformado em aparelho de propaganda pessoal de Orbán. “O que aconteceu na emissora teria deixado Goebbels ou mesmo o ditador norte-coreano com água na boca”, dispara.
O futuro premiê admite que a decisão de tirar as emissoras do ar, ainda que de forma temporária, é radical, mas sustenta que não há alternativa. “Precisaremos de um pouco de tempo para aprovar uma nova lei de mídia, criar uma nova autoridade reguladora e estabelecer as condições profissionais necessárias para que a mídia estatal cumpra efetivamente sua missão”, afirma. O plano é suspender os conteúdos jornalísticos enquanto uma equipe técnica redesenha regras editoriais, critérios de nomeação e blindagens contra interferência política.
A estratégia não surge do nada. Durante dois anos de campanha, Magyar praticamente ignora a imprensa alinhada a Orbán e fala diretamente ao eleitorado por meio do Facebook, a rede mais popular do país. Com menos seguidores que o adversário, ele consegue quase o dobro de engajamento e contorna o bloqueio imposto pelos grandes veículos, que evitam dar espaço à oposição.
O que está em jogo para a Hungria e para a União Europeia
A disputa sobre o controle da mídia se cruza com o impasse entre Budapeste e Bruxelas. A União Europeia congela cerca de € 20 bilhões em fundos destinados à Hungria por considerar que o governo Orbán viola princípios básicos do bloco, como independência do Judiciário, liberdade universitária e imprensa livre. Metade desse valor vem de um pacote de recuperação econômica pós-pandemia que expira em agosto.
Ao anunciar a suspensão das emissoras públicas, Magyar envia uma mensagem direta às capitais europeias. Em conversa com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, na terça-feira (14), ele promete acelerar reformas para destravar o dinheiro antes mesmo da aprovação formal das novas leis. “Expliquei isso claramente a ela”, conta, ressaltando que Budapeste só aceitará condições “benéficas para o povo húngaro e para as empresas húngaras”.
A reconfiguração da mídia também mexe com interesses econômicos internos. Anos de governo Orbán criam um mercado acostumado a verbas públicas fartas, distribuídas com critérios políticos. Canais leais recebem publicidade estatal em larga escala, enquanto concorrentes críticos perdem receitas e audiência. Especialistas ouvidos em Budapeste descrevem o sistema como um “ecossistema viciado” em recursos do governo, difícil de desmontar sem provocar choque financeiro em redações e grupos de mídia.
A experiência recente da Polônia serve de alerta. Lá, o premiê Donald Tusk tenta desde 2023 reverter as mudanças implantadas em oito anos pelo partido nacionalista PiS, que também politizou emissoras estatais. A ofensiva enfrenta recursos judiciais, resistência de funcionários indicados pelo antigo governo e uma batalha narrativa com a oposição, que acusa Tusk de promover “caça às bruxas”. Magyar sabe que enfrenta cenário parecido, mas chega ao poder com vantagem numérica: seu partido, o Tisza, conquista mais de 53% dos votos e 138 das 199 cadeiras no Parlamento, uma maioria constitucional que permite alterar leis estruturantes e, se necessário, a própria Constituição.
Essa força legislativa alimenta outro confronto iminente. O futuro premiê pede publicamente a renúncia do presidente Tamás Sulyok, empossado em 2024 e visto como aliado de Orbán. “Eu disse ao presidente que o povo húngaro votou a favor de uma mudança de regime”, relata Magyar, que ameaça redesenhar a Constituição para abreviar o mandato de Sulyok se não houver saída negociada.
Reformas, economia em crise e primeiros testes de poder
A suspensão das transmissões públicas é só a face mais visível de um projeto de reacomodação institucional. Magyar promete um pacote que inclui medidas anticorrupção, mecanismos de proteção à independência do Judiciário e garantias à liberdade acadêmica. Sem essas mudanças, os bilhões de euros retidos em Bruxelas seguem fora de alcance, e a economia húngara, uma das mais frágeis da Europa hoje, permanece sob pressão.
Empresários locais acompanham o calendário com ansiedade. A liberação dos fundos europeus pode irrigar investimentos em infraestrutura, educação e saúde, e aliviar orçamentos municipais que dependem de transferências da capital. Ao mesmo tempo, o corte súbito de recursos para veículos ligados ao antigo governo ameaça empregos e pode estimular uma guerra de narrativas, com Orbán e seus aliados acusando Magyar de censura ou de vingança política.
Os próximos movimentos em política externa adicionam outra camada de tensão. O novo governo se dispõe a rever o veto de Orbán a um empréstimo de € 90 bilhões da União Europeia à Ucrânia, ponto sensível nas negociações com parceiros ocidentais. Magyar sinaliza que desbloqueará o pacote financeiro, mas mantém oposição à adesão ucraniana ao bloco, o que tende a gerar atritos com governos que defendem uma integração mais rápida de Kiev.
Em paralelo, Budapeste deve negociar acesso a € 16 bilhões de um fundo de defesa europeu, dinheiro que pode reforçar capacidades militares húngaras em um momento de incerteza no leste do continente. O equilíbrio entre concessões a Bruxelas e manutenção de uma posição nacionalista diante do eleitorado interno será um dos primeiros testes políticos do novo premiê.
As reações à suspensão da mídia pública começam a se desenhar enquanto a transição avança. A base de Orbán promete mobilizações e questiona a legalidade de mexer em estruturas ainda ocupadas por seus indicados. Organizações de imprensa e entidades civis em Bruxelas e Berlim celebram o gesto como sinal de ruptura, mas cobram garantias de que as novas regras não apenas troquem um grupo de controle por outro.
Magyar aposta que o relógio europeu joga a seu favor: precisa mostrar resultados concretos até agosto para recuperar os recursos perdidos e provar que a Hungria deixa para trás o rótulo de “democracia iliberal”. O país entra em um período raro em sua história recente, em que a tela escura da TV estatal pode dizer mais sobre o futuro do que anos de propaganda em horário nobre.
