Lula e Tarcísio fecham crédito de R$ 2,57 bi para túnel Santos-Guarujá
Os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Tarcísio de Freitas assinam, nesta segunda-feira (13), acordo de financiamento de R$ 2,57 bilhões para o túnel imerso Santos-Guarujá. O crédito, estruturado pelo Banco do Brasil e garantido pela União, viabiliza a parte paulista na parceria público-privada da obra.
Obra destrava projeto histórico no litoral paulista
O acerto financeiro tira do papel um projeto discutido há décadas no litoral de São Paulo. O túnel deve ligar, de forma permanente, Santos e Guarujá, hoje conectadas principalmente por balsas sujeitas a filas, atrasos e interrupções em dias de mau tempo. A promessa é reduzir o tempo de travessia para poucos minutos, com fluxo contínuo de veículos e transporte coletivo.
A operação de crédito garante a contrapartida estadual na PPP do Túnel Imerso Santos-Guarujá. O valor de R$ 2,57 bilhões permite ao governo paulista honrar seu compromisso financeiro no consórcio com o setor privado e com a União. O acordo marca um raro alinhamento prático entre um governo federal do PT e um governador alinhado à direita, ex-ministro de Jair Bolsonaro.
Alckmin fala em espírito republicano e rompeu-se a lógica do aliado
Durante o anúncio, o vice-presidente Geraldo Alckmin destaca o caráter cooperativo do arranjo. Ele agradece a Tarcísio “pela boa parceria” e afirma que o entendimento demonstra um “espírito republicano”, fechado “em benefício da sociedade”. O vice relembra que a obra se soma a outros empreendimentos tocados em São Paulo com recursos federais.
Alckmin também ressalta o papel do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Segundo ele, o BNDES já destina R$ 13,8 bilhões a projetos em São Paulo, com foco em ampliar infraestrutura, gerar empregos e atrair novos investimentos. A mensagem é clara: o túnel se insere em uma estratégia mais ampla de reativação da economia por meio de obras estruturantes.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, usa o anúncio para marcar contraste com a gestão anterior em Brasília. Sem mencionar Jair Bolsonaro, ele afirma que Lula rompe com uma lógica que priorizava estados aliados. Segundo Durigan, a renegociação das dívidas estaduais abre caminho para uma cooperação menos partidária entre União e governadores. “Precisamos deixar bons legados para o povo, repactuações com estados e municípios e agora a obra do túnel Santos-Guarujá”, diz.
O discurso tenta reposicionar o governo federal como fiador de grandes obras regionais, mesmo em territórios comandados por adversários políticos. O acordo com São Paulo, vitrine de Tarcísio e maior economia do país, tem peso simbólico especial nesse reposicionamento.
Da cobrança pública ao entendimento em torno do túnel
A assinatura do financiamento não encerra uma história linear. Em março, Lula cobra em público mais reconhecimento do governo paulista sobre o papel da União nas obras do estado, em especial no túnel. “Eu só queria que o governo estadual reconhecesse: ‘Olha, isso aqui não é só meu, isso aqui é metade meu, metade do Lula’”, afirma o presidente em evento em Araraquara.
Na mesma ocasião, Lula lembra que o dinheiro federal também sustenta a parte estadual do investimento. “A metade dele [Tarcísio] somos nós que damos também, porque nós financiamos”, afirma. O recado expõe uma disputa silenciosa por autoria política de empreendimentos com forte apelo junto ao eleitorado paulista.
O presidente aproveita ainda para criticar, de forma indireta, o grupo político ligado ao ex-presidente. Ele cita a herança de “quase 6.000 obras paralisadas” na educação, entre creches e escolas, e fala em “tempo da mentira, do sonho, das bobagens”. A fala reforça a narrativa de que o governo atual retoma projetos travados e reorganiza o fluxo de investimentos públicos.
O clima já foi mais cordial. No lançamento da obra, em fevereiro do ano passado, Lula e Tarcísio dividem o mesmo palanque, evitam embates públicos e vendem a parceria como exemplo de convivência institucional. No leilão da PPP, em setembro, o presidente se ausenta, o que sinaliza um distanciamento momentâneo. O acordo de financiamento volta a aproximar, ao menos no plano formal, Planalto e Palácio dos Bandeirantes.
Impacto na logística, no emprego e no investimento
O túnel imerso tem potencial para redesenhar a mobilidade no principal corredor portuário do país. Santos abriga o maior porto da América Latina, responsável por escoar parte relevante das exportações brasileiras. Guarujá concentra terminais de cargas e áreas residenciais que dependem, hoje, de travessias demoradas. A ligação fixa tende a encurtar deslocamentos, reduzir custos logísticos e dar mais previsibilidade ao transporte.
Durante a construção, a expectativa é de geração de milhares de postos de trabalho diretos e indiretos, do canteiro de obras à cadeia de fornecedores. Após a entrega, o túnel pode atrair novas empresas de logística, serviços e turismo para o entorno, além de valorizar imóveis na região. O governo federal aposta nesse efeito multiplicador para justificar o aporte vultoso garantido pela União.
Moradores e trabalhadores que usam as balsas diariamente devem sentir o impacto de forma mais imediata. A redução do tempo de espera e o fim de interrupções frequentes podem alterar rotinas de quem cruza o canal para estudar, trabalhar ou acessar serviços públicos. O desafio estará em garantir tarifas acessíveis, integração com ônibus e VLT e mitigação de impactos ambientais durante a obra.
Especialistas em infraestrutura apontam que a execução da PPP será um teste para o modelo de cooperação entre União, estado e iniciativa privada. Custos extras, mudanças de projeto ou atrasos podem acender o alerta em investidores e em órgãos de controle. A experiência bem-sucedida, por outro lado, tende a servir de vitrine para outros túneis urbanos, corredores logísticos e conexões metropolitanas no país.
Próximos passos e o que está em jogo
Com o financiamento assinado, o governo paulista precisa detalhar o cronograma, destravar licenças pendentes e cumprir metas contratuais da PPP. O consórcio privado responsável pela obra aguarda a formalização dos repasses para avançar em estudos executivos, desapropriações e montagem do canteiro. O cronograma oficial prevê etapas de escavação, instalação dos módulos imersos e conexão às malhas viárias de Santos e Guarujá.
No campo político, o túnel se torna vitrine para Lula e Tarcísio em 2026, ano de testes eleitorais importantes. O Palácio do Planalto quer exibir o projeto como exemplo de investimento federativo sem filtro partidário. O governador tenta reforçar a imagem de gestor pragmático, capaz de negociar com Brasília sem abrir mão de sua identidade política. Enquanto as máquinas não começam a trabalhar em ritmo acelerado, a principal pergunta segue sem resposta: quem ficará com o crédito político quando o primeiro carro cruzar o fundo do canal?
