Keiko Fujimori assume liderança parcial na eleição presidencial do Peru
Keiko Fujimori assume a dianteira na disputa presidencial do Peru nesta segunda-feira (13), com 37% das urnas apuradas. A candidata aparece à frente de Rafael López Aliaga em uma eleição marcada por atrasos, prorrogação da votação e incerteza sobre o segundo turno.
Virada em meio a apuração lenta e tensão política
Os primeiros números oficiais divulgados pelo Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) colocam Fujimori com 17,17% dos votos válidos, contra 16,97% de López Aliaga. A diferença é estreita, mas simbólica. No fim de domingo (12), o empresário conservador aparecia na frente, enquanto pesquisas de boca de urna já indicavam vantagem para a líder do fujimorismo.
A virada se consolida em um ambiente político saturado por desconfiança, fragmentação partidária e fadiga da população com sucessivas crises institucionais. Nenhum dos principais nomes se aproxima dos 50% necessários para liquidar a disputa no primeiro turno. Um segundo turno em 7 de junho passa a ser o cenário mais provável e alonga a incerteza em um país que tenta recompor estabilidade após anos de turbulência e sucessões presidenciais interrompidas.
Fujimori não esconde o eixo de sua campanha. Em declaração nesta segunda-feira (13), ela transforma o avanço nas urnas em argumento ideológico. “Os resultados da contagem rápida são um sinal muito positivo para o nosso país, porque, como salientei durante o debate, o inimigo é a esquerda, e isso é confirmado pelos resultados da contagem, já que eles não avançariam para o segundo turno — e isso, repito, é positivo para todos os peruanos”, afirma.
A fala reforça o tom de confronto que marca a eleição. A disputa não se organiza apenas em torno de propostas econômicas ou de segurança, mas em um embate entre campos políticos que se enxergam como ameaças existenciais. No discurso de Fujimori, derrotar a esquerda aparece como objetivo central, mais amplo que a própria corrida pelo Palácio de Pizarro.
Logística falha, votação prorrogada e confiança em jogo
O avanço da apuração acontece enquanto o país ainda tenta normalizar a própria votação. Em Lima e em outras regiões, problemas logísticos atrasam a abertura de seções eleitorais na manhã de domingo. Falta material, mesas demoram a ser montadas e cidadãos convocados para atuar como mesários não comparecem.
Diante da pressão de candidatos e das queixas de eleitores impedidos de votar, o Conselho Nacional Eleitoral decide prorrogar o processo. As seções que não conseguem funcionar no domingo ganham uma nova janela de votação, entre 7h e 18h desta segunda-feira (13), em um esforço para garantir o direito constitucional de participação.
Piero Corvetto, chefe do ONPE, detalha parte do problema. Ele informa que 13 seções eleitorais em Lima não conseguem realizar a eleição por falta de material, o que atinge 52.251 eleitores, número revisado em relação a comunicações anteriores. “Ficou acertado que as instalações serão as mesmas e que a eleição será realizada no mesmo horário, das 7h às 18h (horário local), a fim de garantir o direito constitucional ao voto dos eleitores mencionados, distribuídos em 187 seções eleitorais”, explica.
As cenas de filas interrompidas e portas fechadas alimentam dúvidas sobre a capacidade do Estado em conduzir um processo eleitoral sem sobressaltos. Ao mesmo tempo, a decisão de estender o horário funciona como um teste de confiança. As autoridades tentam provar que, mesmo com falhas, o sistema ainda é capaz de corrigir rumo e preservar a legitimidade do resultado.
Enquanto alguns setores enxergam na prorrogação uma saída razoável para garantir inclusão, outros passam a questionar a integridade da disputa. O governo responde reforçando o discurso de transparência e defendendo a atuação dos órgãos responsáveis, em meio a um calendário eleitoral que não perdoa atrasos nem ruídos de credibilidade.
Economia, cobre e a disputa por influência externa
O impasse nas urnas não se limita ao tabuleiro interno. O Peru é hoje o terceiro maior produtor mundial de cobre, mineral central para a transição energética global e insumo estratégico em tecnologia, construção e indústria pesada. Cada movimento político em Lima repercute em mercados atentos ao risco regulatório e à estabilidade de contratos.
Um segundo turno em 7 de junho amplia o período de espera para investidores e governos estrangeiros. Estados Unidos e China acompanham a eleição de perto e disputam espaço em infraestrutura, mineração e energia. Mudanças na orientação do próximo governo podem redesenhar acordos, licenças e prioridades na exploração de recursos naturais.
No plano doméstico, a disputa entre Fujimori e López Aliaga expõe uma sociedade dividida. Parte do eleitorado busca respostas duras para o aumento da criminalidade e da economia informal. Outra parcela teme retrocessos institucionais, seja pela memória do autoritarismo do governo Alberto Fujimori, seja pela ascensão de projetos personalistas com pouca ancoragem partidária.
Os programas apresentados até aqui convergem em pontos como estímulo ao investimento privado e combate à insegurança, mas divergem na forma de lidar com instituições de controle, combate à corrupção e relação com minorias políticas. O tom adotado por Keiko ao falar de um “inimigo” à esquerda antecipa um eventual governo de confronto, caso ela confirme a vaga no segundo turno e vença a etapa final.
Segunda rodada à vista e incertezas prolongadas
Com todos os principais candidatos bem abaixo dos 50%, a matemática da eleição aponta para um segundo turno inevitável. As próximas horas de apuração definirão quem, ao lado de Fujimori, tem mais chances de chegar vivo a 7 de junho, em meio a uma diferença hoje inferior a um ponto percentual entre os dois primeiros.
A partir daí, o país entra em nova fase de campanha, mais polarizada e sob escrutínio internacional. O desempenho da economia, a evolução dos índices de violência e os sinais emitidos por Washington e Pequim sobre futuros investimentos vão compor o pano de fundo da escolha final.
As autoridades eleitorais correm para concluir a votação nas seções atrasadas e avançar na contagem, pressionadas por denúncias de irregularidades e pela necessidade de dar uma resposta rápida à sociedade. O próximo presidente terá de enfrentar um Congresso fragmentado, expectativas frustradas e um país cansado de promessas não cumpridas.
A liderança inicial de Keiko Fujimori não encerra a disputa. Abre um novo capítulo em uma história recente marcada por quedas de presidentes, denúncias de corrupção e choque entre poderes. A apuração segue em curso, mas a pergunta central permanece: que tipo de governo o Peru está disposto a aceitar para sair do impasse sem mergulhar em outra crise?
