Google reforma busca com IA Gemini e lança óculos inteligentes
O Google anuncia nesta terça-feira (20), durante o I/O 2026 na Califórnia, a maior reformulação de seu buscador em 25 anos e uma nova ofensiva em inteligência artificial. A empresa coloca o sistema Gemini no centro da experiência de pesquisa, aposta em agentes autônomos e volta ao mercado de óculos inteligentes para manter a liderança em um setor cada vez mais disputado.
Busca entra na “era agêntica”
O palco principal da conferência em Mountain View traduz a mudança de fase. Sundar Pichai, CEO do Google, chama o momento de “era agêntica”, em referência a sistemas capazes de agir sozinhos, tomar decisões e completar tarefas longas em nome do usuário. “Dez anos depois de transformarmos a empresa em AI-first, ainda vemos a inteligência artificial como a maneira mais profunda de avançar nossa missão e melhorar a vida das pessoas em escala”, afirma.
O coração da estratégia está no Google Search, mecanismo usado por mais de 3 bilhões de pessoas. O campo de busca continua no topo da página, mas deixa de depender de palavras soltas. O usuário passa a conversar com a máquina, descrever situações, pedir recomendações específicas e fazer perguntas sucessivas, sem perder o fio da pesquisa.
Uma demonstração apresentada no evento mostra o novo espírito do produto. Em vez de digitar “aulas de cerâmica em São Paulo”, o usuário escreve que quer começar um hobby de cerâmica, com aulas às terças-feiras à noite ou nos fins de semana, perto de casa. A IA responde com opções filtradas por horário, localização e preço, sugere materiais básicos e oferece a possibilidade de refinar tudo em novas perguntas, mantendo o contexto.
O Google chama essa mudança de “maior atualização da caixa de busca em mais de 25 anos”. Por trás, o sistema Gemini integra texto, imagem, áudio e vídeo. A promessa é entender melhor pedidos complexos, como comparar propostas de escola para um filho, planejar uma viagem com múltiplas paradas ou organizar uma mudança de cidade, reunindo informações espalhadas em e-mails, documentos e sites.
Agentes autônomos e disputa por atenção
A empresa avança também em agentes autônomos, pequenos “funcionários digitais” embutidos na busca. Eles assumem tarefas que hoje exigem planilhas, anotações manuais e horas de pesquisa. O usuário pode delegar a organização de um casamento, com lista de convidados, orçamentos de buffet e roteiro da cerimônia, ou pedir a criação de um aplicativo simples sem escrever uma linha de código.
Outra frente são os chamados “agentes de informação personalizados”. O usuário determina um tema de interesse, como uma possível parceria entre um atleta e uma marca de tênis, e a IA passa a vigiar sites, blogs, redes sociais e portais de notícias. Quando algo relevante surge, o sistema envia notificações. A promessa de conveniência, porém, amplia o poder do Google como intermediário do que chega ou não ao público.
A reformulação ocorre sob pressão. Nos últimos meses, veículos de imprensa e produtores de conteúdo reclamam que os resumos gerados pela IA, os chamados AI Overviews, reduzem o tráfego enviado para sites externos. Ao responder mais dentro da própria página, a empresa mantém o usuário por mais tempo e, na prática, concentra audiência e receita publicitária. Com agentes que monitoram temas em segundo plano, essa dependência tende a crescer.
O movimento se insere em uma corrida global. A OpenAI, apoiada pela Microsoft, disputa a atenção do usuário com chatbots cada vez mais multimodais, capazes de interpretar vídeos e imagens em tempo real. A Anthropic tenta se posicionar como alternativa mais segura. O anúncio de hoje é a tentativa do Google de mostrar que ainda dita o padrão da indústria e que consegue, ao mesmo tempo, defender um negócio de busca avaliado em centenas de bilhões de dólares.
Para sustentar essa ambição, a empresa apresenta novos modelos de IA. O destaque é o Gemini Omni, descrito como um sistema capaz de “criar qualquer coisa a partir de qualquer entrada”. Em uma demonstração, um vídeo simples de uma pessoa tocando um espelho se transforma em cena de ficção científica depois de um comando em linguagem natural, que pede para “fazer o espelho ondular como líquido” e mudar o braço em metal brilhante.
Novos modelos, apps turbinados e óculos inteligentes
O Omni não atua sozinho. O Google lança também o Gemini 3.5 Flash, versão mais leve e rápida, voltada a desenvolvedores e auditorias técnicas. Segundo a empresa, o modelo executa tarefas em “uma fração do tempo” e com “menos da metade do custo” de sistemas rivais de fronteira. Ainda em 2026, chega o Gemini 3.5 Pro, voltado a aplicações mais exigentes, como análise de grandes bases de dados e criação de conteúdo avançado.
Os principais aplicativos da companhia entram na mesma onda. O Gmail ganha buscas por voz com IA, capazes de localizar, por exemplo, “aquele e-mail do contrato do aluguel enviado em março, com anexo em PDF”. No Google Docs, o recurso “Docs Live” permite ditar anotações soltas e ver a IA estruturá-las em um documento completo, com títulos, subtítulos e sugestões de formatação.
No YouTube, a ferramenta “Ask YouTube” promete responder a perguntas sobre o conteúdo de vídeos longos. O usuário pode perguntar em que momento um professor explica um conceito específico ou quando uma entrevista trata de determinado personagem. A plataforma pula diretamente para o trecho indicado. Para criadores, o ganho de descoberta vem acompanhado do risco de parte da experiência migrar para respostas resumidas pelo próprio sistema.
A ofensiva atinge também o Android. O Google apresenta recursos que permitem criar aplicativos a partir de comandos em linguagem comum, sem conhecimento de programação. Um empreendedor pode descrever a lógica de um app de agendamento de consultas e deixar que a IA gere a base de código, testes e interfaces. A promessa é reduzir custos de desenvolvimento e acelerar lançamentos, o que deve intensificar a concorrência em lojas de aplicativos.
O movimento mais visível, porém, está no retorno aos dispositivos vestíveis. Depois do fracasso comercial do Google Glass, lançado em 2013 e descontinuado para o público em 2015, a empresa tenta reabrir esse mercado com os óculos Android XR. São dois modelos: um focado em áudio, outro com projeção visual de informações em tempo real.
Impacto no cotidiano digital e próxima disputa
Os chamados “óculos de áudio” funcionam como uma ponte discreta entre o mundo físico e a IA. Um comando “Hey Google” ou um toque na haste ativa o assistente, que passa a responder dúvidas sobre o ambiente, sugerir rotas, registrar fotos e até traduzir conversas em tempo real. No modelo com projeção visual, notificações, mapas e instruções aparecem no campo de visão, sem necessidade de tirar o celular do bolso.
O Google fecha parcerias com marcas como Warby Parker e Gentle Monster para tentar driblar o estigma tecnológico que marcou o Glass há mais de uma década. Os novos óculos chegam às coleções de outono no Hemisfério Norte, a partir do fim de setembro de 2026, com foco inicial em mercados dos Estados Unidos e da Europa. A ideia é transformar o acessório em objeto de moda, não apenas em gadget para entusiastas.
A estratégia reforça uma aposta em longo prazo: levar a IA para além das telas tradicionais e disputar o tempo do usuário em qualquer situação, da caminhada ao trabalho às compras no supermercado. Em paralelo, aumenta a pressão sobre temas como privacidade, segurança de dados e transparência algorítmica. Agentes que monitoram interesses 24 horas por dia e óculos que “escutam” o ambiente abrem espaço para novos tipos de vigilância corporativa e estatal.
Mercados inteiros podem ser redesenhados. A publicidade digital tende a seguir a lógica dos agentes, com anúncios personalizados disparados no momento em que a IA detecta uma intenção de compra. A educação ganha ferramentas para acompanhar o ritmo individual de cada aluno, mas pode ficar ainda mais dependente de plataformas privadas. Produtores de conteúdo veem surgir um intermediário mais poderoso entre o trabalho que publicam e o público que pretendem atingir.
Ao colocar o Gemini no centro de tudo, o Google tenta provar que consegue liderar a nova fase da internet sem destruir o ecossistema que ajudou a criar. Usuários, reguladores e concorrentes vão testar essa promessa nos próximos meses, à medida que a nova busca, os agentes autônomos e os óculos Android XR chegam ao dia a dia. A próxima etapa da disputa não é apenas por cliques, mas por quem comanda a camada de inteligência que media quase todas as nossas escolhas digitais.
