Google redesenha busca e lança era de agentes de IA no I/O 2026
O Google anuncia nesta terça-feira (20), no I/O 2026, a maior reformulação de seu buscador em 25 anos e uma nova ofensiva em inteligência artificial. A empresa coloca o sistema Gemini no centro de quase todos os produtos e aposta em agentes autônomos para executar tarefas complexas.
Busca deixa de ser caixa de texto e vira diálogo contínuo
O palco principal da conferência, na Califórnia, funciona como vitrine de uma mudança que atinge mais de 3 bilhões de usuários do Google Search. O campo branco de pesquisa, símbolo da internet desde o fim dos anos 1990, cede lugar a uma experiência conversacional, em que o usuário escreve ou fala como se estivesse trocando mensagens com um assistente pessoal.
Em vez de combinar palavras-chave, a pessoa descreve o que precisa, com detalhes de tempo, lugar e preferências. Na demonstração mais didática, um usuário diz que quer começar a praticar cerâmica, com aulas às terças à noite ou nos fins de semana perto de casa. A resposta não vem em uma lista crua de links: a inteligência artificial organiza opções, sugere trajetos, compara preços e convida a fazer perguntas adicionais, mantendo o contexto da conversa por várias interações.
Essa mudança resume o que o CEO Sundar Pichai chama de “era agêntica”, marcada por sistemas que não apenas respondem dúvidas, mas assumem tarefas de ponta a ponta. “Dez anos depois de transformarmos a empresa em AI-first, ainda vemos a inteligência artificial como a maneira mais profunda de avançar nossa missão e melhorar a vida das pessoas em escala”, afirma, diante de milhares de desenvolvedores e parceiros.
A promessa não se limita a pesquisas pontuais. A empresa integra à busca agentes programáveis que podem acompanhar processos longos, como organizar um casamento, planejar uma mudança ou montar um roteiro de estudos para um vestibular. O usuário descreve o objetivo, define limites de orçamento e preferências e deixa o sistema cuidar de cotações, comparações e lembretes, com atualizações ao longo de semanas.
Outra aposta são os “agentes de informação personalizados”, que funcionam como monitores permanentes de temas específicos. A pessoa pode pedir que o Google acompanhe rumores de uma parceria entre um atleta e uma marca de tênis, por exemplo. A partir daí, a IA vasculha sites, blogs, redes sociais e portais de notícias e emite alertas quando encontra algo relevante, sem que o usuário precise repetir a busca.
Gemini assume o comando e aprofunda disputa em IA
A nova arquitetura da busca se apoia no Gemini Omni, modelo capaz de entender texto, vídeo, imagem e áudio na mesma interação. O Google descreve o sistema como apto a “criar qualquer coisa a partir de qualquer entrada” e tenta traduzir o slogan em cenas concretas. Em uma delas, um usuário grava um vídeo em que toca um espelho comum. Em poucos segundos, pede que a superfície ondulada pareça líquida e que o braço se transforme em metal prateado. O modelo interpreta a sequência, aplica os efeitos e entrega um novo vídeo sem que o usuário abra um editor tradicional.
A empresa afirma que o Gemini Omni usa conhecimento de história, ciência e contexto cultural para prever o que deve acontecer nos próximos quadros de uma cena. Na prática, isso abre espaço para montagens mais elaboradas, simulações educacionais e ferramentas de checagem visual, mas também reacende o debate sobre desinformação e manipulação de imagens em ano eleitoral em países como os Estados Unidos e o Brasil.
Ao lado do Omni, o Google apresenta o Gemini 3.5 Flash, versão mais leve e veloz, voltada a desenvolvedores e auditorias técnicas. Segundo a empresa, o modelo executa tarefas em uma fração do tempo e com menos da metade do custo de sistemas de fronteira rivais. Uma variante mais potente, batizada de Gemini 3.5 Pro, chega até o fim de 2026, num esforço explícito para conter o avanço de concorrentes como OpenAI, Microsoft e Anthropic.
A ofensiva se espalha pelos serviços mais usados do Google. No Gmail, buscas por voz com IA prometem encontrar mensagens e anexos a partir de pedidos informais, como “o boleto do condomínio de março” ou “o currículo atualizado da Ana”. No Google Docs, o recurso “Docs Live” transforma anotações faladas em textos inteiros, já estruturados em seções, tabelas e tópicos, o que pode acelerar relatórios corporativos, trabalhos acadêmicos e propostas comerciais.
No YouTube, o botão “Ask YouTube” permite que o usuário pergunte diretamente ao vídeo: onde está a explicação de uma fórmula, em qual minuto o técnico muda a escalação, como reproduzir um passo de dança. O sistema identifica o trecho mais relevante, salta para o momento exato e oferece um resumo em texto, aproximando a experiência de um tutorial sob demanda.
As novidades chegam em um ambiente hostil para os grandes intermediários da web. Veículos de imprensa, blogs e criadores de conteúdo acusam o Google de reter audiência com os resumos automáticos de IA, os chamados AI Overviews, que exibem respostas completas no topo da página e reduzem o clique em links externos. Com a nova busca conversacional e agentes que monitoram temas sozinhos, cresce o temor de um esvaziamento estrutural do tráfego para sites que alimentam, com seu próprio trabalho, os modelos de inteligência artificial.
Óculos inteligentes e dilemas sobre o futuro da internet
A conferência marca também o retorno do Google ao mercado de dispositivos vestíveis com inteligência artificial. A empresa apresenta uma nova geração de óculos Android XR em dois formatos: um modelo de áudio, mais discreto, e uma versão com projeção visual de informações em tempo real. Nos óculos de áudio, basta dizer “Hey Google” ou tocar na haste para ativar o assistente, receber instruções de navegação, tirar fotos, traduzir uma conversa na rua ou gravar anotações rápidas.
Nos modelos com projeção, informações sobre o ambiente, legendas de tradução simultânea e orientações de caminho aparecem diretamente no campo de visão. A estratégia retoma uma ambição que fracassa comercialmente há mais de uma década, com o Google Glass, e tenta se apoiar em uma base de parceiros de moda e ótica mais ampla. Marcas como Warby Parker e Gentle Monster planejam incluir os novos dispositivos em suas coleções de outono ainda neste ano, em um movimento para transformar o acessório tecnológico em objeto de desejo de varejo.
A mira está no segmento de realidade estendida, que combina elementos virtuais com o mundo físico e se torna prioridade também para rivais como Apple e Meta. Ao conectar os óculos ao Gemini, o Google tenta levar a “era agêntica” para fora da tela do celular, com assistentes que enxergam o entorno, escutam conversas e antecipam comandos. O ganho de conveniência, no entanto, vem embalado por dúvidas sobre privacidade, gravação de terceiros sem consentimento e coleta contínua de dados sensíveis.
Reguladores nos Estados Unidos e na Europa já investigam o uso de conteúdo jornalístico e obras protegidas por direitos autorais no treinamento de modelos de IA. A chegada de agentes que varrem sites, redes sociais e aplicativos em segundo plano pressiona ainda mais esse debate. Empresas de mídia tendem a exigir remuneração clara pelo uso de seu material, enquanto desenvolvedores defendem que a inovação depende de acesso amplo a dados públicos.
Para os usuários comuns, o impacto concreto aparece em pequenas rotinas: um e-mail escrito em metade do tempo, um vídeo editado sem cursos complexos, um vestibulando que organiza meses de estudo com a ajuda de um agente virtual. Para pequenos negócios e profissionais autônomos, a mesma tecnologia pode significar concorrência de ferramentas gratuitas ou baratas que automatizam tarefas antes cobradas por especialistas.
O Google encerra o I/O 2026 com uma mensagem dupla. De um lado, reforça a narrativa de que a inteligência artificial é a próxima camada fundamental da computação, comparável à chegada da web ou do smartphone. De outro, admite nos bastidores que cada novo recurso precisa ser calibrado para não destruir o ecossistema que o alimenta. A pergunta que permanece, enquanto a “era agêntica” ganha forma, é se será possível equilibrar conveniência, negócios e direitos digitais em uma internet onde a busca deixa de ser ponto de partida e passa a ser, cada vez mais, um destino em si.
