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EUA indiciam Raúl Castro e elevam Cuba a ameaça à segurança nacional

Os Estados Unidos formalizam em maio de 2026 a acusação de assassinato contra o ex-presidente cubano Raúl Castro e declaram Cuba uma ameaça à segurança nacional. A ofensiva é conduzida pelo secretário de Estado Marco Rubio, que descarta, por ora, chances altas de um acordo pacífico. Havana reage e acusa Washington de mentir e instigar agressão militar.

Tensão máxima entre Washington e Havana

A crise se aprofunda em poucos dias. Na quarta-feira, o Departamento de Justiça anuncia em Miami a denúncia contra Raúl Castro pelo abate de dois aviões em 1996, que mata cidadãos americanos. Na quinta-feira, Rubio vai à sala de imprensa e dá o tom da nova fase da relação com a ilha: para ele, Cuba é hoje uma “ameaça à segurança nacional” dos EUA e um interlocutor pouco confiável.

Rubio afirma que a preferência da Casa Branca segue sendo “uma solução diplomática”, mas não alimenta expectativas. “Sendo honesto, a probabilidade disso acontecer, considerando com quem estamos lidando agora, não é alta”, diz, ao ser questionado sobre a chance de um acordo pacífico com Havana. O recado mira diretamente o regime comunista que governa Cuba há mais de seis décadas.

A acusação contra Raúl Castro gira em torno do derrubamento, em 24 de fevereiro de 1996, de dois aviões civis ligados ao grupo anticastrista Hermanos al Rescate, episódio que marca a memória da diáspora cubana na Flórida. Trinta anos depois, o governo Donald Trump decide transformar o caso em arma política. O procurador-geral interino Todd Blanche declara que Washington espera que o ex-líder cubano compareça à Justiça americana, “por vontade própria ou de outra forma”.

Questionado sobre como o governo pretende trazer Castro aos Estados Unidos, Rubio evita detalhar planos. “Não vou falar sobre como vamos trazê-lo para cá. Se estivéssemos tentando trazê-lo, por que eu diria à mídia quais são nossos planos?”, devolve, em tom calculado. A ambiguidade alimenta especulações sobre medidas mais agressivas, incluindo operações de captura fora do país.

O chanceler cubano, Bruno Rodríguez, reage com dureza. Em nota e em mensagens no X, ele chama as acusações americanas de “mentiras” e diz que Cuba jamais representa ameaça aos EUA. Rodríguez acusa Rubio de tentar “instigar uma agressão militar” e acusa Washington de atacar a ilha “de forma implacável e sistemática”. Para Havana, a ofensiva jurídica e diplomática faz parte do endurecimento promovido por Trump desde o início de seu mandato.

Cuba sob pressão e risco de novo isolamento

O embate explode em meio a uma crise interna profunda em Cuba. O país enfrenta uma escassez de combustível agravada por um bloqueio de petróleo imposto pelos EUA, o que paralisa setores inteiros da economia. Apagões prolongados e falta de alimentos se tornam parte da rotina de milhões de cubanos nos últimos meses, pressionando ainda mais um sistema já fragilizado.

Em público, Washington tenta equilibrar ameaça e oferta. Rubio anuncia que o governo Trump coloca sobre a mesa um pacote de ajuda humanitária de US$ 100 milhões, cerca de R$ 500,5 milhões, destinado a aliviar a crise. Ele afirma que Havana aceita a oferta, ainda que o volume de recursos pareça modesto diante da dimensão do colapso energético e da escassez de bens básicos na ilha.

Trump, ao falar com repórteres no Salão Oval, chama Cuba de “país falido” e insiste que seu governo age “em bases humanitárias”. O presidente diz que cubano-americanos “querem voltar para seu país” e ajudar Cuba a prosperar. Sem esconder a ambição, ele afirma que outros presidentes tiveram meio século para enfrentar o dilema cubano e não concluíram nada. “Parece que serei eu quem fará isso, então ficarei feliz em fazê-lo”, resume.

As sinalizações reforçam uma estratégia de pressão máxima: sanções econômicas, acusações de terrorismo e oferta seletiva de ajuda se combinam para estrangular financeiramente o regime e testar sua capacidade de resistência. Rubio acusa Cuba de ser “um dos principais patrocinadores do terrorismo em toda a região”. Rodríguez nega a acusação e afirma que o governo americano busca criar um pretexto para endurecer ainda mais o bloqueio.

No plano diplomático, o caso ameaça isolar novamente Havana. Países da região observam com cautela a possibilidade de Washington ampliar sanções e cobrar alinhamento público. Aliados históricos de Cuba, como Venezuela e Nicarágua, tendem a usar o episódio para reforçar o discurso antiamericano. Potências globais que mantêm laços econômicos com a ilha, como Rússia e China, podem explorar a brecha para aprofundar sua presença no Caribe.

O impacto ultrapassa as fronteiras cubanas. A deterioração da economia e o aumento dos apagões alimentam novas ondas migratórias em direção aos EUA e à região. Governos da América Central e do Caribe, já pressionados por fluxos de venezuelanos, haitianos e nicaraguenses, temem uma sobrecarga adicional em seus sistemas de acolhimento. Em Washington, o tema alimenta o debate interno sobre fronteiras, segurança hemisférica e o papel dos EUA em crises regionais.

Próximos passos de uma crise aberta

A acusação formal contra Raúl Castro inaugura um impasse jurídico de difícil resolução. Como ex-chefe de Estado, ele vive em um país que não reconhece jurisdição americana nem tem tratado de extradição com os EUA. A chance de que compareça voluntariamente a um tribunal em Miami é considerada mínima por analistas, o que transforma a denúncia em instrumento político mais do que em caso com perspectiva imediata de julgamento.

Em paralelo, o governo Trump testa os limites da pressão sobre figuras ligadas ao regime. Rubio anuncia a prisão, na Flórida, de Adys Lastres Morera, irmã de um alto funcionário de um conglomerado cubano controlado pelos militares, que detém a maior parte dos setores mais lucrativos da economia da ilha. Segundo o secretário, ela vive nos EUA enquanto “auxilia o regime comunista de Havana”. Morera é detida pela imigração e aguarda processo de deportação, em um recado direto à elite cubana com vínculos familiares fora do país.

Os próximos meses tendem a ser marcados por escaladas graduais. Novas sanções podem atingir companhias ligadas aos militares, remessas de dinheiro de cubano-americanos e o comércio de combustíveis. Cada passo aumenta o custo para Havana e eleva o risco de instabilidade política interna. A resposta da ilha, por enquanto, aposta na denúncia internacional e na narrativa de resistência histórica ao poder americano.

Diplomatas em Washington e em capitais latino-americanas veem pouco espaço para uma distensão rápida. A fala de Rubio, ao dizer que a probabilidade de uma solução diplomática “não é alta”, ecoa esse ceticismo. Se a crise se prolonga, o controverso processo contra Raúl Castro e a classificação de Cuba como ameaça à segurança nacional podem redesenhar alianças no continente e recolocar a Guerra Fria caribenha no centro da política externa dos Estados Unidos.

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