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Drone russo atinge prédio na Romênia e fere civis, alerta Otan

Um drone russo do modelo Geran 2 atinge um prédio residencial em Galati, leste da Romênia, nesta sexta-feira (29), fere duas pessoas e provoca incêndio. O ataque dentro de um país da Otan leva Bucareste a falar em “escalada grave” da guerra russa contra a Ucrânia e aciona uma reação imediata da aliança militar e da União Europeia.

Explosão no 10º andar e corrida contra o tempo

O drone cruza a fronteira pela região do rio Danúbio, vindo do espaço aéreo ucraniano, e atinge um bloco de apartamentos em Galati, cidade de cerca de 250 mil habitantes, a poucos quilômetros da Ucrânia. A carga explosiva detona ao impactar o 10º andar do edifício, segundo a autoridade romena para situações de emergência, e provoca um incêndio que espalha chamas e fumaça pelos andares superiores.

Duas pessoas sofrem escoriações e são levadas ao Hospital Clínico de Emergência do Condado de Galati. Os bombeiros correm para conter o fogo enquanto policiais isolam a área e orientam os moradores a deixar o prédio às pressas. Cerca de 70 pessoas são evacuadas durante a operação, parte delas de pijama, carregando documentos e poucos pertences.

O Ministério da Defesa da Romênia informa que dois caças F-16 decolam assim que os drones são detectados pelos radares. O brigadeiro-general Gheorghe Maxim afirma que a janela de reação é mínima: apenas quatro minutos separam a detecção do impacto. “A Ucrânia está em guerra, mas a Romênia está em paz. Não podemos lançar um projétil no espaço aéreo ucraniano”, diz o oficial, explicando por que os militares não disparam antes da colisão.

As Forças Armadas tentam conter o medo de uma escalada direta. Em nota, declaram que o episódio não configura um ataque deliberado ao país, mas “um conflito na nossa fronteira, com consequências para a população local”. A Rússia, até o início da noite, não comenta o incidente.

Primeiros feridos na Otan e reação em cadeia

Desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, drones russos cruzam o céu romeno com frequência, sobretudo nas áreas próximas aos portos ucranianos no Danúbio. Fragmentos de aeronaves não tripuladas já caíram em território romeno 47 vezes, 12 apenas em 2026, segundo o Ministério da Defesa. Nenhuma dessas ocorrências, porém, deixa feridos até agora.

O ataque em Galati rompe essa linha e atinge diretamente civis de um Estado-membro da Otan. O presidente Nicușor Dan convoca uma reunião de emergência do Conselho Supremo de Defesa ainda nesta sexta-feira e descreve o episódio como “o incidente mais grave a afetar o território romeno desde o início da guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia”.

O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, fala por telefone com o presidente romeno e endurece o tom público. “O comportamento imprudente da Rússia é um perigo para todos nós”, afirma. Ele garante que a aliança “está pronta para defender cada centímetro do território aliado” e promete reforçar defesas na fronteira leste. “Continuaremos aprimorando nossa capacidade de impedir e nos defender contra qualquer ameaça, inclusive de drones”, acrescenta.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reage na mesma direção. Em publicação na rede X, ela diz que a “guerra de agressão” da Rússia “cruzou mais uma linha”. Para a líder europeia, o ataque em Galati reforça a necessidade de fortalecer a dissuasão militar na fronteira oriental do bloco. “À medida que continuamos a fortalecer nossa segurança e dissuasão, especialmente em nossa fronteira oriental, continuaremos aumentando a pressão sobre a Rússia”, escreve.

O Ministério das Relações Exteriores da Romênia convoca o embaixador russo em Bucareste e chama o episódio de “escalada grave e irresponsável por parte da Federação Russa”. A chancelaria informa o caso a Mark Rutte e pede “medidas para acelerar a transferência de capacidades antidrones para a Romênia”. A França anuncia que também chamará o representante russo em Paris.

O impacto se espalha pela região. O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andriy Sybiha, afirma que o incidente “provou mais uma vez que a agressão russa representa uma ameaça real para a região do Mar Negro e para toda a Europa”. O ministro francês Jean-Noël Barrot descreve o ataque como “ato irresponsável da Rússia”. O novo primeiro-ministro da Hungria, Péter Magyar, manifesta solidariedade a Bucareste e deseja rápida recuperação aos feridos. O embaixador dos EUA na Otan, Matthew Whitaker, classifica o episódio como “incursão imprudente”.

Pressão por defesa antidrones e risco na fronteira leste

Galati se torna, em poucas horas, símbolo de uma vulnerabilidade conhecida mas difícil de resolver. A cidade fica às margens do Danúbio, rio que marca a fronteira entre Romênia e Ucrânia e concentra portos estratégicos para o escoamento de grãos ucranianos desde que o Mar Negro se torna rota arriscada. A combinação de relevo plano, áreas ribeirinhas e proximidade com alvos militares ucranianos torna a defesa contra drones um desafio técnico permanente.

No mês passado, fragmentos de um drone russo já haviam caído na periferia de Galati, após uma aeronave não tripulada ser detectada do lado ucraniano, perto da cidade de Reni. Na ocasião, caças da Otan recebem autorização para atacar drones, mas não podem disparar contra o alvo rastreado por radar porque ele não cruza o espaço aéreo romeno.

O impasse se repete agora, com desfecho mais grave. As forças romenas não podem abrir fogo sobre o território da Ucrânia sob risco de ampliar o conflito, enquanto drones russos usam o limite da fronteira como corredor para atingir portos e infraestrutura do país vizinho. “As implicações da guerra ilegal de agressão não param na fronteira”, afirma Rutte, ao comentar o ataque em Galati.

Outros aliados lidam com dilemas semelhantes. Em 2025, a Polônia acusa a Rússia de atingir com drones um campo na vila de Osiny, a 130 quilômetros de Varsóvia, e derruba duas aeronaves suspeitas sobre seu território no mês seguinte. O então primeiro-ministro Donald Tusk aciona o Artigo 4 do Tratado do Atlântico Norte, que prevê consultas entre os membros quando um país se sente ameaçado. Estados do Báltico também relatam, nos últimos meses, incidentes com drones ucranianos de longo alcance que saem de rota após sofrer interferência de sinais russos.

No curto prazo, o ataque em Galati reforça a pressão por sistemas antidrones mais densos e integrados, capazes de identificar, rastrear e neutralizar aeronaves pequenas e baratas em poucos minutos. A Romênia insiste, nas conversas com a Otan, para que a transferência desse tipo de tecnologia seja acelerada e priorize as cidades próximas à fronteira, onde vivem centenas de milhares de pessoas.

Diplomacia em alerta e incerteza para a população

O governo romeno ainda avalia se pedirá consultas formais à Otan, como fez a Polônia ao acionar o Artigo 4 em 2025. O gesto não implica resposta militar automática, mas costuma servir como alerta político de que a linha vermelha da aliança está sob teste. Por ora, Bucareste aposta na combinação de pressão diplomática, reforço da defesa aérea e coordenação com vizinhos como Ucrânia, Moldávia e Hungria.

Moradores de Galati convivem com a sensação de que o conflito se aproxima a cada mês. Desde 2022, sirenes de alerta aéreo soam em cidades do lado ucraniano do Danúbio, e janelas tremem com explosões em portos bombardeados. Agora, com um drone caindo diretamente sobre um prédio residencial, a guerra deixa de ser apenas uma cena do outro lado do rio.

A Rússia mantém silêncio público sobre o ataque e não sinaliza mudança de tática no uso de drones de fabricação iraniana, como o Geran 2, também conhecido como Shahed 136. A Ucrânia, por sua vez, usa o episódio para reforçar o apelo por mais sistemas de defesa aérea e mais munição de longo alcance, argumentando que conter Moscou em seu território é a melhor forma de proteger também os aliados.

As próximas semanas indicam se o ataque em Galati será tratado como ponto de inflexão na postura da Otan ou como mais um capítulo de uma guerra que se espalha pelas bordas sem romper, por enquanto, a barreira de um confronto direto. Enquanto chancelerias calibram comunicados e generais desenham novas camadas de defesa, a população na fronteira leste da aliança aprende, na prática, que a distância entre uma guerra “regional” e o próprio quintal pode caber em quatro minutos de radar.

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