Cruzeiro fura retranca do Boca, vence no Mineirão e assume a ponta
O Cruzeiro derrota o Boca Juniors por 1 a 0 nesta terça-feira (28), no Mineirão, e assume a liderança do Grupo D da Libertadores, com seis pontos. O gol do colombiano Néiser Villarreal aos 37 minutos do segundo tempo quebra a retranca argentina e faz explodir os quase 60 mil torcedores em Belo Horizonte.
Cruzeiro sobrevive à catimba e encontra o gol na marra
O Mineirão recebe 59.126 torcedores em clima de decisão. O Boca chega a Belo Horizonte ostentando 14 partidas de invencibilidade na temporada argentina e um ataque festejado. Em campo, porém, o time xeneize abandona qualquer ambição ofensiva e aposta na catimba, nas faltas duras e nas paralisações para esfriar o jogo.
O primeiro tempo é travado, irritante para quem assiste e desgastante para quem joga. Cada contato vira reclamação, queda demorada ou tentativa de simulação. O árbitro uruguaio Estebán Ostojich entra no roteiro e distribui cartões em série, sem estabelecer um critério claro. Cruzeiro e Boca se revezam em entradas fortes, e o futebol some em meio às discussões.
O Cruzeiro tenta se manter fiel à bola. Matheus Pereira busca o jogo, Gerson tenta acelerar pelo meio e Kaio Jorge oferece movimentação na frente. A equipe mineira, porém, esbarra na marcação compacta argentina e na própria ansiedade. A chance mais polêmica surge quando Kaio Jorge tem a camisa puxada na entrada da área, em lance que o time celeste reclama como pênalti. O juiz manda seguir, e o VAR não interfere.
O jogo muda nos acréscimos da etapa inicial. Bareiro, centroavante do Boca, já advertido com cartão amarelo, comete falta em Christian na intermediária. O volante cruzeirense exagera na queda, simula uma agressão mais grave, e Ostojich cai na encenação. Sai o segundo amarelo e o vermelho para o argentino. O Boca, vítima da própria estratégia de catimba, volta do intervalo com um jogador a menos.
Com superioridade numérica, o Cruzeiro volta ao segundo tempo obrigado a assumir o protagonismo. O time avança as linhas, aperta a saída de bola e empurra o Boca para o próprio campo. A equipe argentina responde com um ferrolho clássico: duas linhas recuadas, zagueiros dentro da área e chutões para longe. Até os 30 minutos, o Boca não finaliza uma vez sequer ao gol de Otávio.
O Cruzeiro, apesar do domínio territorial, demora a transformar posse de bola em perigo real. A primeira grande oportunidade surge aos 17 minutos. Em escanteio cobrado por Matheus Pereira, Fabrício aparece livre na pequena área, mas cabeceia para fora, desperdiçando chance clara. O lance acende o estádio e empurra o time para uma pressão contínua.
Gol tardio recoloca Cruzeiro no centro da disputa
Com o relógio avançando e o 0 a 0 insistindo no placar, o torcedor começa a demonstrar impaciência. A equipe de Artur Jorge, no entanto, não abandona o plano de rodar a bola e desgastar o adversário. Arroyo arrisca de fora da área e manda um chute rente à trave, aos 30 minutos. Logo depois, Kaio Jorge recebe dentro da área e finaliza de bico, para defesa difícil de Brey com o pé.
O gol surge aos 37 minutos, na melhor jogada coletiva do Cruzeiro na noite. Matheus Pereira encontra Kaio Jorge na direita da área com um passe preciso, rompendo duas linhas de marcação. O atacante domina, levanta a cabeça e cruza rasteiro para o meio. Villarreal, que entra aos 29 minutos no lugar de Lucas Romero, aparece na medida e empurra para o fundo da rede. O Mineirão explode em alívio e festa depois de mais de uma hora de frustração.
O colombiano vive noite de protagonista improvável. Contratado para ampliar opções ofensivas, ele aproveita a chance em um cenário de extrema pressão. O gol não vale apenas três pontos. Em um grupo equilibrado, coloca o Cruzeiro no topo da tabela, empatado com o próprio Boca, ambos com seis pontos, mas com a Raposa em vantagem pelos critérios de desempate e pelo resultado direto em casa.
“Sabíamos que seria um jogo de contato, de muita catimba. O importante era manter a cabeça no lugar e não perder a concentração”, admite Matheus Pereira na saída de campo. O meia é um dos alvos preferenciais dos argentinos na marcação e também na confusão que se instala após o apito final.
Os minutos finais são marcados por empurra-empurra e discussões generalizadas. Jogadores do Boca partem para cima de Matheus Pereira e de outros cruzeirenses, e a arbitragem precisa intervir com o auxílio dos seguranças. A tensão no gramado antecipa o clima do duelo de volta em Buenos Aires, que deve ocorrer em maio, ainda pela fase de grupos.
O resultado ganha ainda mais peso pelo contexto do grupo. Universidad Católica, com três pontos, visita o Barcelona de Guayaquil, que ainda não pontuou, para fechar a terceira rodada. Se houver empate no Equador, Cruzeiro e Boca terminam a noite isolados na ponta, com vantagem importante na corrida por duas vagas nas oitavas de final.
Mineirão volta a pesar e reacende confiança celeste
A vitória também tem valor simbólico para o Cruzeiro. Depois de anos de instabilidade esportiva e administrativa, a equipe volta a viver um Mineirão cheio em jogo grande de Libertadores e responde com resultado. O público acima de 59 mil pagantes, em plena fase de grupos, reforça o reencontro do torcedor com o clube em cenário continental.
Do ponto de vista esportivo, o time de Artur Jorge ainda mostra limitações na criação contra defesas muito fechadas. A dificuldade para furar a retranca do Boca até os 30 minutos do segundo tempo expõe um problema recorrente no futebol brasileiro recente. O Cruzeiro, porém, encontra soluções dentro do elenco, com a entrada de Villarreal e Bruno Rodrigues dando novo fôlego ao ataque.
Para o Boca, a derrota funciona como alerta. A equipe argentina, que chega ao Mineirão com status de melhor time do país, deixa o Brasil sem conseguir chutar a gol no segundo tempo e dependente de um estilo de jogo baseado mais no confronto físico do que na construção. A expulsão de Bareiro, ainda na etapa inicial, compromete o plano de jogo e alimenta o debate interno sobre o limite da catimba em jogos de Libertadores.
O equilíbrio da chave aumenta o peso de cada detalhe. Um cartão mal administrado, uma simulação exagerada, um erro de posicionamento defensivo podem definir não apenas uma partida, mas a campanha inteira. A atuação contestada da arbitragem uruguaia em Belo Horizonte, com critérios irregulares na distribuição de cartões e um possível pênalti ignorado em Kaio Jorge, entra para a lista de temas sensíveis que cercam o torneio.
Duelo em Buenos Aires promete clima de decisão
O calendário aponta agora para a partida de volta, na Bombonera, em Buenos Aires, que passa a ter contornos de decisão antecipada no Grupo D. Com Cruzeiro e Boca empatados em seis pontos, qualquer vantagem conquistada em casa pode ser determinante para a liderança da chave e para um cruzamento teoricamente mais favorável no mata-mata.
O Cruzeiro volta de Belo Horizonte com a confiança renovada, mas ciente de que o cenário na Argentina será mais hostil. A Bombonera costuma potencializar o estilo intenso e provocador do Boca, e a lembrança da expulsão de Bareiro e da confusão no apito final no Mineirão tende a inflamar ainda mais o ambiente. A noite desta terça-feira mostra que a Raposa tem força para suportar a catimba e fazer o resultado. Resta saber se, em um contexto ainda mais adverso, o time conseguirá repetir a maturidade exibida no Mineirão.
