Conheça a lenda da Loira do Bonfim, a fantasma que assombrava BH
História de uma mulher misteriosa que pedia carona e desaparecia no cemitério atravessa gerações e faz parte do folclore da capital mineira

Uma mulher loira, de vestido branco, aparece durante a madrugada nas ruas de Belo Horizonte. Ela pede carona a um motorista e diz que precisa voltar para casa. O homem aceita levá-la, mas, ao chegar ao endereço indicado, descobre que o destino é o Cemitério do Bonfim. Antes que consiga entender o que está acontecendo, a passageira desaparece.
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Essa é uma das versões mais conhecidas da lenda da Loira do Bonfim, personagem que há mais de um século faz parte do imaginário popular de Belo Horizonte. Neste sábado, 31 de outubro, quando é celebrado o Halloween, a história volta a ganhar espaço entre os tradicionais casos de assombração da capital mineira.
O relato mistura mistério, medo e a antiga vida boêmia da cidade. Embora não existam provas de aparições sobrenaturais, a personagem atravessou gerações e se tornou uma das figuras mais conhecidas do folclore belo-horizontino.
Como surgiu a lenda da Loira do Bonfim?
A história é anterior ao período em que ganhou popularidade entre motoristas de táxi e frequentadores da noite de Belo Horizonte, nas décadas de 1940 e 1950.
Segundo uma publicação da Prefeitura de Belo Horizonte sobre o patrimônio cultural dos bairros Lagoinha, Bonfim e Carlos Prates, a versão mais antiga conhecida da lenda remonta a 1919.
Um dos relatos, reproduzido pelo Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte, conta que uma mulher loira caminhava apressadamente pelo bairro Lagoinha quando encontrou um guarda civil em serviço.
Ela pediu ao policial que a acompanhasse até sua residência. O guarda aceitou e seguiu com a desconhecida pela Rua Bonfim. Ao chegarem diante do cemitério, a mulher agradeceu pela companhia, afirmou que morava ali e atravessou o portão fechado.
O episódio passou a ser contado pelos moradores e ganhou diferentes versões ao longo dos anos.
O fantasma que assustava taxistas e passageiros de bondes
Nas décadas de 1940 e 1950, quando a região da Lagoinha concentrava parte da vida noturna da capital, a história ganhou novos personagens.
A versão mais popular descreve uma jovem bonita, de cabelos loiros e roupas brancas, que aparecia por volta das duas horas da madrugada. Ela se aproximava de homens que frequentavam os bares ou aguardavam o bonde e pedia companhia para voltar para casa.
Encantados pela desconhecida, alguns aceitavam acompanhá-la. O passeio, porém, terminava sempre no mesmo lugar: o Cemitério do Bonfim.
Em outros relatos, a mulher entrava em um táxi, informava o endereço e desaparecia assim que o veículo chegava ao destino. Conta a tradição popular que alguns motoristas passaram a evitar corridas noturnas para a região por medo de encontrar a passageira misteriosa.
A história se espalhou pela cidade e acompanhou as mudanças no transporte e nos hábitos dos moradores. O que começou como um relato sobre uma mulher acompanhada por um guarda passou a envolver bondes, taxistas e frequentadores da noite.
O que a lenda revela sobre a história de Belo Horizonte?
O principal endereço da história existe desde os primeiros meses de Belo Horizonte. Inaugurado em 8 de fevereiro de 1897, o Cemitério do Bonfim é o mais antigo da capital mineira e foi o único cemitério da cidade até a década de 1940.
Localizado na região Noroeste, o espaço reúne túmulos históricos, esculturas, mausoléus e obras de arte funerária que ajudam a contar a trajetória da cidade desde sua fundação.
O Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG) reconhece a lenda da Loira do Bonfim como uma das expressões da tradição oral associadas ao cemitério.
A personagem também chegou à literatura. Em 2021, a escritora Paloma Bernardino Braga lançou o livro Noiva Entre Túmulos, inspirado na história e ambientado na Belo Horizonte dos anos 1940.
A popularidade da lenda é tamanha que visitantes do cemitério ainda demonstram curiosidade sobre o local onde a mulher estaria sepultada.
Em entrevista ao NC News, a historiadora formada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Joana Cruz, conta uma das curisosidades do Bonfim.
“Muitas pessoas que visitam o cemitério perguntam onde está enterrada a Loira do Bonfim. Mas não existe um túmulo identificado que possamos apontar como sendo dela. Essa é uma história que atravessou gerações e se tornou parte do imaginário popular de Belo Horizonte. A lenda mostra como a memória de uma cidade também é construída por histórias que as pessoas contam e preservam ao longo do tempo. O túmulo da loira está na nossa imaginação”, conclui.


