Confronto entre torcida do Peñarol e polícia marca noite de Libertadores
Torcedores do Peñarol entram em confronto com a polícia no Estádio Campeón del Siglo, em Montevidéu, após o empate por 1 a 1 com o Corinthians nesta quarta-feira (22). A confusão ocorre no entorno e nas arquibancadas do estádio e é contida com uso de força e gás lacrimogêneo.
Mudança em protocolo acende estopim no Campeón del Siglo
O clima degrada rapidamente depois do apito final, que confirma a eliminação precoce do Peñarol na fase de grupos da Libertadores. Com 3 pontos conquistados em cinco rodadas, sem nenhuma vitória, o clube se vê na lanterna do Grupo E e assiste a frustração transbordar das arquibancadas para o campo.
A tensão cresce quando a segurança altera o protocolo de escoamento do público. Em vez de reter a torcida visitante, como é praxe em partidas internacionais, agentes impedem a saída dos uruguaios enquanto os cerca de 2 mil corintianos deixam o estádio. A inversão irrita o setor mais popular do Campeón del Siglo, atrás de um dos gols, ocupado majoritariamente por torcedores organizados.
Relatos de quem acompanha o jogo no local apontam para discussões acaloradas com policiais nas escadarias e grades de separação. O pedido para liberar o público não encontra resposta, e parte da torcida responde com xingamentos e arremesso de objetos. A partir daí, o confronto se instala.
Policiais avançam sobre as primeiras fileiras e usam cassetetes para dispersar grupos que insistem em forçar a saída. Na sequência, o gás lacrimogêneo se espalha pelo setor, forma nuvens sobre as arquibancadas e empurra famílias e crianças para os corredores internos. Quem está mais próximo da grade de acesso ao gramado desce em direção ao campo.
Alguns torcedores saltam o alambrado e invadem o gramado em busca de ar e socorro, em cenas que lembram velhos episódios de violência no futebol sul-americano. Imagens registradas por celulares mostram gente com o rosto coberto, chorando e se afastando do gás, enquanto outros seguem discutindo com policiais alinhados na beira do campo.
Segurança contestada e clima de insegurança reforçado
A operação de segurança do jogo entra no centro da controvérsia ainda na madrugada. A decisão de inverter o protocolo padrão de saída das torcidas levanta dúvidas sobre coordenação entre clube, polícia e organizadores. Em estádios brasileiros e em outras praças da Libertadores, a regra mais comum mantém o torcedor visitante retido de 20 a 40 minutos até a evacuação dos mandantes.
Especialistas em segurança de estádios ouvidos pela imprensa uruguaia classificam a mudança como um risco desnecessário em noite de eliminação. O torcedor que acompanha a campanha vê o time somar apenas 20% dos pontos possíveis na fase de grupos e fica preso nas arquibancadas após um resultado que encerra o sonho continental ainda em maio.
Um torcedor ouvido pela TV local resume o sentimento de revolta: “Seguraram a nossa torcida como se fôssemos nós o problema. Ninguém explicou nada. Quando começou o gás, só queríamos sair”. O efeito do lacrimogêneo atinge também quem não participa da confusão, o que amplia a sensação de injustiça e a crítica ao uso de força.
O Corinthians deixa o estádio sob forte escolta policial, sem registro de incidentes graves envolvendo sua torcida. O contraste reforça a percepção de que a tensão maior se concentra entre uruguaios e forças de segurança, e não entre torcedores rivais. Nas redes sociais, vídeos da correria e da fumaça dentro do Campeón del Siglo viralizam em poucos minutos e alimentam debates sobre a escalada de violência em jogos de grande porte.
O episódio volta a expor a vulnerabilidade da estrutura de segurança de eventos esportivos no continente. Em abril, autoridades locais já discutiam protocolos após registros de brigas em jogos do Campeonato Uruguaio. Agora, com a vitrine da Libertadores, a falha no planejamento ganha projeção internacional.
Investigações, punições e pressão por mudanças
A confusão abre espaço para investigações sobre a conduta policial e o protocolo adotado para a partida desta quarta-feira. O Peñarol, anfitrião do jogo, pode ser alvo de sanções disciplinares por parte da Conmebol, que costuma aplicar multas em dólares e determinar perda de mando de campo em casos de invasão de gramado e distúrbios nas arquibancadas.
A federação uruguaia e as autoridades de segurança pública também são pressionadas a explicar quem decide pela mudança de protocolo e por que a torcida local é retida em um contexto de frustração esportiva. A discussão deve envolver promotores, representantes do governo e dirigentes dos clubes, em um cenário em que a violência em estádios volta a pautar agendas legislativas e políticas.
Para o torcedor do Peñarol, o impacto é imediato e duplo. No campo, a equipe encerra a participação na fase de grupos da Libertadores sem vitórias e com apenas 3 pontos em 15 disputados, desempenho que alimenta protestos e cobranças. Fora dele, o Campeón del Siglo corre o risco de sofrer restrições de público ou portões fechados em competições continentais, o que afetaria bilheteria e ambiente de jogo.
O episódio pressiona clubes e organizadores a reverem a gestão de torcidas em jogos internacionais. Autoridades de segurança defendem há anos uma padronização de protocolos, com definição clara de rotas de saída, tempos de retenção e responsabilidades de cada agente. As cenas desta noite, porém, indicam que a distância entre o papel e a prática ainda é grande.
O futuro imediato passa pela apuração de responsabilidades e pelo eventual anúncio de novas diretrizes para partidas da Libertadores no Uruguai. A dúvida que permanece é se o choque desta quarta-feira será suficiente para mudar rotinas arraigadas ou se o futebol sul-americano seguirá convivendo com o mesmo enredo de improviso, tensão e risco a cada jogo decisivo.
