Comer fora pesa no bolso, e 74% dos brasileiros reduzem gastos com alimentação, diz pesquisa
O mesmo levantamento aponta que um em cada três brasileiros com expediente presencial, opta por levar marmita com frequência

Comer fora de casa tem exigido cada vez mais atenção ao orçamento dos brasileiros. Uma pesquisa da consultoria Galunion mostra que 74% dos consumidores entrevistados reduziram os gastos com alimentação fora do lar nos últimos seis meses. O levantamento aponta uma mudança nas escolhas de quem precisa conciliar as despesas com alimentação, moradia e outros compromissos financeiros.
Apurado entre 4 e 21 de setembro, com 1.057 entrevistados, os dados sugerem que entre os brasileiros que diminuíram as despesas com alimentação fora de casa, 30% apontaram o aumento dos preços e a piora da relação custo-benefício como motivos. Outros 27% citaram o crescimento dos compromissos financeiros, enquanto 22% disseram ter priorizado objetivos como poupar ou investir.
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A mesma pesquisa também identificou que um em cada três brasileiros que sai de casa de cinco a sete dias por semana costuma levar marmita para o almoço. A comida preparada no próprio lar aparece como uma alternativa para quem busca controlar as despesas, embora os restaurantes continuem fazendo parte da rotina de uma parcela expressiva da população.
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Preço do quilo sobe e consumidor busca alternativas
Em Belo Horizonte, o morador Raphael está entre os consumidores que passaram a observar com mais atenção os preços cobrados pelos restaurantes. Acostumado a almoçar fora praticamente todos os dias, ele relata que o aumento no valor do quilo em um dos estabelecimentos que frequenta já interfere no orçamento.
“O restaurante que eu almoço, por exemplo, o preço do quilo passou de R$ 72,90 para R$ 83,90 no intervalo de um ano, o que dá um impacto no final do meu orçamento”, observa.
O reajuste relatado pelo funcionário público, Raphael Matos representa um aumento de aproximadamente 15,1% em um ano. Para quem depende de restaurantes durante a semana, a diferença pode pesar nas despesas mensais, especialmente quando a alimentação é um gasto recorrente.
“Por isso eu tenho buscado alternativas onde eu consiga me alimentar bem com preço justo, afinal comer fora de casa tem ficado cada vez mais caro”, acrescenta.
A preocupação de Raphael encontra paralelo nos resultados da pesquisa. Entre os entrevistados, 68% consideram a comida preparada em casa uma opção para o almoço nos dias em que saem, seja consumida no próprio domicílio ou levada em marmita. Restaurantes foram citados por 51%, enquanto 28% mencionaram marmitas ou pratos feitos comprados prontos e 27% apontaram o delivery.
Pressão no orçamento também afeta bares e restaurantes

Para o economista Tiago Melo, a redução dos gastos com refeições fora de casa reflete a pressão das despesas cotidianas sobre a renda das famílias. Segundo ele, o consumidor precisa dividir o salário entre alimentação, moradia, energia, impostos e outras contas, o que reduz a parcela disponível para gastos em restaurantes. “Não é simplesmente uma mudança de hábito, é uma questão de poder de compra”, avalia.
O economista também chama a atenção para as consequências desse comportamento sobre os estabelecimentos comerciais. Na avaliação dele, o aumento dos custos de operação, combinado com a retração do consumo, dificulta a atividade de bares e restaurantes.
“O problema é que o governo não pode tratar o crescimento do consumo como discurso enquanto famílias precisam fazer malabarismo para fechar as contas no final do mês. Os restaurantes também sofrem se os custos aumentam, os preços sobem, o consumidor recua e há uma engrenagem que todos perdem”, diz Melo.
Para o especialista, a carga tributária, as despesas operacionais e o custo elevado do crédito também pressionam os empresários. Ele defende medidas que favoreçam os investimentos, ampliem a produtividade e contribuam para o crescimento real da renda da população.
Na avaliação de Melo, sem avanços no equilíbrio fiscal e no controle da inflação, os próximos quatro anos poderão ser especialmente difíceis tanto para os consumidores quanto para os negócios do setor de alimentação.
Marmita ganha espaço na rotina dos brasileiros

A pesquisa da Galunion mostra que a busca por economia também está alterando a forma como os brasileiros organizam as refeições. Levar comida de casa, procurar estabelecimentos com preços menores e avaliar o custo-benefício das opções disponíveis são alternativas que ganham relevância no orçamento.
O movimento ocorre em um setor que precisa lidar com a redução das despesas dos clientes sem deixar de arcar com despesas operacionais, impostos e custos de mão de obra. Para os empresários, a dificuldade está em equilibrar os preços cobrados dos clientes com os gastos necessários para manter os estabelecimentos funcionando.
Segundo Tiago Melo, o comportamento dos consumidores também serve de alerta para o setor, que precisa se adaptar à busca por refeições mais acessíveis.
“Para bares e restaurantes isso é um alerta: o cliente não desapareceu, mas ele está recalculando cada gesto, a rota e os estabelecimentos consequentemente sofrem com essa mudança de hábito”, comenta o economista.
Questionado sobre os impactos dessa mudança de hábito no orçamento das famílias, Melo avalia que a decisão de preparar refeições em casa pode ajudar a reduzir despesas. No entanto, o economista alerta que, quando essa escolha é motivada pela necessidade de economizar, ela também pode indicar uma perda do poder de compra dos brasileiros.
“O brasileiro não deveria precisar escolher entre almoçar fora ou pagar uma conta básica. No fim, a marmita pode ser uma decisão inteligente de economia, mas quando economizar se torna uma necessidade para cada vez mais pessoas, o sinal de alerta está aceso”, conclui.


