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Colômbia vota sob alta da violência em primeiro turno presidencial

A Colômbia realiza neste domingo (31) o primeiro turno da eleição presidencial em meio à maior preocupação com a segurança pública em mais de uma década. Milhões de eleitores vão às urnas pressionados pelo avanço da violência sob o governo de Gustavo Petro.

Urnas cheias em um país acuado

Desde cedo, filas se formam em colégios eleitorais de Bogotá, Medellín, Cali e de pequenas cidades em regiões antes consideradas periféricas no debate nacional. A participação tende a superar os 54% registrados em 2022, segundo projeções de autoridades eleitorais, impulsionada pelo temor de um novo ciclo de conflito armado e do fortalecimento do crime organizado.

Mais de 39 milhões de colombianos estão aptos a votar, em cerca de 12,8 mil postos de votação espalhados pelo país. O pleito é acompanhado por missões de observação da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da União Europeia, além de redes locais de monitoramento. O foco dessas equipes se concentra em departamentos mais vulneráveis, como Cauca, Nariño, Chocó e Norte de Santander, onde a presença de grupos armados ilegais voltou a crescer desde 2023.

Autoridades de segurança mobilizam dezenas de milhares de policiais e militares para tentar garantir o deslocamento dos eleitores. O Ministério da Defesa admite aumento de ataques contra lideranças comunitárias e candidatos locais, sobretudo em áreas rurais. Informes internos apontam que, em algumas regiões, eleitores recebem ameaças diretas para não sair de casa ou para votar em determinados candidatos, repetindo práticas que o país associava aos anos mais duros da guerra interna.

Violência vira eixo central da disputa

O crescimento da violência durante o mandato de Gustavo Petro, iniciado em agosto de 2022, transforma a eleição em um plebiscito sobre a estratégia de segurança do primeiro governo de esquerda da história recente colombiana. O presidente chegou ao poder com a promessa de uma política de “paz total”, baseada em negociações com guerrilhas e grupos armados, redução da ênfase militar e mais investimentos sociais em áreas historicamente abandonadas.

Os resultados, porém, alimentam um clima de frustração. Dados consolidados por centros de estudos independentes mostram aumento de massacres e deslocamentos forçados em 2023 e 2024, com algumas estimativas falando em alta de dois dígitos em determinados departamentos. Em regiões de fronteira, facções ligadas ao narcotráfico disputam rotas de exportação de cocaína, enquanto dissidências das antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) retomam controle territorial em municípios que, poucos anos atrás, celebravam a redução dos confrontos armados.

Em bairros populares, o clima é de descrença em relação à capacidade do Estado de impor ordem. “Vivemos com medo de sair depois do fim da tarde”, relata uma comerciante de 42 anos em Soacha, periferia de Bogotá, que pede para não ter o nome divulgado. “A gente vota esperando mudança, mas toda semana há notícias de tiroteio, extorsão, gente desaparecida.” O testemunho ecoa em outras cidades médias, onde a presença de milícias locais e redes criminosas se combina com desemprego persistente e desconfiança nas instituições.

Na campanha, candidatos apostam em diagnósticos opostos. Aliados de Petro defendem ajustes na estratégia de “paz total”, mas insistem na combinação de negociação e políticas sociais. Rivais prometem endurecer o combate ao crime, reforçar o aparato militar e revisar acordos com grupos armados. Um assessor de uma das chapas de oposição resume a disputa: “O eleitor está menos interessado na ideologia e mais em saber quem consegue baixar o número de mortos nos próximos quatro anos”.

Impacto interno e reflexos regionais

O resultado do primeiro turno define não apenas a composição do segundo turno, marcado para junho, como também o tom das conversas com parceiros internacionais. A Colômbia é peça-chave em acordos de segurança hemisférica, sobretudo com Estados Unidos e países vizinhos, por causa do narcotráfico, da migração e do controle de fronteiras. Uma eventual guinada mais dura na segurança pode aproximar Bogotá de estratégias anteriores, mais alinhadas à chamada “guerra às drogas”.

Um governo alinhado à continuidade de Petro tende a insistir na reforma policial, na revisão de tratados de erradicação de cultivos ilícitos e no fortalecimento de políticas de desenvolvimento rural. Mudança de comando pode recolocar em primeiro plano a cooperação militar clássica, com mais operações conjuntas, reforço de bases estratégicas e metas rígidas de redução da produção de coca. Em ambos os cenários, a pressão interna por resultados rápidos dificulta políticas estruturais de longo prazo.

A instabilidade afeta também a economia. Investidores monitoram a escalada da violência e o rumo da política fiscal. O crescimento colombiano recua em relação ao período anterior à pandemia, e setores como mineração, petróleo e infraestrutura calculam custos adicionais com segurança privada e interrupções logísticas. Em cidades turísticas, empresários temem que o noticiário sobre ataques afaste visitantes estrangeiros e reduza o fluxo que ajudou a sustentar o país nos últimos anos.

Nesse cenário, minorias e populações rurais seguem mais expostas. Comunidades indígenas e afrodescendentes em áreas de floresta relatam maior pressão de grupos armados e aumento do recrutamento de jovens. Líderes sociais, defensores de direitos humanos e jornalistas regionais continuam entre os alvos mais frequentes de ameaças, o que compromete a fiscalização local dos poderes públicos e fragiliza a democracia na base.

Apuração, incertezas e próximos passos

A contagem preliminar de votos começa logo após o fechamento das urnas, previsto para o fim da tarde deste domingo. A autoridade eleitoral promete divulgar resultados parciais ainda na noite de 31 de maio, com atualização contínua dos percentuais. Observadores indicam que uma diferença apertada entre os primeiros colocados pode acirrar disputas jurídicas e políticas nas próximas semanas, em um país acostumado a contestar resultados em regiões de presença armada.

Organismos internacionais cobram transparência total na transmissão dos dados e proteção reforçada a fiscais de todas as campanhas em zonas de risco. Porta-vozes da missão da OEA afirmam, em caráter reservado, que monitoram relatos de intimidação de eleitores em ao menos quatro departamentos. “A integridade do voto em áreas sob influência armada será o principal ponto de atenção”, diz um integrante da missão, sob condição de anonimato.

Independentemente de quem avance para o segundo turno, o próximo presidente assume em 2026 com uma equação delicada: reduzir a violência, preservar a democracia e reorganizar a economia. O mandato que começa no ano que vem terá quatro anos para responder a uma população cansada de promessas e cada vez mais conectada, graças à expansão da internet móvel, a denúncias e casos de abuso.

A eleição deste domingo encerra uma campanha tensa, marcada por discursos duros, denúncias cruzadas e promessas ambiciosas. Abre, ao mesmo tempo, uma fase de negociações discretas entre partidos, forças regionais e atores internacionais. A pergunta que mobiliza Bogotá, Washington, Brasília e Bruxelas permanece sem resposta clara: quem conseguirá devolver à Colômbia a sensação de segurança perdida sem aprofundar a polarização política que hoje domina o país?

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