Chuva de meteoros Líridas terá pico visível no Brasil nesta quinta
A chuva de meteoros Líridas atinge o pico de atividade na madrugada desta quinta-feira (23), por volta das 2h, horário de Brasília. Astrônomos estimam até 18 meteoros por hora, com ótimas condições de observação em todo o Brasil, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.
Céu escuro e fenômeno antigo favorecem espetáculo
A Líridas retorna todos os anos em abril, mas 2026 oferece um cenário raro para quem decide virar a noite olhando para o céu. A Lua está em fase crescente, com cerca de 27% de iluminação, e se põe ainda no início da noite. A madrugada fica mais escura, o que aumenta a nitidez dos rastros luminosos que cortam o firmamento.
O Observatório Nacional destaca que a combinação de baixa luminosidade lunar e período seco em parte do país cria uma janela privilegiada. “O pico ocorre dois dias antes do Quarto Crescente, o que faz com que a Lua se ponha ainda no início da noite. Assim, a madrugada permanece escura, criando um cenário ideal para observação”, afirma o astrônomo Marcelo De Cicco, do Observatório Nacional.
Quem está nas regiões Norte e Nordeste tende a encontrar ainda menos interferência de nuvens nesta época do ano, o que reforça a visibilidade. No Sudeste e no Sul, a chance de céu encoberto é maior, mas brechas de tempo firme ainda permitem acompanhar o fenômeno sem sair de casa ou da cidade.
A chuva de meteoros começa de forma discreta no fim da noite de quarta (22) e ganha força na virada para a madrugada, até atingir o ápice por volta das 2h. Depois, a atividade diminui lentamente, mas ainda oferece boas chances de observação até pouco antes do amanhecer.
Como observar e por que as Líridas chamam atenção
Para acompanhar o fenômeno, não é preciso telescópio nem câmera profissional. Astrônomos recomendam apenas um local escuro, com pouca poluição luminosa, e algum tempo de adaptação dos olhos à escuridão. A orientação é olhar para o horizonte na direção Norte e ter paciência: os meteoros aparecem em intervalos irregulares, muitas vezes em grupos curtos.
As Líridas são classificadas como uma chuva de atividade moderada, com média de cerca de 18 meteoros por hora em condições ideais. Em alguns anos, porém, surpreendem com picos repentinos e concentrações mais intensas. Cada meteoro viaja a cerca de 49 quilômetros por segundo e produz um risco rápido e definido, às vezes com pequenos flashes ou trilhas persistentes.
O que o público vê é o resultado de um encontro antigo entre a Terra e os vestígios do cometa Thatcher. O corpo celeste leva aproximadamente 400 anos para completar uma volta ao redor do Sol. Em cada passagem, solta grãos de poeira e pequenos fragmentos de rocha, que ficam espalhados ao longo de sua órbita. Quando o planeta cruza essa trilha, essas partículas entram na atmosfera e queimam a dezenas de quilômetros de altura, produzindo o traço luminoso chamado popularmente de estrela cadente.
Registros históricos apontam observações das Líridas há pelo menos 2.700 anos, o que faz dessa uma das chuvas de meteoros mais antigas já documentadas pela humanidade. O nome vem da constelação de Lira, na região do céu de onde os meteoros parecem se originar quando projetados ao contrário, embora possam riscar qualquer parte da abóbada celeste.
Impacto científico, cultural e econômico no Brasil
A madrugada desta quinta mobiliza astrônomos profissionais, amadores e curiosos em diferentes estados. Grupos e clubes de astronomia organizam encontros em áreas afastadas dos grandes centros, como mirantes, praias e sítios, para aproveitar a escuridão. A expectativa é de aumento no fluxo de visitantes em cidades pequenas que investem em turismo de observação do céu, um nicho ainda modesto no país, mas em crescimento.
O fenômeno também movimenta instituições científicas e espaços de divulgação da ciência. Observatórios públicos, planetários e universidades preparam lives, transmissões em tempo real e conteúdos educativos em redes sociais. Explicações sobre cometas, órbitas e o ciclo de vida do Sistema Solar ganham espaço em vídeos curtos, podcasts e programas de rádio noturnos.
Para pesquisadores, momentos como este ajudam a aproximar o público da ciência em um contexto de telas e distrações constantes. A experiência de passar alguns minutos olhando para o céu escuro, em silêncio, funciona como convite à curiosidade sobre a origem desses fenômenos e sobre o próprio lugar da Terra no cosmos. O baixo custo de entrada — basta olhar para cima — torna o evento mais democrático do que outros espetáculos naturais.
O interesse renovado em fenômenos astronômicos também alimenta iniciativas educacionais. Professores de ciências usam a chuva de meteoros como gancho para discutir gravidade, movimento da Terra e história da observação do céu em sala de aula. Em escolas que conseguem organizar saídas noturnas, o encontro com as Líridas transforma conteúdos abstratos em experiência direta, visível e memorável.
O que esperar das próximas noites de observação
A noite de quinta concentra o maior número de meteoros, mas a atividade das Líridas não se limita a algumas horas. A chuva se estende por vários dias em torno do pico, o que permite novas tentativas de observação até o fim de semana, ainda que com menor intensidade. Quem perder o horário central desta madrugada ainda encontra alguma chance de ver rastros isolados nas próximas noites.
O cometa Thatcher só volta a se aproximar do Sol daqui a algumas gerações, mas a trilha que ele deixou segue cruzando o caminho da Terra todos os anos. A Líridas volta sempre em abril, com variações de intensidade, competindo com nuvens, luz urbana e fases da Lua. Enquanto cidades brasileiras discutem políticas de iluminação pública e de preservação de céus escuros, eventos como o desta quinta reforçam a sensação de que o país ainda tem vastas áreas onde a noite permanece, de fato, escura. A pergunta que permanece é por quanto tempo essa janela para o Universo continuará tão acessível a olho nu.
