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Caco Barcellos mostra a guerra no Irã pelas ruas de Teerã

Aos 76 anos, de bengala, Caco Barcellos entra em Teerã e revela, em reportagem exibida em 12 de abril de 2026 no “Fantástico”, o cotidiano da guerra no Irã. Ao lado do repórter Thiago Jock, ele atravessa fronteiras, funerais e escombros para ouvir o que moradores têm a dizer em meio aos bombardeios.

Guerra, ruas vigiadas e um país sob bloqueio

Teerã acorda sob sirenes, luto e incerteza quando a equipe brasileira chega ao país. A guerra envolve ataques de mísseis, bloqueios econômicos e a promessa dos Estados Unidos de fechar todos os portos iranianos já na segunda-feira. Dentro desse tabuleiro geopolítico, a reportagem tenta deslocar o foco das cúpulas de poder para quem sente a explosão no quintal de casa.

O Irã executa pelo menos 1.639 pessoas em 2025, maior número desde 1989, segundo entidades de direitos humanos. A estatística ajuda a explicar o clima de medo que acompanha cada bloqueio de rua, cada revista de documentos, cada olhar de desconfiança lançado à câmera. É nesse ambiente que Barcellos e Jock são autorizados a circular como uma das apenas três equipes estrangeiras credenciadas no território, ao lado de jornalistas russos e britânicos.

A autorização vem com um caderno de restrições. Há trechos em que os jornalistas não podem filmar, nem descer do carro. A decisão sobre quando gravar e quando baixar a câmera não é apenas técnica; é uma negociação constante com militares, policiais e órgãos de segurança. A cada poucos quilômetros, um novo posto de controle. A cada nova checagem, o risco de a reportagem terminar antes do tempo.

Barcellos conta que percorre cerca de 300 quilômetros pela Turquia até alcançar a fronteira iraniana. A travessia inclui filas, revista minuciosa de passaportes e uma sensação de que cada carimbo pode ser o último. O país em guerra não abre a porta com facilidade. Quando abre, exige contrapartidas: áreas proibidas, horários determinados, supervisão de guias locais vinculados ao governo.

Funerais, escombros e piqueniques sob mísseis

Teerã, diante da lente da dupla, é menos um cenário de filme de ficção científica e mais um mosaico de vidas interrompidas. Prédios residenciais aparecem reduzidos a escombros, andares inteiros colapsados, móveis expostos como se alguém tivesse arrancado a fachada com a mão. Hospitais atingidos mostram janelas estilhaçadas e corredores improvisados. Em alguns quartos, pacientes dividem espaço com sacos de areia que tentam conter o impacto de estilhaços.

Os jornalistas acompanham funerais de vítimas dos ataques. Em um deles, dezenas de pessoas se espremem em torno de um caixão coberto pela bandeira iraniana, enquanto gritos contra Israel e Estados Unidos tomam a rua. A câmera se aproxima dos rostos. Uma mulher, em lágrimas, diz que perde o irmão em um bombardeio noturno. Um jovem repete que não vê futuro, mas não pensa em sair do país. As frases curtas, arrancadas no meio da dor, dispensam análise longa.

As manifestações populares ganham corpo nas avenidas da capital. Cartazes em farsi e em inglês acusam potências estrangeiras de transformar o país em alvo. Pessoas queimam bandeiras, empunham fotos de parentes mortos e levantam celulares para registrar tudo. A presença da TV brasileira chama a atenção. Em alguns momentos, curiosos se aproximam e pedem para falar. Em outros, preferem o silêncio, com medo de retaliação.

A reportagem também registra momentos de uma normalidade teimosa. Famílias se reúnem para piqueniques em parques de Teerã, crianças correm entre árvores, vendedores ambulantes oferecem chá e doces. No horizonte, colunas de fumaça denunciam que a guerra não está longe. O contraste entre a toalha estendida no gramado e o som distante de explosões explica mais sobre a resistência iraniana que qualquer discurso oficial.

O olhar de Barcellos se mantém na rua. Ele aparece caminhando com dificuldade, apoiado em uma bengala, depois de uma cirurgia na coluna feita em meados de 2025. A imagem do repórter veterano, com quase oito décadas de vida, atravessando um cenário de guerra, viraliza. “Eu odeio quando acordo emotiva e ver o Caco Barcellos andando de bengala no Irã me faz chorar”, escreve uma internauta no X. Outro usuário resume: “Caco Barcellos com quase 80 anos indo de muleta para o Irã. Que profissional”.

Reação nas redes e debate sobre o papel do jornalismo

A matéria exibida no domingo domina as redes sociais brasileiras poucas horas depois de ir ao ar. Vídeos recortados do “Fantástico” circulam com legendas que tratam o repórter como “um dos maiores brasileiros vivos” e “o maior jornalista da história”. A exaltação não se limita à biografia. O foco das mensagens está no método: jornalismo feito no meio das pessoas, com escuta ativa e presença física no local dos fatos.

“Fez jornalismo no meio do povo, com imparcialidade e presença no local dos fatos”, comenta um perfil. Outro destaca o efeito emocional da matéria: “Poucos jornalistas mostram a realidade assim”. A reportagem, ao dar rosto e voz a civis iranianos, fura a bolha de análises abstratas sobre estratégia militar e sanções econômicas. Ao mostrar funerais, hospitais e piqueniques, o programa aproxima o espectador brasileiro de um conflito que, muitas vezes, parece distante demais para merecer atenção diária.

O impacto aparece também no debate político nas redes. As imagens de manifestações com críticas aos Estados Unidos e a Israel ajudam a reposicionar a discussão sobre o conflito para além da narrativa oficial das potências. Os vídeos de ruas destruídas e hospitais atingidos levantam perguntas incômodas sobre o custo civil das operações militares e sobre a eficácia de bloqueios como o anunciado pelos EUA contra portos iranianos.

A reportagem chega em um momento de tensão máxima. A perspectiva de bloqueio total dos portos iranianos, inclusive no Estreito de Ormuz, acende alertas globais sobre energia e alimentos. Especialistas preveem impacto direto no preço do petróleo e no custo de importação para países dependentes da região. A cobertura de Barcellos insere o telespectador brasileiro nesse cenário, ao mostrar quem, concretamente, paga a conta do cerco econômico e militar.

Memória, risco e o futuro da cobertura em zonas de guerra

A presença de um repórter de 76 anos em uma zona de conflito reacende a discussão sobre o limite entre coragem e exposição ao risco. A imagem de Barcellos mancando em ruas vigiadas, negociando cada tomada de câmera, lembra que jornalismo de guerra não é abstração heroica. Envolve planilhas de risco, treinamentos, seguros, protocolos de retirada e, ainda assim, uma margem grande de imprevisibilidade.

A entrada controlada no Irã, com acesso restrito e vigilância constante, também levanta dúvidas sobre o quanto o mundo ainda consegue ver de fato em guerras altamente monitoradas por governos e exércitos. A equipe da TV Globo está ali, mas não pode ir aonde quer, nem filmar o tempo todo. O resultado, apesar das limitações, expõe um recorte potente da realidade iraniana e abre espaço para que outras redações repensem como cobrem conflitos à distância.

A repercussão da reportagem indica que ainda há público disposto a acompanhar narrativas longas, densas e humanizadas sobre guerras. Em tempos de clipes de poucos segundos e desinformação viral, a aposta em uma matéria de vários minutos, construída em seis dias de gravação em campo, aparece como contraponto necessário. A resposta nas redes, com milhares de comentários e compartilhamentos, sinaliza demanda por jornalismo que explique, contextualize e emocione sem abrir mão da apuração.

O conflito no Irã segue sem horizonte claro de solução. Bloqueios navais, execuções em massa e ataques com mísseis mantêm o país em estado permanente de alerta. O que a reportagem de Barcellos deixa como herança imediata é uma pergunta incômoda para jornalistas, governos e espectadores: quem contará a próxima fase dessa guerra se as fronteiras para a imprensa se fecharem de vez?

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