Base de Elmano testa Cid como vice enquanto PL trava por vaga ao Senado
A menos de 16 meses das eleições de 2026, a disputa pelo governo do Ceará e pelas duas cadeiras no Senado expõe negociações tensas na base de Elmano de Freitas (PT) e na oposição. Enquanto aliados de Cid Gomes (PSB) falam em vaga certa na chapa governista, o PL vive um racha público entre Priscila Costa e Alcides Fernandes pela indicação ao Senado.
Base de Elmano consolida reeleição, mas abre flanco para o Senado
O governador Elmano de Freitas trata a reeleição como assunto encerrado dentro do PT. Ele é o “candidato natural” ao Palácio da Abolição após vencer no primeiro turno em 2022 e conta com o endosso público do senador Camilo Santana (PT) e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nos bastidores, porém, a estabilidade da cabeça de chapa contrasta com a disputa silenciosa pelas vagas ao Senado e pela vice-governadoria.
Camilo, eleito senador em 2022 com mandato até 2030, vira peça estratégica na engrenagem federal e estadual. Em março, durante evento em Brasília, Lula admitiu em tom franco que o ex-ministro da Educação segue no radar eleitoral. “O Camilo não é candidato, mas vai se afastar. Vai ficar de olho, na expectativa. Se precisar, ele é candidato”, afirmou o presidente. A fala alimenta especulações sobre um plano B para o governo do Ceará ou até para a própria sucessão presidencial, a depender do cenário de 2026.
Camilo, por ora, tenta desidratar as especulações. Em fevereiro, declarou que não pretende disputar o governo e que sua prioridade é rodar o Estado e o Nordeste para reforçar as campanhas de Lula e de Elmano. “A ideia é que eu possa me dedicar um pouco ao Ceará e também ao Nordeste e ajudar o presidente Lula na sua reeleição, por acreditar que nós não podemos ter retrocesso”, disse, ao reforçar que não cogita trocar de posto em 2026.
Enquanto o PT cuida de blindar a reeleição de Elmano, duas cadeiras do Senado entram no radar. Os mandatos de Cid Gomes (PSB) e Eduardo Girão (Novo) terminam em 2026, e ambos afirmam não ter interesse em buscar um novo período de oito anos. O gesto abre uma disputa ampla na base, com partidos como PSB, MDB, Republicanos, PSD e PDT em busca de espaço na chapa majoritária.
Cid tenta manter distância do centro do palco, mas não sai de cena. Em maio de 2025, o senador defende publicamente o apoio à reeleição de Elmano e avisa que prefere atuar nos bastidores da campanha. Apesar disso, tanto o governador quanto Camilo repetem que o pedetista histórico tem vaga garantida se decidir concorrer novamente ao Senado. Cid, por sua vez, envia sinais ambíguos: afirma não querer disputar cargo, mas indica o deputado federal Júnior Mano como opção do PSB para a cadeira.
A escolha é delicada. Júnior Mano aparece em investigações da Polícia Federal sobre suposto esquema de desvio de emendas parlamentares, fraude em licitações em mais de 50 prefeituras no Ceará, compra de votos, suborno a veículos de comunicação e ligação com duas organizações criminosas associadas ao prefeito foragido de Choró, Bebeto Queiroz (PSB). O caso pressiona o PSB a calibrar o discurso ético e a montagem da chapa num ano em que o eleitorado cobra mais rigor com o uso de recursos públicos.
MDB e Republicanos também se movem. O ex-presidente do Senado Eunício Oliveira trabalha para retomar uma cadeira em Brasília como prioridade do MDB. No Republicanos, o dirigente estadual Chiquinho Feitosa é lembrado para a disputa, enquanto o presidente do PSD, Domingos Filho, e o ex-secretário da Casa Civil Chagas Vieira (PDT) circulam como nomes prontos para compor qualquer arranjo que se forme em torno de Elmano.
Cid como vice, Jade acuada e oposição testa Ciro ao governo
A hipótese de Cid Gomes integrar a chapa de Elmano como vice-governador ganha força no início do ano e reabre o jogo interno. O presidente da Assembleia Legislativa, Romeu Aldigueri (PSB), é o primeiro a dar voz pública ao movimento. “Eu tenho certeza de que o senador Cid estará na chapa majoritária, seja para senador ou até vice-governador”, afirma em 22 de maio, exibindo convicção de que o PSB não ficará de fora da cabeça de chapa.
A leitura encontra eco no Palácio. A vice-governadora Jade Romero (PT), hoje ocupante do cargo, admite o peso da composição política e a dificuldade de manter uma chapa “pura”, apenas com nomes petistas, diante do arco de alianças montado em 2022. Ela, ainda assim, tenta preservar espaço. Diz que seria uma “satisfação muito grande” ter Cid na chapa majoritária, como senador ou vice, e se dispõe a defender o nome dele mesmo que isso signifique abrir mão do próprio posto. “Se for para defender o nome do Cid ao lugar de vice e eu puder fazer isso, farei com muito orgulho, com muita satisfação”, afirma.
Na prática, Jade vê minguar o investimento político em sua permanência na vice. Interlocutores avaliam que suas chances são maiores em uma disputa à Câmara dos Deputados, numa chapa proporcional em que o PT e aliados precisam de votos para manter ou ampliar bancadas. Cid, com capital político consolidado e histórico de duas gestões no governo estadual, surge como ativo eleitoral importante para reforçar a reeleição de Elmano, sobretudo diante do provável enfrentamento com o irmão, Ciro Gomes.
Na oposição, Ciro completa a guinada ao PSDB e passa a ser tratado como principal nome para enfrentar o PT no Estado. A articulação começa tímida, com o ex-ministro citado como opção para o governo, e acelera após o anúncio da troca do PDT pelo ninho tucano. O então presidente estadual do PSDB, Ozires Pontes, avaliza publicamente a ideia. Em abril, Ciro diz estar “amadurecendo” a candidatura e revela estar “cada dia mais inclinado a ser” candidato ao governo, embora repita que ainda “não tira o Brasil da cabeça”.
Aliado de longa data, Roberto Cláudio, ex-prefeito de Fortaleza e hoje no União Brasil, antecipa que a pré-candidatura de Ciro ao governo deve ser consolidada em maio de 2026. A costura prevê uma chapa competitiva que explore o desgaste natural de governo em fim de mandato e tente nacionalizar a disputa, aproximando Ciro do discurso oposicionista a Lula e ao PT, num momento em que o Planalto buscará renovar mandato.
Impasse no PL pelo Senado e o que está em jogo até 15 de agosto
O outro eixo da oposição se organiza em torno do PL, que busca protagonismo na corrida ao Senado, mas entra em rota de colisão interna. O deputado estadual Alcides Fernandes divulga um vídeo com apoio de ao menos 17 lideranças bolsonaristas, incluindo nomes de peso do partido no Ceará, que defendem sua indicação como representante único da sigla na chapa de oposição. Em março, o diretório estadual se reúne com pré-candidatos e escolhe Alcides por unanimidade para disputar o Senado.
A decisão colide com os planos da vereadora Priscila Costa, também do PL, que já havia se lançado pré-candidata ao Senado. Ela diz não ter sido informada sobre a pretensa candidatura única e recorre à direção nacional para manter o projeto. “Não estou sabendo disso. Não recebi nenhuma informação nesse sentido por parte da nacional”, afirma à época, numa crítica velada à condução do diretório estadual.
O embate se intensifica em 18 de maio, após o vídeo pró-Alcides circular nas redes. Priscila confirma que mantém a pré-candidatura, reforça o “respaldo popular” da sua postulação e alfineta adversários ao dizer que não depende de “familiares políticos” pedindo votos. Em paralelo, passa a ser cogitada nos bastidores do PL como possível vice na chapa presidencial de Flávio Bolsonaro, caso o senador confirme a candidatura ao Planalto, o que aumentaria seu peso nas negociações locais.
O racha expõe divergências sobre o tamanho que o PL terá na aliança com Ciro ou com outro nome oposicionista. O grupo de Alcides entende que apenas uma vaga ao Senado cabe ao partido e que a outra deve ser moeda de troca com siglas aliadas, como União Brasil e Republicanos. A ala ligada a Priscila prefere esticar a corda, apostar na vitrine nacional de uma possível vice-presidência e usar 2026 para consolidar sua imagem como principal liderança bolsonarista no Estado.
Do lado governista, o quadro também segue aberto. Além da definição sobre o papel de Cid, a base precisa conciliar a pressão de MDB, Republicanos, PSD, PDT e PSB por espaço nas duas vagas ao Senado com a necessidade de proteger Elmano em um eventual embate polarizado com Ciro. A matemática envolve cálculo de sobrevivência partidária nas urnas e de governabilidade a partir de 2027, num cenário em que o Ceará tende a seguir como vitrine estratégica para o PT no Nordeste.
Próximos movimentos e incertezas até o registro das candidaturas
O relógio eleitoral impõe um marco objetivo: 15 de agosto de 2026, data-limite para registro de candidaturas no Tribunal Superior Eleitoral. Até lá, o que hoje parece alinhado pode se embaralhar em poucas semanas, seja por pressão de Brasília, por mudanças de humor em Brasília ou por fatos novos, como desdobramentos de investigações sobre uso de emendas e aproximações inesperadas entre antigos aliados e adversários.
Elmano tenta atravessar esse período com a máquina estadual operando obras e programas sociais, enquanto Lula mira no tabuleiro nacional e Camilo circula como articulador de confiança no Nordeste. Cid, no centro das expectativas, terá de decidir se volta às urnas ou se permanece como fiador de bastidores. Ciro, por sua vez, ancora a oposição em um discurso que ainda precisa provar fôlego além de sua base fiel. As chapas só se consolidam nos últimos meses, mas a disputa pelo governo e pelo Senado em 2026 já redefine, desde agora, o equilíbrio de forças no Ceará e pode indicar o rumo da política nacional a partir do Nordeste.
