Ausência de Alcolumbre acirra disputa por vaga de Jorge Messias no STF
A cinco dias da sabatina no Senado, governistas intensificam a mobilização para garantir a indicação de Jorge Messias ao STF, em meio ao silêncio de Davi Alcolumbre. O advogado-geral da União tenta consolidar, até 29 de abril de 2026, uma base que hoje é estimada em 47 votos, acima do mínimo de 41 exigidos para a aprovação, mas ainda sujeita a rearranjos de última hora.
Silêncio do presidente do Senado muda a correlação de forças
Nos corredores do Congresso, a ausência de Alcolumbre nas conversas sobre a indicação de Messias é tratada como um fato político relevante. O presidente do Senado, que tradicionalmente atua como fiador de sabatinas e votações para tribunais superiores, não recebe o indicado de Lula e se mantém fora das rodadas de negociação. A omissão contrasta com episódios recentes, em que ele se envolve diretamente na articulação de nomes para o Judiciário.
Governistas relatam que a falta de um gesto explícito do comando da Casa aumenta a insegurança em uma votação secreta e marcada para a véspera de um feriado. O cálculo político leva em conta a possibilidade de ausências no plenário e de mudanças de última hora de senadores que hoje se dizem favoráveis a Messias. Um aliado que acompanha os levantamentos internos afirma que o governo trabalha com a margem de 47 apoios, mas admite oscilação. “O número pode subir ou cair até o dia, por causa da data e do clima da votação”, diz.
Lula reage ao risco de dispersão e assume pessoalmente parte da articulação. Na segunda-feira anterior à sabatina, o presidente se reúne com o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), para checar votos, reforçar compromissos e tentar blindar a indicação de sobressaltos. A ordem no Planalto é manter contato direto com senadores indecisos e não perder nenhum espaço na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que concentra as atenções até a próxima quarta-feira.
A campanha mais longa para o Supremo e o peso de uma cadeira
Messias chega à sabatina com uma campanha considerada, por aliados, a mais longa já feita por um indicado ao Supremo no Senado. São cerca de cinco meses de peregrinação por gabinetes, desde o anúncio do nome, em novembro do ano passado, até a semana decisiva de abril de 2026. Nesse período, o advogado-geral se apresenta a parlamentares de diferentes campos, evita declarações polêmicas e tenta construir a imagem de técnico discreto e confiável.
O relator da indicação na CCJ, senador Weverton Rocha (PDT-MA), evita cravar um placar, mas se mostra confiante. Ele afirma que o indicado deve superar com folga os 41 votos necessários para a aprovação em plenário. “Eu sempre digo que ele tem que ter o suficiente, que é acima de 41. Pode chegar, e pode passar dos 50, mas também não, pelo voto ser secreto. O importante é ser suficiente”, diz o senador. Rocha reforça o discurso de perfil moderado do advogado-geral. “Um nome sereno, equilibrado, que não gosta muito de holofotes. Já atua muito na corte como AGU e é preparadíssimo, conhece o Estado como um todo.”
A vaga em disputa no STF tem impacto direto na correlação de forças da Corte pelos próximos anos. Um ministro pode permanecer no cargo até os 75 anos. Um nome alinhado politicamente ao governo tende a influenciar julgamentos que envolvem políticas públicas, mudanças econômicas e conflitos entre Executivo e Congresso. Para Lula, a escolha de Messias representa a tentativa de consolidar uma maioria mais estável em temas sensíveis, depois de decisões apertadas e divisões internas no tribunal.
A ausência de Alcolumbre, nesse contexto, é lida por senadores como um recado sobre limites à influência do Planalto na agenda do Senado. O presidente da Casa controla a pauta, define ritmo de votações e pode, na prática, atrasar ou acelerar indicações. Ao deixar claro que não lidera a campanha de Messias, ele empurra a responsabilidade política pela aprovação principalmente para o governo e seus aliados diretos.
Impacto na base governista e nos próximos julgamentos do STF
O desfecho da votação sobre Messias tende a redesenhar a relação entre o Planalto e o Senado. Uma aprovação confortável, com mais de 50 votos, fortalece a percepção de que Lula ainda mantém articulação sólida na Casa, mesmo sem o engajamento do presidente do Senado. Um resultado apertado, próximo do piso de 41 votos, expõe fragilidades da base governista e alimenta disputas internas por espaço e comando.
No campo jurídico, a entrada de Messias no Supremo pode alterar a balança em julgamentos sobre temas centrais para o país. Estão no horizonte ações sobre política econômica, programas sociais, marco regulatório de setores estratégicos e limites de atuação de CPIs e comissões parlamentares. Um ministro mais jovem e com experiência recente no Executivo tende a levar à Corte um olhar atento à execução de políticas públicas e às disputas entre poderes.
Senadores da oposição avaliam que a indicação reforça a influência do governo no tribunal e acendem o alerta para decisões envolvendo o próprio Lula e aliados. Integrantes do governo, por outro lado, enxergam na possível aprovação de Messias uma chance de diminuir incertezas em pautas que travam investimentos e que dependem de aval judicial. O equilíbrio interno do STF, hoje marcado por decisões divididas em temas morais, penais e federativos, pode sofrer reajustes conforme o novo ministro se posicione em casos de maior repercussão.
Reta final de pressão e incertezas até a votação
A CCJ se prepara para uma sessão longa na próxima quarta-feira, com sabatina que deve se estender por várias horas. Senadores planejam questionar Messias sobre independência em relação ao governo, atuação como advogado-geral da União, decisões recentes da Corte e visão sobre liberdade de expressão, combate à desinformação e limites do ativismo judicial. O desempenho diante das câmeras e o tom das respostas podem influenciar votos ainda indefinidos.
Após a sabatina, a indicação segue para o plenário do Senado, em votação secreta, ainda no mesmo dia. Assessores contam que o governo pretende manter o corpo-a-corpo até os minutos finais, checando presença em tempo real e reagindo a qualquer sinal de deserção. A dúvida, entre aliados e críticos, é se o silêncio de Alcolumbre permanecerá até o último instante ou se o presidente do Senado fará um movimento de bastidor na reta final. A resposta, que se revela no painel eletrônico, indica não só o futuro de Jorge Messias no STF, mas também o grau de coesão política em torno do governo Lula na metade do mandato.
